Coimbra  17 de Outubro de 2019 | Director: Lino Vinhal

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“A minha agenda é a da felicidade”

11 de Novembro 2018

Perfil publicado a 30 de Agosto de 2018, na edição n.º 939

Nome: HELENA Maria de Oliveira FREITAS
Naturalidade: Mogege – Vila Nova de Famalicão
Idade: 55 anos
Profissão: Bióloga; Professora Catedrática na Universidade de Coimbra
Passatempos: Escrever, ler, ir ao cinema, passear pela natureza
Signo: Balança
Revela, divertida, ter sido “resultado de uma surpresa das vindimas”, nascida em casa dos avós maternos, “muito desejada e amada por eles” no seio de uma família minhota numerosa. Toda a família “teve a sorte de ter acesso aos estudos, desde os avós paternos que eram professores, à mãe também professora e ao pai licenciado em Direito”, esclarece. Circunstâncias profissionais do pai levam Helena Freitas a viajar com a família para Angola onde conclui os dois primeiros de escolaridade, em Silva Porto, completando depois a instrução primária no norte de Portugal, na aldeia de Joane.
Concluído o ensino primário a família instala-se em Coimbra onde ingressa na Escola Eugénio de Castro, integrando mais tarde a Escola Secundária D. Maria onde termina o ensino secundário. Já nessa altura se direcciona para a área que viria a estar sempre presente na sua vida, as Ciências, apesar de admitir “gostar de muitas coisas e muitas áreas ao mesmo tempo. Eu achava que o mundo precisava da Ciência mas ainda estive indecisa entre a Física e a Biologia e depois até pensei no Jornalismo… só que nesse caso teria de ir para Lisboa e eu namorava aqui com um jovem de Coimbra e depois acabei por ficar em Biologia. Eu sempre gostei de muitas coisas, até gostava do
desporto, queria conhecer tudo e mais alguma coisa”, esclarece.
Termina, em 1985, a licenciatura em Biologia pela Faculdade de Ciências e Tecnologias da Universidade de Coimbra não lhe restando dúvidas de que era a Ecologia a área que a seduzia “por ser a vertente mais holística da ciência, para conhecer o funcionamento dos sistemas vivos, pela necessidade de conhecer os sistemas”, acrescenta. Um percurso académico que, confessa, não foi fácil pelos contratempos que lhe eram impostos, particularmente, pela rapidez com que concluía os graus académicos a que se predispunha: “acabou por ser um pouco complicado aqui porque tinha morrido um professor que estava responsável por essa área e eu na altura não tinha mentores. Em 1986 concorri ao lugar de assistente para ficar na Ecologia aqui mas, na altura, em que eu teria prioridade numa primeira avaliação interna fui preterida pelo Conselho Científico por ser mulher e acabámos por entrar os dois candidatos.”
Mas os entraves, lamenta, não acabaram por aqui. Confessa ter feito um percurso académico solitário: “Ganhei uma bolsa para ir para os Estados Unidos mas decidi ficar aqui. Só que na altura a lei previa que tinha de estar no mínimo durante dois anos como assistente estagiária para poder entregar as provas para o mestrado e as pessoas ficavam mais anos e eu ao fim de dois anos entreguei logo as provas. Foi um percurso um pouco solitário porque não tive ninguém da área que me acompanhasse aqui, não tinha mentor…o professor aqui da casa, José Mesquita que era doutra área que identificou em Lisboa o professor Fernando Catarina, da área de Ecologia, e ele disponibilizou-se para vir às minhas provas porque aqui eu não tinha ninguém da minha área. E aí concluí as provas equivalentes ao Mestrado.”
Em 1988 ganha uma bolsa do governo alemão e vai viver para a Alemanha dividindo o tempo entre o doutoramento que estava a tirar e as aulas que vinha dar a Coimbra. Em 1993 doutorou-se em Ecologia pela Universidade de Coimbra, focando-se na especialidade de Taxonomia sobre o tema “as plantas tolerantes a ambientes salinos e extremos”, e decide, em pouco tempo, partir novamente à aventura. “Contactei por carta um professor da Universidade de Stanford nos EUA um pós-doutoramento na Universidade de Stanford, EUA, ganhei a bolsa e, em 1994/95, conclui-o.”
Quatro anos depois foi convidada a integrar a direcção do Instituto Português da Juventude em Lisboa, desafio que aceitou embrenhando-se também, entre 1999 e 2002, na liderança da Organização Não Governamental ‘Liga para a Protecção da Natureza’. Ainda durante o exercício destas funções propõe-se fazer a agregação para Professora Catedrática, objectivo que alcança no ano de 2003.

Foi membro do Conselho Geral da Universidade de Coimbra entre 2011 e 2015 e Vice- Reitora com as competências relativas às relações institucionais, ao desporto, à habitação universitária, ao polo de Alcobaça e aos museus, bem como ao acompanhamento ao Estádio Universitário e ao Museu da Ciência. Em 2004 assume a liderança do Jardim Botânico da Universidade de Coimbra cuja “reabilitação
considerava indispensável. Só tenho pena que quando propus, em 2004, a criação de um projecto de articulação de todos os espaços mais turísticos da cidade, não tenham percebido porque isso vai, inevitavelmente, acontecer”.
Interventiva e com uma responsabilidade social acentuada ao longo da vida, foi também eleita para dar apoio ao Gabinete do Primeiro Ministro no exercício das funções de coordenadora da Unidade de Missão para a Valorização do Interior, função que deixou de exercer em Junho de 2017, sublinhando, no entanto, que deixou “o cargo mas mantém a missão”.
Hoje sente-se realizada a nível pessoal e profissional mas há muitos projectos que ainda quer levar em frente, continuando a debater-se em prol da Ecologia, não descartando a hipótese de integrar a reitoria da Universidade de Coimbra no próximo ano. Mas sempre com uma prioridade: “A minha agenda é a da felicidade, eu quero é ser feliz. E procuro sê-lo no cumprimento com a responsabilidade da minha profissão, com a expressão da minha cidadania e com uma família numerosa e incrível.”

E ainda…

“Lembro-me sempre que a minha professora da escola primária teve uma conversa comigo antes do exame da quarta classe para que eu ajudasse as outras crianças que não tinham as mesmas condições que eu. Tenho presente essa memória de uma grande pobreza de muitas pessoas no período pré 25 de Abril com situações muito difíceis.”
“Há quem diga que eu vou deixando os projectos inacabados, o que acho absurdo…sim, claro, deixarei sempre projectos, mas como legado, não os deixo abandonados. É inevitável. Alguém tem de os começar.”
“O estádio universitário deveria ser uma peça fundamental na valorização progressiva da margem do rio Mondego.”
“Sempre fui muito interventiva. Acho que só faz sentido assim. Sou uma cidadã que sempre se envolveu em questões de cidadania e intervenção cívicas. Sou convicta daquilo em que acredito e acho que é minha responsabilidade contribuir. Tive uma vida intensa e diversa portanto também quero deixar esse legado à minha filha. Admito que há também aqui alguma ingenuidade porque eu sei que há circuitos e contextos mas eu gosto de construir e ir construindo, intervir e ir intervindo, projectar e ir projectando. Mas num âmbito mais formal, a entrada na política, em 2015, é uma resposta às circunstâncias. Eu tinha concluído o meu primeiro mandato como vice-reitora, nem perspectivava fazer o segundo, entretanto o Primeiro-Ministro António Costa convidou-me para ser cabeça de lista por Coimbra como independente no PS. E aceitei o convite.

A primeira coisa que me era proposto na unidade de missão era fazer o programa para a coesão territorial coisa que eu fiz no tempo previsto e foi uma coisa absolutamente louca, fiz milhares de quilómetros. E depois na avaliação final em que propunha novas medidas nem tive feedback e após duas ou três situações deste tipo achei que não estava lá a fazer nada e por isso em Junho do ano passado vim embora. Entretanto dá-se a tragédia de Pedrogão Grande e percebi que não havia entendimento da gravidade do problema. Deixei a unidade mas mantenho a missão. As desigualdades que estamos a criar são graves e mais tarde ou mais cedo o país vai sofrer com isto. ”
“Fui coordenar a unidade de missão com empenho e satisfação porque até era algo que tinha muito a ver comigo.”
“Este ano não dei aulas, foi um ano especial, estive a recuperar projectos que acompanho, viajei a nível nacional e internacional, tenho estado em muitas conferências de científicas e tenho uma filha que este ano entra na Universidade e estou a acompanhar de perto esse processo. Para o ano já volto a dar aulas.”
“Quero ser feliz, cuidar bem das pessoas de quem gosto. Eu sou uma pessoa responsável e atenta e a UC faz parte da minha vida. Vivo com preocupação a transição deste reitorado e estou atenta. Sim, tenho uma estratégia para a Universidade de Coimbra e é minha obrigação estar disponível.”

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