Coimbra  10 de Maio de 2021 | Director: Lino Vinhal

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Agentes manifestaram-se hoje contra encerramento dos equipamentos culturais

14 de Janeiro 2021 Jornal Campeão: Agentes manifestaram-se hoje contra encerramento dos equipamentos culturais

Agentes e estruturas de cultura da região Centro manifestaram-se hoje, mostrando-se preocupados e desagradados com as medidas do novo confinamento.

“Já viemos de um ciclo de destruição do tecido cultural e com a ausência de medidas concretas de apoio à classe, com este novo confinamento, as expectativas são as piores possíveis”, afirmou à agência Lusa Isabel Craveiro, directora da companhia O Teatrão, de Coimbra.

Isabel Craveiro referiu que a maioria dos profissionais “vão ver aprofundada a falta de protecção e de apoio” e que se sente “apavorada” com o que possa ser anunciado por Graça Fonseca, ministra da cultura, porque “tudo o que foi feito até agora foi muito pouco”.

Já João Silva, coordenador da ‘Blue House’, em Coimbra, considera que com este confinamento o governo perdeu uma oportunidade “para mostrar que a cultura pode ser essencial”. “Da mesma forma que as pessoas necessitam de comprar o pão e o leite, também precisam de assistir a uma peça de teatro, cinema ou um concerto”, afirmou.

Para João Silva, que trabalha com 80 músicos da cidade de Coimbra, este novo confinamento poderá ser “a gota final” para muitos músicos e técnicos que já estavam numa situação difícil.

Este ano “não foi fácil para a ‘Blue House’ manter todas as suas obrigações, mas aguentou-se e no último trimestre do ano, em que fizemos mais de 60 eventos com vários agentes da cidade, foi também para dar algo que motive os músicos com que trabalhamos, que, sem perspectivas de concertos, acabam por entrar numa espiral de buraco negro psicológico”, realçou.

Também noutras cidades da região centro, como é o caso de Tondela, os agentes culturas se mostram preocupados. Para José Rui Martins, director artístico do Trigo Limpo Teatro ACERT, daquela cidade, o confinamento é “voltar atrás”, pois “já estava a haver uma recuperação de hábitos, de que a cultura é segura e isto é um murro”.

O responsável considerou que a decisão do Governo de manter os espaços religiosos abertos e encerrar todos os equipamentos culturais “é anacrónica”, salientando que os espaços são seguros, devendo ser equiparados ao comércio, porque a cultura é “um bem imaterial de primeira necessidade”.

“Devia ser analisado o papel que a cultura pode desempenhar como produto de primeira necessidade para a alma”, vincou, salientando que, durante o desconfinamento, o público aderiu “muitíssimo” às propostas da companhia porque “estavam a precisar de cultura”.

Fernando Sena, director do Teatro das Beiras, na Covilhã, também não consegue “compreender a dualidade de critérios”. “Não me parece que os espaços religiosos sejam mais seguros do que os culturais. Isto acaba por ser uma medida política que não terá muito a ver com a situação da pandemia”, afirmou.

O responsável salientou que está preocupado com a situação dos artistas que trabalham a recibos verdes, que ficarão “numa situação muito difícil”.

A Amarelo Silvestre, companhia de Canas de Senhorim, conta, tal como o Teatro das Beiras, com apoio sustentado da Direcção Geral das Artes e, nesse sentido, as preocupações financeiras não se sentem tanto como noutras estruturas sem esse apoio.

No entanto, Fernando Giestas, director da companhia, alertou para outros problemas que vão começar a surgir com os sucessivos reagendamentos de espectáculos. “Tudo está a ser adiado de maneira perigosa e como os teatros estão e estiveram a adiar tudo, vamos chegar a 2022 com uma sobreposição de projectos e os teatros não vão conseguir ter mão para tudo”, constatou.

Hugo Ferreira, presidente da cooperativa cultural Ccer Mais, que gere, entre outros, a editora leiriense Omnichord, não entende “o paradoxo” de permitir manter espaços religiosos abertos e não os equipamentos culturais.

Para Hugo Ferreira, “este confinamento vai ser diferente”, pois o responsável considera que programas “que se fizeram mais virados para o ‘online’ dificilmente se repetirão”, porque “as pessoas estão saturadas”.

“O que me preocupa muito mais é que não podemos parar. A grande maioria das pessoas do sector não quer viver de apoios, quer poder trabalhar. Se não é possível trabalhar nas salas, então que se prepare algo para pôr em execução, que se recebam projectos e candidaturas”, defendeu.

“Há duas frases muito batidas: a cultura é segura e a cultura também salva. Não nos podemos esquecer que a nossa fé é a cultura e devia ser precisamente esse um ponto essencial. As consequências da queda de um sector como a cultura são inimagináveis. Perde-se a capacidade de pensar o mundo e de voltar a imaginar um novo futuro”, frisou Hugo Ferreira.