Coimbra  17 de Maio de 2026 | Director: Lino Vinhal

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João Gabriel Silva: “As empresas têm de nascer já a pensar no mundo”

17 de Maio 2026 Jornal Campeão: João Gabriel Silva: “As empresas têm de nascer já a pensar no mundo”

João Gabriel Silva, antigo Reitor da Universidade de Coimbra e actual presidente da Direcção do Instituto Pedro Nunes (IPN), fala sobre a missão da instituição, a ligação à Universidade, o novo papel no MIT-Portugal e o lugar de Coimbra na inovação tecnológica.

Campeão das Províncias [CP]: O IPN acaba de assumir novas responsabilidades. Antes disso, importa explicar: afinal, o que é hoje o Instituto Pedro Nunes?

João Gabriel Silva [JGS]: O IPN é um lugar raro, de energia positiva. É um sítio onde as pessoas estão ocupadas a construir coisas, a responder a desafios e a fazer acontecer, em vez de gastarem tempo a dizer mal dos outros.

Tem três vertentes de actuação. A primeira, e mais definidora, é a incubação: ajudamos empresas inovadoras a nascer e a crescer nos primeiros anos. A segunda são os laboratórios de investigação aplicada, que trabalham com empresas e, pontualmente, também dão origem a novas empresas. A terceira é a formação especializada, mais pequena, mas com um desenvolvimento recente e uma internacionalização interessantes.

 

[CP]: Qualquer pessoa pode bater à porta do IPN com uma ideia?

[JGS]: Absolutamente. O IPN está aberto a toda a gente. Naturalmente, muitas empresas vêm do mundo científico e tecnológico, porque é aí que surgem muitas ideias com potencial de mercado, mas não há restrições de origem, idade, género ou nacionalidade.

Recebemos candidaturas também do estrangeiro, incluindo de russos que fogem da guerra, iranianos e outras pessoas que procuram escapar a regimes autoritários. Não somos um campo de refugiados, há instituições próprias para essa missão, mas também não discriminamos ninguém pela sua origem, mesmo que tenhamos grandes discordâncias sobre as ações do seu país, pois não se pode responsabilizar um cidadão pelas decisões do seu Governo. Portugal conhece bem a emigração e o exílio dos seus, particularmente antes do 25 de Abril, quando os portugueses eram bem recebidos mesmo em países que discordavam totalmente da guerra conduzida pelo Governo português.

 

[CP]: Então quais são os critérios para o IPN aceitar um projecto?

[JGS]: São dois. O primeiro é a inovação. A proposta tem de ser diferente do que já existe, pelo menos numa vertente relevante. Não tem de ser necessariamente tecnológica; pode estar por exemplo no posicionamento no mercado, mas tem de trazer algo novo.

O segundo é a viabilidade económica. No início nunca há certezas, mas os promotores têm de mostrar que conhecem a concorrência, que sabem qual é o seu factor de diferenciação e que existe alguém disposto a pagar pelo produto ou serviço. Há muitas ideias interessantes, mas é preciso perguntar: quem vai comprar isto? Se não houver resposta válida, é preciso voltar a pensar.

 

[CP]: O IPN financia essas empresas?

[JGS]: Não. O IPN não é um investidor nem um banco e não financia empresas, embora ajude a encontrar financiamento. O que fazemos é apoiar a viabilização do projecto e preparar as empresas para terem melhores condições de sucesso.

Muitas vezes, quem chega com uma ideia não imagina a quantidade de assuntos que é necessário dominar para criar uma empresa: questões legais, fiscais, laborais, propriedade intelectual, patentes, marcas, recrutamento, protótipos, procura do primeiro cliente, internacionalização. A amplitude do apoio que damos, que abrange tudo isto, é uma das razões pelas quais digo, com objectividade, que o IPN é a maior e melhor incubadora portuguesa.

Os nossos laboratórios também ajudam as empresas recém-nascidas a desenvolver protótipos e provas de conceito. Para um financiador ver uma tecnologia a funcionar é muito mais convincente do que apenas ouvir uma boa descrição.

[CP]: E que ligação mantém hoje o IPN à Universidade de Coimbra?

[JGS]: A ligação é fortíssima. O IPN é uma associação privada sem fins lucrativos, fundada por iniciativa da Universidade de Coimbra em 1990, e não recebe dinheiro do Orçamento do Estado. Mas, estatutariamente, o presidente da Direcção tem de ser professor da Universidade de Coimbra e a Universidade tem mais de 40% dos direitos de voto na Assembleia Geral.

É uma relação de complementaridade. A incubação de empresas está fora da missão central de uma universidade, que é ensinar e investigar. A investigação aplicada faz-se hoje também nas universidades (não era assim quando o IPN foi criado) mas, no IPN, esse é o foco único, ao contrário da Universidade onde está associada à investigação fundamental.

 

[CP]: Olhando para a eleição e para o novo estilo da Reitoria, a Universidade de Coimbra mudou?

[JGS]: As universidades, sobretudo as muito antigas, só sobrevivem se forem capazes de se adaptar. A Universidade de Coimbra é campeã da adaptação pois, ao longo dos séculos, atravessou regimes, reformas, crises e mudanças profundas, e soube sempre ser relevante para a sociedade. Cada Reitoria tem naturalmente o seu estilo, a sua forma de decidir e de comunicar, mas o essencial é que a Universidade perceba o que o país espera dela e responda bem, no ensino, na investigação e na transferência do conhecimento para a sociedade. No meu tempo, uma das preocupações centrais foi tornar mais claros e exigentes os processos internos, em especial os de contratação do corpo docente. A Universidade de Coimbra tem de ser relevante neste mundo global, e não apenas relevante na sua região ou no seu país. Procurei responder ao desafio do mundo introduzindo regras mais claras, mais concorrência e maior exigência. A Universidade não perde autonomia por ser mais transparente e ter mais ambição e exigência; pelo contrário, ganha autoridade.

 

[CP]: O IPN nasceu num tempo em que essa relação entre universidade e empresas ainda era discutida?

[JGS]: Muito. Nos anos 80 e 90 havia quem achasse que as empresas eram uma realidade “suja”, marcada pelo lucro, e que a Universidade não se devia misturar com isso. Outros, entre os quais eu me incluía, defendiam o contrário: são sobretudo as empresas que criam riqueza, emprego e condições para uma vida digna, pelo que é nossa obrigação contribuir para a prosperidade da sociedade.

O IPN nasceu, em parte, como uma solução salomónica do Reitor Rui Alarcão: façam investigação aplicada com empresas, mas ao lado, não exactamente dentro da Universidade. Felizmente, hoje isso está resolvido. A ideia de que a Universidade deve relacionar-se com o tecido económico e social é consensual.

 

[CP]: Que novas funções assumiu agora o IPN?

[JGS]: O IPN passou a acolher a gestão executiva do Programa MIT-Portugal. É um programa que já existe há bastantes anos, com fases de maior e menor fulgor. O Governo entendeu que era preciso introduzir uma nova energia e convidou o professor João Pedro Barreto, da Universidade de Coimbra, também empreendedor incubado no IPN, para assumir a co-direcção, em conjunto com um colega da Universidade do Minho. A Fundação para a Ciência e a Tecnologia concordou que o IPN era o sítio adequado para suportar essa dinâmica.

Para nós, isto faz todo o sentido. Uma das missões mais desafiantes do IPN é ajudar as empresas a internacionalizar. Para a maioria das empresas inovadoras, sobretudo tecnológicas, o mercado português é demasiado pequeno. Pode ser relevante, mas é insuficiente. As empresas têm de nascer já a pensar no mercado internacional e a ligação ao MIT está totalmente alinhada com esta necessidade.

 

[CP]: Essa ligação ao MIT é também um reconhecimento do papel do IPN?

[JGS]: Sem dúvida. É o reconhecimento de que o IPN é um sítio onde as coisas acontecem e funcionam.

Nós apoiamos tanto empresas que ambicionam crescer muito como empresas pequenas, de nicho, que podem ter cinco, dez ou vinte pessoas. Não queremos apenas “unicórnios”. O que nos interessa é que sejam inovadoras e viáveis, mas para todas o mundo é o palco onde se têm de afirmar.

 

[CP]: O IPN deixou marcas fortes fora de si próprio?

[JGS]: Sem dúvida. As pessoas talvez não tenham noção, mas das seis maiores empresas portuguesas de software, quatro têm origem no ecossistema do IPN: a Critical Software, a Feedzai, a Wit Software e a Critical TechWorks, esta uma joint venture da Critical Software com a BMW.

Coimbra é uma cidade pequena, com cerca de 100 mil residentes, num país muito centralizado em Lisboa e Porto. Terem origem aqui quatro das seis maiores empresas portuguesas de software é extraordinário. É uma das razões pelas quais dizemos, sem falsa modéstia, que o IPN é a maior e melhor incubadora portuguesa. E tenho enorme orgulho que três dessas empresas tenham saído directamente do meu grupo de investigação.

[CP]: Com a informática, a inteligência artificial e esta aceleração tecnológica, onde é que vamos parar?

[JGS]: Não vamos parar. A tecnologia continuará a avançar, embora seja difícil saber exactamente até onde e a que ritmo. Há áreas em que estamos mais perto, como a produção de proteína sintética, os chamados bifes sintéticos, que acredito que acabará por se afirmar, mas muitas outras não sabemos. A inteligência artificial está em desenvolvimento rapidíssimo, não sabemos até onde conseguirá ir.

Há sempre incerteza. Muitas vezes achamos que estamos perto de uma solução e depois o tempo mostra que a distância era maior. O melhor exemplo é a fusão nuclear: há mais de 50 anos que se diz que estará pronta daí a 50 anos. O horizonte move-se sempre.