Carlos Cortes nasceu em Lisboa em 1970, tendo concluído a licenciatura em Medicina, na Universidade de Coimbra, em 1999. É presidente do Conselho Regional do Centro da Ordem dos Médicos desde 2014, director do Serviço de Patologia Clínica do Centro Hospitalar do Médio Tejo, EPE, desde 2011 e Médico Assistente Graduado Sénior de Patologia Clínica. Foi presidente do Conselho Nacional de Pós-Graduação da Ordem dos Médicos e é membro do Conselho Científico da revista científica da Ordem dos Médicos, a Acta Médica Portuguesa.
“Juntos pela Saúde” é o mote da sua candidatura à Ordem dos Médicos e em Entrevista à Rádio Regional do Centro e ao Campeão das Províncias deu a conhecer o projecto que defende para a Saúde.
Campeão das Províncias [CP]: Qual a razão de haver meia dúzia de candidatos a Bastonário da Ordem dos Médicos?
Carlos Cortes [CC]: São seis candidaturas com características muito diferentes, por isso é um sinal de vivacidade da Ordem dos Médicos. É o virar de uma página de um bastonário que está a completar o seu segundo mandato num período muito conturbado. O país está em crise há mais de dez anos, uma crise que teve a intervenção da Troika, era bastonário o professor José Manuel Silva, depois seguiu-se a crise pandémica e agora estamos a atravessar uma crise energética. Todas elas têm um ponto em comum, que é o enorme impacto social. Penso que terá sido esta vontade, de virar a página, que terá despertado o interesse de várias candidaturas.
[CP]: Hoje, dia em que arrancam as eleições, vai ser homenageado um dos candidatos na Ordem dos Médicos. Não é uma situação estranha?
[CC]: Na altura da pandemia foi criado um gabinete de crise, que teve um papel importantíssimo e do qual o Dr. Rui Nunes fez parte. Foi uma homenagem justa a todos que contribuíram na gestão desta crise, onde eu próprio também fui distinguido. Assinala o final do mandato, não há qualquer coincidência nefasta. Foi uma decisão nacional da Ordem dos Médicos, da qual eu faço parte. O reconhecimento é muito importante quando as pessoas têm um bom desempenho.
[CP]: Em que é que a sua candidatura se diferencia das outras?
[CC]: Juntos pela Saúde, o lema da minha candidatura, reflecte exactamente o que é este projecto. É uma proposta de união dos médicos e de agregação dos vários agentes do sector. Houve, durante muito tempo, um conflito permanente entre a Ordem dos Médicos e o poder decisor, tanto o Ministério da Saúde como outros organismos, como os hospitais e centros de saúde. Há um caminho que tem de se abrir, um caminho de construção e para isso temos de estar todos à mesa a dialogar. Temos de reflectir sobre os vários problemas que existem, pensar nas soluções e concretizá-las. É isto que a minha candidatura pretende.
[CP]: O que propõe para melhorar o acesso e o atendimento nos cuidados de saúde?
[CC]: O papel da Ordem dos Médicos é, em primeiro lugar, defender a qualidade da saúde. Muito recentemente, os deputados da Assembleia da República alteraram e quiseram que as Ordens profissionais deixassem de estar ao serviço dos seus destinatários, no caso da Ordem dos Médicos os destinatários são os doentes, e retirar esta responsabilidade à Ordem seria um erro muito grave. É verdade que a Ordem tem também a função de regular a profissão, por exemplo, através dos conselhos disciplinares e que, apesar do aumento de processos, temos conseguido diminuir o tempo de duração dos mesmos. A Ordem só pode defender a qualidade dos cuidados de saúde se também defender os médicos, porque são eles que prestam esses serviços. A classe tem sido maltratada nos últimos anos, desde logo porque não tem condições para exercer a profissão de forma digna, há falta de recursos. Mas além disso existe a falta de reconhecimento do papel dos médicos no sistema de saúde, nomeadamente na progressão de carreiras, que é praticamente inexistente, e também ao nível remuneratório. O Serviço Nacional de Saúde tem de criar condições de atractividade para fixar médicos nos locais onde são necessários.
[CP]: O que mudou da anterior ministra da Saúde, Marta Temido, para o actual ministro, Manuel Pizarro?
[CC]: As dificuldades na Saúde não vêm só do tempo da ministra Marta Temido, já têm muito anos. A liderança de Marta Temido teve aspectos positivos, mas também teve muitos aspectos negativos e tenho de salientar um. Não podemos ter um ministro que esteja de costas voltadas para os seus profissionais. A ministra Marta Temido não dialogou. Já criei várias vezes grandes expectativas em relação a ministros, agora é ver para crer. Foram anunciadas algumas medidas que me parecem interessantes, nomeadamente o alargamento das Unidades de Saúde Familiares, mas há outras em que tenho algumas dúvidas, por exemplo na criação das Unidades Locais de Saúde que estão previstas para a região Centro e também tenho sérias dúvidas na decisão de acrescentar mais duas unidades hospitalares àquele que é o maior centro hospitalar do país, o Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, ao qual se vai acrescentar a Unidade do Rovisco Pais e o Hospital de Cantanhede. Provavelmente a ideia não é juntar estas unidades, mas é eliminar algumas delas e eu penso que é um erro muito grande.
[CP]: Há médicos de família suficientes para criar mais Unidades de Saúde?
[CC]: Nós temos cerca de 1,4 milhões de portugueses sem médico de família, de facto o país tem de fazer um esforço grande na formação de médicos especialistas e esse esforço tem de ser feito investindo nos cuidados de saúde primários, nas remunerações, nos recursos, na criação de mais Unidade de Saúde com melhores condições para os utentes e isso vai fazer com que mais médicos escolham esta especialidade e se mantenham no Serviço Nacional de Saúde.
[CP]: Qual é a sua opinião sobre a direcção executiva do Serviço Nacional de Saúde?
[CC]: Acho interessante a criação desta direcção executiva do SNS porque permite que o titular desta pasta seja ministro não apenas do SNS, mas de todo o Sistema de Saúde. A Saúde não é só o sector público, é também o sector privado e não nos podemos esquecer de outros dois ministérios que dão um contributo valioso à saúde em Portugal: o Ministério da Defesa Nacional, com os hospitais militares e o Ministério da Justiça com a Medicina Legal. Outro sector que tem de ser tido em conta na Saúde é o sector social. Falamos do problema das urgências e da falta de médicos, mas esta é uma pequena parte do problema. Um dos grandes problemas das urgências são os doentes que, depois de tratados, não têm condições de regressar ao seu domicílio, ou porque vivem sozinhos ou porque as pessoas com quem vivem não têm capacidade para tratarem deles. Temos que investir também no sector social, porque isso resolve grande parte do problema das urgências.
[CP]: Não iria aliviar mais haver mais consultas nos centros de saúde?
[CC]: A Saúde Familiar foi a especialidade que mais evoluiu em Portugal nas últimas décadas. A lista de utentes de um médico de família, para fazer um trabalho de qualidade, deveria ser à volta dos 1.500 utentes. Neste momento, as listas de utentes são de 1.700/1.800 e frequentemente ultrapassam os 2.000, o que é um trabalho sobre-humano. Os médicos de família fazem muito bem o seu trabalho. Aquilo a que se refere aqui, é àquelas pessoas que se dirigem às urgências sem motivo para o fazerem, são os que na triagem de Manchester ficam com as pulseiras brancas, azuis e verdes, mas que representam 47% dos doentes. Tem que haver maior responsabilidade. Muitas dessas pessoas têm consciência que os seus sintomas, sabem que não são um episódio de urgência, mas vão às urgências porque creem que vão ser atendidas mais rapidamente.
[CP]: Como é que entram aqui os tarefeiros?
[CC]: Não gosto muito da expressão tarefeiro porque dá ideia de que fazem pequenas tarefas, o que não é o caso. Prefiro o nome de prestadores de serviços, são pessoas que têm um contrato de trabalho com uma instituição e que prestam um trabalho altamente diferenciado. Não é a solução ideal, eu defendo a criação de condições para contratar médicos, mas não havendo, esta é uma segunda opção, é uma solução de recurso. Cabe ao Estado resolver este problema.
[CP]: Há quem defenda que quem teve a sua formação com recursos públicos deveria ser obrigado a prestar serviço no público durante algum tempo, antes de ter a possibilidade de ingressar no privado ou ir para o estrangeiro. Concorda com esta posição?
[CC]: Era bom que as pessoas que defendem essa posição avaliassem outro aspecto. Estamos a falar de médicos em formação, representam 1/3 de todos os médicos do SNS, e além de estarem em formação também fazem actividade assistencial, ou seja, trabalham e produzem nas consultas, participam nas cirurgias, asseguram serviços de urgência, têm um trabalho inestimável para a sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde. Estes médicos não devem nada ao SNS, os médicos internos estão no dia-a-dia no terreno.
Luís Santos / Joana Alvim