Passados seis meses desde que assumiu os destinos do município, José Miguel Ramos Ferreira faz um balanço franco do início do seu mandato à frente da Câmara Municipal de Miranda do Corvo. Numa conversa que cruza os desafios imediatos com a visão de futuro para o concelho, o autarca recorda o impacto das intempéries que marcaram os primeiros dias de governação, mas foca-se nas janelas de oportunidade que se abrem para o território.
Campeão das Províncias [CP] – Passados seis meses da tomada de posse, a realidade que encontrou no quotidiano da Câmara corresponde àquela que projectava enquanto candidato? Qual foi a maior surpresa (positiva ou negativa)?
José Miguel Ramos Ferreira [JMRF] – Diria que, no essencial, a realidade correspondeu ao que antecipava. Tinha consciência de que tinha uma grande equipa comigo, mas também de que existiam muitos problemas acumulados, necessidade de maior proximidade às pessoas e uma máquina municipal que precisava de voltar a acreditar nela própria.
A maior surpresa positiva foi precisamente a abertura e determinação de muitos trabalhadores da Câmara, sobretudo dos colaboradores “comuns” que estão no terreno e nos serviços do dia-a-dia, em fazerem parte de um projecto transformador para o concelho.
A maior surpresa negativa foram claramente as tempestades, em especial a Kristin, que provocou prejuízos de milhões de euros no concelho e obrigou a redefinir prioridades logo no início do mandato.
[CP] – Como encontrou a saúde financeira do Município e de que forma isso condicionou o seu plano para estes primeiros meses?
[JMRF] – O maior condicionamento foi encontrarmos um Município com poucos projectos preparados e com reduzida capacidade de captação de fundos comunitários aprovados, o que condiciona naturalmente a velocidade de transformação que gostaríamos de imprimir.
No entanto, apesar de algumas dificuldades de tesouraria no imediato, encontrámos um Município sem dívida bancária relevante, o que nos dá capacidade de investimento e margem de endividamento para concretizar projectos estruturantes.
[CP] – Se tivesse de escolher uma única medida ou decisão destes primeiros 180 dias que resuma o “estilo de governação” do seu executivo, qual seria?
[JMRF] – É difícil escolher apenas uma porque acredito numa governação muito focada em resolver problemas concretos das pessoas. Mas diria que há quatro exemplos muito simbólicos.
A constituição do condomínio e a reabilitação do Multi-serviços de Semide representam uma vontade clara de devolver dignidade a equipamentos e territórios esquecidos.
O trabalho feito para recuperar o investimento do Licor Beirão mostra uma Câmara determinada em criar emprego e apoiar investimento privado.
O avanço do saneamento em Vila Flor, Giestal e Meroucinhos, na freguesia de Vila Nova, demonstra que queremos olhar para todo o território, reforçando as condições de dignidade das pessoas. E a renomeação do Comandante Operacional Municipal Fernando Jorge mostra também um tempo novo em que se procura trabalhar com todos em função da sua preparação para o lugar, independentemente das opções pessoais ou partidárias.
[CP] – Miranda do Corvo é uma referência nacional no sector social, com a Fundação ADFP. Como tem sido a articulação do Município com as IPSS do concelho e que estratégia tem para fixar a população mais jovem?
[JMRF] – Miranda do Corvo tem um sector social extraordinário e instituições muito relevantes para a vida do concelho. Temos procurado trabalhar com todas numa lógica de cooperação permanente e de valorização do papel ue desempenham.
Em relação à fixação de população jovem, estamos absolutamente focados em criar um concelho pensado para as famílias, uma verdadeira “Vila Família”. Acreditamos que um território seguro, com boa escola pública, habitação acessível, respostas para crianças, vida comunitária forte, abertura ao investimento privado e à criação de emprego qualificado, forte participação cívica e proximidade a Coimbra pode ser altamente competitivo.
[CP] – A transferência de competências tem sido um cabo de trabalhos para muitos municípios. Como está a correr este processo em Miranda do Corvo?
[JMRF] – Os recursos são claramente insuficientes, sobretudo na manutenção e requalificação de equipamentos. No caso da Educação, continua também a existir pouca autonomia efectiva para os municípios poderem adaptar respostas às realidades locais. Apesar disso, Miranda do Corvo tem conseguido resultados muito positivos. Em 2025, a Escola José Falcão, com o empenho de toda a comunidade escolar, afirmou-se como a melhor escola pública do distrito de Coimbra nos exames nacionais, algo que muito nos orgulha.
[CP] – O que está a ser feito para tornar o concelho mais atrativo para a fixação de novas empresas que criem emprego qualificado?
[JMRF] – Estamos a procurar criar uma relação completamente diferente entre Câmara Municipal e investidores. Temos acompanhado directamente os empresários e comerciantes do concelho, dando especial atenção às empresas instaladas na Zona Industrial da Pereira, ajudando a desbloquear problemas antigos e acelerando processos.
Definimos também o Parque Empresarial de Lamas como projecto estratégico municipal. A localização junto ao nó da A13 pode transformar o concelho e a região. Somos o prolongamento natural de Coimbra e estamos a menos de 100 minutos de Lisboa e do Porto, com excelentes acessibilidades.
Ao mesmo tempo, estamos a preparar a requalificação do espaço de acolhimento empresarial e a criação de novos espaços de cowork em vários pontos do território para atrair projectos mais qualificados e ligados ao trabalho remoto.
[CP] – O turismo de natureza e a proximidade à Serra da Lousã são activos valiosos. Que estratégia tem para que o turismo em Miranda do Corvo não seja apenas “de passagem”, mas sim gerador de receita directa no comércio local?
[JMRF] – O turismo em Miranda do Corvo já hoje é muito mais do que turismo de passagem. Temos activos únicos e uma oferta muito diferenciadora com o Gondramaz, o Parque Biológico, a Chanfana e gastronomia regional, os trilhos pedestres, o Templo Ecuménico, o Mosteiro de Semide, o Santuário do Senhor da Serra, o Alto do Calvário, a Loja do Sr. Falcão, a Casa Amarela, a Casa das Artes e tantos outros elementos distintivos.
O nosso foco tem sido valorizar melhor aquilo que temos com arrojo e inovação. A campanha “A um Metro de Si”, o “Berço da Chanfana”, o trabalho em torno do posicionamento do Mosteiro de Semide e os futuros projectos ligados ao turismo familiar e aos trilhos da Serra da Lousã fazem parte dessa estratégia.
Temos novos projectos de alojamento com muito potencial a serem construídos no concelho e estamos também a trabalhar soluções para atrair investidores que possam requalificar a antiga estação e equipamentos ferroviários para usos turísticos.
[CP] – Qual é a sua avaliação actual do impacto do Metrobus na vida dos mirandenses?
[JMRF] –O Metrobus ainda precisa de alguns ajustamentos e melhorias operacionais, mas acredito que será um projecto absolutamente transformador para Miranda do Corvo.
Hoje estamos a cerca de 25 minutos do centro de Coimbra em transporte público colectivo, com uma frequência muito relevante. Isso coloca Miranda numa posição única: um concelho seguro, com excelente escola pública, boa oferta de saúde pública e privada e muita qualidade de vida, mais próximo do centro da cidade do que muitos territórios vizinhos e até do que várias freguesias da própria Coimbra.
[CP] – A coesão territorial faz-se com proximidade. Que articulação tem sido feita com as diferentes Juntas de Freguesia para garantir que o investimento não se concentra apenas na sede do concelho?
[JMRF] – Essa tem sido uma prioridade absoluta porque acreditamos que Miranda do Corvo não pode ser apenas a vila. Avançámos com grandes investimentos de saneamento na freguesia de Vila Nova, resolvemos problemas antigos nos Casais de São Clemente e em Lamas, estamos a requalificar o Multi-serviços de Semide e preparamo-nos para lançar novos projectos transformadores do território.
Vamos também assinalar, pela primeira vez em muitas décadas, o Feriado Municipal em Semide e Rio de Vide. Um acto de um enorme simbolismo.
Ao mesmo tempo, aumentámos em 28% as transferências para as Juntas de Freguesia e lançámos projectos comunitários pioneiros para combater o isolamento nas aldeias, como o “Aldeias Vivas” e o “Comunidades Activas”, sempre de braço dado com o movimento associativo.
[CP] – Quais são as grandes obras ou projectos que Miranda do Corvo quer concretizar, aproveitando o Portugal 2030 e outros financiamentos?
[JMRF] – Temos várias prioridades estruturantes para definir Miranda do Corvo como um concelho extraordinário para famílias viverem. Além do saneamento, do Parque Empresarial de Lamas e da reconversão do espaço de acolhimento empresarial, queremos conseguir financiamento que nos permita avançar com o Jardim da Paz, um grande parque urbano familiar. Pretendemos também reabilitar a Piscina Municipal e os equipamentos desportivos do concelho e lançar um programa ambicioso de habitação acessível para jovens e famílias.
[CP] – Daqui a três anos e meio, quando os munícipes voltarem às urnas, qual gostaria que fosse o principal legado deste seu mandato?
[JMRF] – Gostava que as pessoas sentissem que voltaram a ter um pouco mais de confiança na Câmara Municipal e na política local, sendo pessoalmente reconhecido como alguém próximo, trabalhador e genuinamente empenhado em chamar as pessoas à decisão, envolvendo-as na construção do futuro do concelho e ajudando a transformar Miranda do Corvo num dos melhores territórios da região para viver e criar família.