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ENTREVISTA: Politécnico pronto a investir 24 milhões na Bencanta

4 de Dezembro 2022 Jornal Campeão: ENTREVISTA: Politécnico pronto a investir 24 milhões na Bencanta

Jorge Conde é presidente do Instituto Politécnico de Coimbra (IPC) desde 2017, tendo sido reeleito para o quadriénio 2021-2025 o que significa que este será o seu último mandato. Doutorado em Ciências do Desporto, ramo de Actividade Física e Saúde, professor especialista em Cardiopneumologia. É professor coordenador na Escola Superior de Tecnologia da Saúde de Coimbra (IPC-ESTeSC), conta com mais de 100 artigos publicados e de 200 comunicações em congressos. A recandidatura à presidência do IPC deveu-se a querer levar mais longe as suas metas e o traçar novos objectivos.

Campeão das Províncias [CP]: Esteve agora há dias em Cabo Verde e não foi em férias?

Jorge Conde [JC]: Estivemos lá na 12.ª conferência Forges que terminou a 25 de Novembro. É um fórum de gestão do ensino superior que tem por objectivo promover a aproximação de toda a comunidade académica, em especial os decisores da política educativa, os membros dos órgãos de gestão das instituições, os docentes e investigadores do mundo lusófono.

Hoje as instituições do ensino superior medem-se também pela sua capacidade de internacionalização e há várias formas e mercados para o fazer. Nós optámos pelo mercado lusófono pela facilidade da língua. Neste momento temos entre 800 a 900 alunos estrangeiros no IPC.

 [CP]: O futuro das instituições passa por aí?

[JC]: Tentamos contrariar a baixa natalidade, que se faz sentir no ensino com a falta de alunos, com a captação de jovens para Portugal. A verdade é que sem este movimento de imigração não vamos conseguir formar jovens para manter muitas empresas. Estamos a assistir a isso, muitas estão a reduzir a capacidade de produção por falta de mão de obra. A grande maioria destes alunos vem estudar por sua conta. Estamos a tentar estabelecer protocolos nos países de origem de forma a garantir a sua estadia sem privações de maior. Já aconteceu no passado alguns não terem meios de subsistência e tentamos fazer para que não se repita.

[CP]: É o seu último mandato. Satisfeito com este serviço cívico?

[JC]: Sim. Se não tivesse ficado satisfeito com os primeiros quatro anos não me tinha recandidatado. Também me recandidatei porque a maioria dos projectos, não apenas por força da COVID, mas também, se atrasaram. Genericamente estou satisfeito com o trabalho que temos realizado. Ao contrário do que se diz, as escolas do IPC têm mais autonomia agora. A visão que implementei no IPC não foi inventada por mim, é a visão que existe em 12 dos 15 politécnicos e em todas as universidades, que têm esta estrutura definida desde sempre. A excepção eram os Politécnicos de Lisboa, Porto e Coimbra, que se têm ajustado. Aqui foi mais difícil implementar e durante mais de 30 anos fizemos isto mal. Prova disso é que fomos ultrapassados por Leiria em quase todos os indicadores. Se formos capazes de verticalizar (juntar) o que deve ser verticalizado, vamos ser muito mais eficientes. Por outro lado, há sectores, como o pedagógico e o científico, que podendo trabalhar em conjunto se devem manter identitários de cada escola. Se o IPC recuar neste caminho de identidade conjunta, voltará a ser uma instituição de que não se falará. Temos que ter noção que uma comunidade de 12.000 pessoas é obrigatoriamente mais importante que uma comunidade com 2.000, ou 3.000. A escola Agrária que é talvez a marca mais identitária do nosso Politécnico, é um bom exemplo. Esta escola é talvez a mais forte do País, na sua área. Nos últimos quatro anos, talvez fruto desta estratégia de comunicar, muito ligada à marca Politécnico de Coimbra, duplicou o número de alunos colocados na primeira fase de acesso. Digo talvez porque esse estudo está por fazer.

 [CP]: Em Oliveira do Hospital a realidade é semelhante?

[JC]: O que nós fizemos com a marca Oliveira do Hospital foi potenciá-la e hoje a escola, quando comparada com há cinco anos atrás, duplicou o número de alunos. Eu diria que, fazendo a residência que está prevista; a Câmara Municipal avançando com o projecto da nova escola, poderemos ter a partir de 2025 uma estrutura sólida. A escola é a âncora da cidade e tenho noção que a Câmara tem isso presente, ainda que ao longo de 20 anos não tenha sido a sua primeira prioridade, daí que, a escola não tenha ainda umas instalações compatíveis com a sua importância. A escola passou de 200 alunos a 700. Vamos, por isso mesmo, investir 4,5 milhões de euros, do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), em Oliveira do Hospital para a construção de uma residência.

[CP]: O IPC vai contruir uma residência para os alunos que frequentam a escola de Oliveira do Hospital. E em Coimbra?

Sim, vamos construir uma residência com 98 camas. Pretendemos com esta construção resolver o problema de alojamento dos nossos alunos e também resolver um problema urbano, recuperando um imóvel que está fechado há anos no melhor sítio da cidade de Oliveira do Hospital. Em Coimbra vamos fazer uma residência com 400 camas em Bencanta e vamos também fazer a recuperação das actuais, porque há uma dificuldade cada vez maior de bom alojamento a preços acessíveis. Vamos fazer aí um complexo com três edifícios residenciais e uma escola, é um investimento que ronda os 18 milhões de euros de fundos PRR, dos quais cerca de 14 milhões de euros são para a residência e 4 milhões de euros para a escola de cursos técnicos superiores profissionais.

[CP]: Prevê que o arranque deste complexo ainda seja no seu mandato?

[JC]: Eu prevejo que se a Câmara Municipal de Coimbra nos ajudar com a agilização dos licenciamentos, possamos começar a obra antes do Verão do próximo ano. O projecto está a ser concluído, entrará na Câmara ainda neste ano civil. A nossa expectativa é que a obra inicie até ao verão porque se não o fizermos a probabilidade de não o conseguirmos concluir em tempo de PRR é muito grande. O IPC vai investir no concelho cerca de 24 milhões em obras novas e em reabilitação de edifícios existentes. Mas, este investimento com prazos muito curtos só será possível de concretizar, com a colaboração da Câmara Municipal na agilização das burocracias associadas.

[CP]: O espaço da Bencanta é o futuro do politécnico?

[JC]: As instituições que se agruparam em Campus foram aquelas que criaram maior dinamização e rentabilidade. Temos o exemplo de Aveiro e Tomar. É isso que faz sentido, não ficarei tempo suficiente para o concretizar, mas a minha ideia sempre foi essa. Propusemos no Conselho Regional do Centro, no quadro 2030, um investimento numa nova Escola Superior de Educação, que seria também colocada no Campus de Bencanta. Ficaria por levar para o novo Campus o Instituto Superior de Engenharia e a Escola Superior de Saúde. A ideia de um Campus é muito mais do que juntar as escolas num espaço, é a criação de uma identidade.

[CP]: O IPC está a investir nos alunos vindos das escolas profissionais…

[JC]: Já há provas adaptadas para estes alunos ingressarem no ensino superior, seja politécnico ou universitário. Estamos a negociar com a própria tutela no sentido de melhorar esta via, torná-la mais prática, de forma a agilizar o processo. A ideia de que só ingressava no ensino profissional quem não tinha condições para continuar os estudos por outra via neste momento já não se verifica. O mercado de trabalho mudou, valoriza-se o saber fazer por isso temos cada vez mais estudantes do ensino secundário a optar por este ensino.  A vantagem do ensino politécnico, para os alunos que vêm destes cursos, é que oferece cursos superiores técnicos profissionais que são um espaço entre o ensino secundário e as licenciaturas. Pela importância que damos a esta área, vamos criar a sétima escola do IPC, também em Bencanta, só dedicada a estes cursos.

[CP]: Mantém a sua luta pela equivalência entre ensino politécnico e ensino universitário?

[JC]: Eles já são equivalentes, mas diferentes. Apesar de cada vez menos diferentes. Esta causa está na Assembleia da República, temos feito trabalho, quase diariamente, no sentido de mostrar que não só os politécnicos têm capacidade para dar doutoramentos, como a alteração da designação para Universidade Politécnica beneficia o País, não prejudicando ninguém. Na prática nós já fazemos doutoramentos, mas com o favor das universidades. Há doutoramentos em parceria e há muitos alunos de doutoramento, que desenvolvem a sua investigação nos nossos laboratórios, mas o diploma é passado exclusivamente pelas Universidades.

 

Lino Vinhal / Joana Alvim

 [Entrevista da edição impressa do “Campeão” de 1/12/2022]