Coimbra  15 de Maio de 2026 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Jorge Gouveia Monteiro

A grande Casa de Cultura, Convívio e Desporto da zona norte de Coimbra

15 de Maio 2026

“Numa Cidade como Coimbra, que se pretende um organismo vivo onde tudo e todos interagem com todos e com tudo, não há lugar a tecidos mortos, tampouco dormentes. Por isso, o papel dos que amam a Cidade é reconstruir artérias e veias, restabelecer trocas e comunicações, implantar “acordatórios” que acelerem a irrigação e a vida plena” (Texto introdutório do Vereador da Habitação, ao catálogo “Centro Cívico do Planalto do Ingote”, editado em Abril de 2004 pela Câmara Municipal de Coimbra).

Ainda hoje me espanta a ousadia do Executivo presidido por Carlos Encarnação, ao avançar com um grande concurso público para o projeto de Centro Cívico do Planalto do Ingote. A ideia foi minha (à época Vereador eleito na lista da CDU), mas a Câmara de maioria absoluta PSD abraçou-a e o concurso avançou. Foi ganho por Carrilho da Graça (sim, o mesmo grande arquiteto que projetou o Convento de S. Francisco); fizemos uma bela exposição no Centro de Artes Visuais (CAV), editámos o catálogo e candidatámos a obra a financiamento do Governo nacional. O Ministro da tutela (José Luís Arnaut – PSD, mais tarde Goldman Sachs) viria a Coimbra comunicar o chumbo do financiamento e, desde então, o Centro Cívico do Planalto aguarda uma Câmara e um Governo que tenham ousadia equiparada.

Como sempre se afirmou, do que se tratava não era de fazer um pequeno salão para as 800 famílias (Monte Formoso incluído) da proximidade direta. Do que se tratava e trata é de dotar toda a zona Norte da Cidade de um equipamento de grande qualidade, para o teatro, a música, a dança, o convívio e o desporto. Paredes meias com um equipamento residencial especializado (apoio médico continuado, idosos, pessoas em risco), da responsabilidade da ADFP, a quem Manuel Machado tinha, 3 anos antes, cedido o terreno para o efeito.

Sinto uma enorme revolta quando responsáveis políticos olham para um projeto desta importância, num terreno que é público e muito valioso, onde o Município já aplicou cerca de 3 milhões de euros (terreno + projeto + infraestruturas) com a condescendência blasée dos ricos e poderosos, para quem o simples facto de se situar no Ingote já é sinónimo de depreciação. Não recusam, não estudam, adiam, vão ver melhor, repensar.

Por quê este snobismo beto-coimbrão?

Tantas cidades europeias, incluindo algumas portuguesas, reconverteram antigas zonas de habitação social em tecidos vibrantes de cultura e vida cívica, por quê este snobismo beto-coimbrão? Por que não fasear o investimento, começar pelo pavilhão desportivo, ou pelo auditório, acrescentar todos os anos uma nova peça? Justiça seja feita às Junta e Assembleia de Freguesia de Eiras e às Associações de Moradores, que se têm batido, persistentemente, pelo Centro Cívico do Planalto.

Termino com o último parágrafo do texto do catálogo, que escrevi há 22 anos:

“São as pessoas que, ao tirarem o máximo partido deste invulgar equipamento, lhe conferirão identidade e justificação plenas. Só quando o virmos cheio de gente nos espetáculos e nas horas do desporto, ou tão simplesmente na praça conversando, os autocarros que chegam e partem, as lojas abertas e as oficinas a trabalhar, enquanto as crianças vêm da escola e param para tomar uma refeição ou fazer os trabalhos de casa, só então, sim, estaremos certos de que aqui está um pedaço que faltava à Cidade de Coimbra.”

(*) Coordenador do Movimento Cidadãos por Coimbra

Planta de isócronas, onde se pode verificar, num raio de até 5 minutos, em automóvel, a grande potencialidade de atracção de população ao Centro Cívico do Planalto.