Coimbra  5 de Dezembro de 2021 | Director: Lino Vinhal

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“A política das redes sociais é muito plástica!”

3 de Abril 2020 Jornal Campeão: “A política das redes sociais é muito plástica!”

Perfil publicado a 05 de Dezembro de 2019, na edição n.º 1001

 

Nome: JOÃO Eduardo Dias Madeira GOUVEIA
Naturalidade: Soure – Coimbra
Idade: 61 anos
Profissão: Economista; Deputado do PS eleito pelo círculo de Coimbra, após recondução de Marta Temido para o cargo de Ministra da Saúde
Passatempos: Praticar desporto (de manutenção), ler e ver televisão
Signo: Caranguejo

 

Conhecendo a história de João Gouveia dir-se-ia que, tendo percorrido uma boa parte do país ao longo da vida, nunca esqueceu de “levar no bolso” a terra que o viu nascer e à qual dedicou muitos anos. “Soure foi, e admito que continue a ser, a minha sede natural, portanto tenho uma ligação forte a esta vila. Mesmo quando estive fora, na prática nunca saí de lá. Eu costumava dizer que em Soure estamos no centro do centro de Portugal… que estar em Soure é fruir de Coimbra e de alguma tranquilidade que esta cidade, por vezes, possa não ter”, acrescenta.

Esteve por Soure até aos 11 anos lá regressando, de tempos a tempos (a dada altura todos os fins-de-semana), até ao momento em que volveu definitivamente às origens. Passou por Coimbra, deu um salto até Portimão (devido a contingências profissionais do trabalho do pai), voltou à cidade dos estudantes, rumou novamente ao Sul, concluindo o serviço cívico em Faro com 17 anos, e regressou, por fim, a Coimbra, em 1976, já para ingressar no ensino superior na Licenciatura em Economia. Não obstante a vida nómada, foi sempre dos melhores alunos nas turmas por onde passou. Os testes psicotécnicos que fez manifestavam alguma preferência pela área de Economia e Direito, ainda que tivesse bons resultados em todas as áreas. Mas, João Gouveia decidiu-se pela primeira opção, talvez por ser uma área que marcava o seio familiar.

Enquanto viveu no Algarve jogava futebol no Olhanense (onde foi campeão distrital de juvenis e juniores), desporto que continuou a praticar depois ao regressar a Coimbra, representando o Sourense e o Norte e Soure. Foi com a remuneração desta prática desportiva, aliado ao que ganhava com as explicações de matemática que ia dando, que conseguiu pagar os estudos.

Concluiu o bacharelato e foi colocado a dar aulas em Santa Comba Dão e depois em Leiria. Leccionou no ensino secundário e complementar durante cerca de dez anos, seis dos quais conciliando com o trabalho no Crédito Agrícola de Vila Nova de Anços, onde começou por ser Técnico Superior, depois Chefe de Serviço e, ainda, Director Executivo e Formador Nacional. Já próximo de meados dos anos 80 licenciou-se e concluiu também a Pós-Graduação em Fiscalidade de Empresas, à época, aberta apenas a licenciados.

A política, no seu estado mais “puro e duro”, surge nesta altura, ainda que desde jovem estivesse atento ao que se passava nesta área. É desafiado por um grupo de amigos e acaba por ser eleito deputado à Assembleia da República, pelo PSD, na VI legislatura (1991-1995). Em 1989 candidatou-se, pela primeira vez, à câmara de Soure. Não ganhou apesar de conseguir um dos melhores resultados do PSD. Quatro anos depois ganha as eleições por este partido em Soure, concelho que era o mais socialista do distrito de Coimbra e até mesmo do país. Foram aliás, os momentos protagonizados por João Gouveia (as três vezes em que este foi candidato à Câmara Municipal), os únicos em que o PSD celebrou vitória em Soure.
O Economista foi, assim, presidente da Câmara Municipal de Soure entre 1994 e 2013 (em cinco mandatos consecutivos – os três primeiros pelo PSD e os restantes pelo PS), tendo por várias vezes, ganho em todas as secções de voto, tanto pelo PSD como pelo PS. No seu percurso político, foi deputado da Assembleia da República e deputado ao Parlamento Europeu. Actualmente, cumpre mandato, pelo PS, na XIV Legislatura. É também presidente da Assembleia Geral da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários do Concelho de Soure (foi, aliás, condecorado com o Crachá de Ouro da Liga dos Bombeiros Portugueses), presidente da Assembleia Geral da Associação Prá Floresta do Concelho de Soure, ocupando o mesmo estatuto nas Assembleias Gerais da Santa Casa da Misericórdia de Soure e da Associação Portuguesa de Pais e Amigos Do Cidadão Deficiente Mental de Soure. É, após reeleição, Presidente da Assembleia Municipal de Soure, Membro da Assembleia Intermunicipal da CIM Região de Coimbra e do Conselho-Geral da Associação Nacional de Municípios Portugueses. No Parlamento, integra a Comissão de Orçamento e Finanças, a Comissão de Saúde e a Comissão de Administração Pública, Modernização Administrativa, Descentralização e Poder Local (nas duas últimas como suplente). De referir ainda que, em Maio de 2018, João Gouveia foi eleito para a Comissão Nacional do PS, o órgão máximo do partido entre congressos.

São vários os cargos desempenhados, várias as posições ocupadas ao longo da vida e um vasto leque de vitórias, motivos de orgulho para João Gouveia. Ainda assim, confessa existir algo que gostava de ter feito e não fez: “Há uma pequena frustração em mim. Acho que devia ter aprendido a tocar algum instrumento musical. Não foi falta de vontade mas sim de tempo. Por muito que achasse que o dia tinha 24 horas eu também tinha de dormir cinco ou seis. Quando era estudante e ia a Soure ao fim-de-semana eu, muitas vezes, era o carregador do grupo musical Devil’s Band, mais tarde Anátema, que uns amigos meus tinham. Eles iam actuar a uma festa e a forma que eu tinha de ir com eles e entrar à borla era ajudando a carregar os instrumentos. A música, seria uma forma de estar, por vezes, menos mal, quando estou sozinho e chateado”, conclui

Acredita que ainda possa vir a ter alguns desafios pela frente e, à pergunta “considera-se um pessoa feliz e realizada?”, o deputado relativiza a resposta: “Normalmente estou mais tempo de bem comigo próprio e com o mundo do que zangado com o mundo e comigo próprio. Não é um estado permanente mas, não obstante as intermitências, se partimos do princípio que a definição de felicidade radica neste tipo de avaliação, eu sou feliz. É evidente se me perguntar estou realizado? Costumo dizer que estou satisfeito e orgulho-me do que fiz, mas estou insatisfeito. Acho que, enquanto tiver
saúde, certamente surgirão novos desafios e acima de tudo não me quero desiludir a mim próprio. Isso acontecendo também não desiludirei os outros”.

 

E AINDA…

“A partir do momento em que comecei a ser deputado municipal e depois vereador não escondi que me era muito difícil resistir aos desafios de natureza política. A certa altura a política foi um desafio e achava que a formação académica que tinha e também a nível profissional me permitiria transportar para a política um conjunto de aptidões.”

“O anterior mandato foi um mandato onde julgo ter atingido os objectivos propostos. Estou de consciência tranquila. Não me pus em bicos de pés e procurei colaborar de forma responsável assumindo que aquilo que considero fazer bem devia fazer e naqueles assuntos em que não me sentia vocacionado ou preparado não era a pessoa mais indicada para o fazer.”

“Em 2005 eu era visto como um social democrata muito à esquerda. Não é normal mudarmos de partido mas, se pensarmos que tive sempre uma forma de estar autónoma, isso explica, parcialmente, que em 2005 o meu ciclo no PSD tenha chegado ao fim. Aquando a minha passagem pelo Parlamento Europeu, na altura, tive a sensação que, nalgumas posições, eu era mais de centro esquerda que liberal. Mas, eu não mudei a minha forma de estar nem de pensar.”

“Acredito que neste novo mandato, em curso, após a decisão relativa à localização, a nova maternidade de Coimbra seja um projecto que se venha a concretizar. Para bem da região centro e porque se trata de uma solução nacional de inteira e elementar justiça.”

“Ando de bem com a vida. Claro que quando desempenhamos funções executivas a entrega é, normalmente, maior. Sinto que enquanto deputado, por vezes, faço um sub-aproveitamento de mim próprio. Não me restrinjo à minha actividade parlamentar, mantenho muita proximidade com os concelhos do distrito. Aliás, a política faz-se olhos nos olhos. Esta política das redes sociais é muito plástica e eu não abdico da política olhos nos olhos. Porque é muito importante aquilo que se ouve mas é mais importante ainda percebermos a forma como as pessoas estão a dizer as coisas. Acompanho as redes sociais mas considero que muito se perde quando algo se decide, quase, apenas e só, com base nas redes sociais.”

“Ganhei cinco mandatos seguidos na presidência de câmara de Soure e terei parado, como muitos outros colegas então presidentes, porque a lei também não permitia mais mandatos. Quando ganhei a última vez foi de forma significativa e os números evidenciam que não havia nenhuma saturação do eleitorado do concelho de Soure.”

“De João Gouveia podem contar com a proximidade habitual, disponível para todo o distrito, com a lealdade pessoal e institucional que é meu apanágio para com as pessoas e para com todos aqueles com quem tenho responsabilidade públicas.”

“Tive um período da minha vida em que disse sempre o que pensava, embora talvez a prudência tivesse recomendado que não tivesse dito tudo. Hoje, acredito que seja menos irreverente, já relativizo muito. O pragmatismo de hoje faz com que, porventura, já não diga tudo. Mantenho-me idealista mas a idade trouxe-me algum pragmatismo.”