Na semana em que o Campeão das Províncias assinala mais um aniversário da sua longa e prestigiada história, ouvir Lino Vinhal é também revisitar uma parte da memória viva do jornalismo regional e de Coimbra. Director, homem de imprensa e figura incontornável da comunicação social, Lino Vinhal traz consigo um percurso de vida marcado pela exigência, pela coragem, pelo rigor e por uma ligação profunda à palavra, à cidade e às causas em que acredita.
Nesta entrevista de vida, fala da infância difícil, do caminho até Coimbra, do encontro com o jornalismo e dos valores que nunca aceitou negociar, num testemunho que é, ao mesmo tempo, pessoal, humano e inseparável da história de um jornal que continua a ser voz e referência.
Campeão das Províncias [CP]: Quando olha para trás, para o menino que foi, que imagem lhe aparece primeiro?
Lino Vinhal [LV]: A do puto reguila atrás das ovelhas, umas vezes, ou a esconder-se, agarrado às saias longas da mãe, envergonhado com pessoas estranhas. As alças das calças, uma abaixo e outra acima, quase sempre.
[CP]: Que ambiente se vivia em casa? Era uma casa de silêncio, de conversa, de disciplina, de afectos?
[LV]: De disciplina sempre, de afectos também. As dificuldades nunca fazem as pessoas muito faladoras e a fome também chama o silêncio.
[CP]: O que é que a infância lhe ensinou que ainda hoje leva consigo?
[LV]: A infância ensinou-me que o rigor e a obediência aos pais nos estruturam como indivíduos. Já jovem crescido, acrescentei-lhe rigor, verdade e ambição. Tudo junto amparou a pessoa que sou e quero continuar a ser.
[CP]: Houve alguma dificuldade nessa fase que o tenha feito crescer mais cedo?
[LV]: As dificuldades de então meteram-se muito comigo. Fizeram de mim criado de servir num lavrador abastado. Fui, não tanto pelo trabalho dos meus sete ou oito anos, que pouco seria, mas porque o meu patrão, amigo do meu pai, numa atitude de grande sensibilidade, lhe disse que me iria levar para guardar o gado. Apercebi-me mais tarde de que fora uma maneira elegante de aliviar aos meus pais as dificuldades da vida e, a mim, de me aliviar a fome.
Foi essa a razão por que tive de sair de casa tão cedo. Já imaginou um puto dessa idade atrás de um rebanho de oitenta ovelhas e doze cabras, empertigado na sua importância de iniciante de pastor? Tive mais sorte com o patrão do que ele comigo. Mas fui sempre corajoso: na meia dúzia de vezes em que o lobo atacou o rebanho, escondi-me sempre atrás de um penedo, num acto de coragem disfarçada. Pelos vistos, já sabia na altura que não se deve incomodar ninguém quando está à mesa. Regressado a casa, o meu patrão não ia além de um “deixa lá, é menos uma”.
[CP]: Vir estudar para Coimbra foi, imagino, uma mudança enorme. O que é que sentiu quando chegou?
[LV]: Senti-me meio perdido e deslocado. Tanto que, na primeira noite, sem saber para onde ia, subi a Sá da Bandeira. Juntei-me lá em cima com uma rapaziada mais velha que se amontoara à porta do Café Piolho, por não caber lá dentro. Do interior vinha uma voz sonoramente intrigante, segura, a falar das novas ideias que o Maio de 69 ia espalhando mundo fora, Praça da República incluída. O homem falava tanto e tão bem que me encantou, deixando-me vir embora sem lhe ver a cara.
Vim a saber no dia seguinte que fora Orlando de Carvalho, mais tarde meu professor na Faculdade de Direito. Pudera. Fez repetidas vezes o mesmo nas diversas salas dos Gerais, a abarrotar de alunos, alguns sentados no chão. Ao regressar à Baixa, depois de o ter ouvido lá em cima, ia-me perguntando, reflectidamente, o que viera fazer para Coimbra. Senti aí uma particular saudade do meu chão e de ajudar o meu pai a pisar as uvas das videiras americanas que o Salazar proibira. Mas o meu pai já nessa altura ouvia mal.
Chegado à Praça 8 de Maio, já me sentia outro: “Hei-de voltar a ouvir aquele gajo”. Cumpri e vinguei-me: na prova oral mal abri a boca e não disse uma para a caixa. Mas ele foi generoso.
[CP]: Porque é que escolheu Direito? Foi vocação, circunstância ou um pouco das duas coisas?
[LV]: Estranho. Para uma pessoa saída do interior mais profundo, que rasto familiar não tivera, nunca se colocou outra alternativa além do Direito. Era onde me sentia bem. No quarto humilde onde me hospedava, na Baixa, o aconchego do curso assegurava-me o ar condicionado que mal sabia que existia. Demo-nos bem, eu e o curso. Ainda hoje somos amigos.
Se outra coisa lhe devesse, e devo muito, deu-me uma geração de amigos que foram, e são ainda os que restam, a estrutura ética e moral da minha vida profissional. A circunstância e a vocação podem não decidir tudo, mas são duas namoradas, qual delas a mais decisiva nas nossas vidas. Ainda hoje me dou bem com as duas.
[CP]: Como é que o jornalismo entrou na sua vida? Entrou devagar ou entrou de rompante?
[LV]: Entrou devagar. Três ou quatro anos longos do curso, a corrigir provas tipográficas no Diário de Coimbra para ganhar para o quarto, fizeram-me gostar de chumbo derretido, na altura matéria-prima essencial para produzir jornais. Puseram-me em contacto com uma equipa de gráficos que, na arte, eram já catedráticos. E que me aceitaram mais tarde, quando o meu patrão fez de mim seu gerente diário.
O 25 de Abril fechou-me então a Universidade por uns meses e tive de me fazer ao mundo. Fui ver onde se fazia bom jornalismo. O Conselho da Europa deu-me uma bolsa generosa a que concorrera, entretanto. Fomos cinco os jornalistas portugueses que usufruíram dessa bolsa. Depois de umas aulas avulsas no Centro de Formação de Jornalistas de Paris, fui para um dos jornais mais credíveis — ainda hoje — da imprensa regional francesa, na Alsácia, o Dernières Nouvelles d’Alsace. Repeti a experiência dois ou três anos depois, ainda em França, desta vez no La Voix du Nord, em Lille. França foi sempre o meu canto de reflexão profissional. Adoro aquele país. E assim me fiz o aprendiz de jornalismo que nunca gostaria de deixar de ser.
[CP]: Em que momento percebeu que, afinal, o seu lugar podia não estar no Direito, mas nas palavras, nos jornais, na actualidade?
[LV]: Fui sempre polígamo, passe o termo. Muito mais fiel ao jornalismo do que ao Direito, mas, quando tenho saudades desta área, recordo pinceladas dela convidando o meu amigo de sempre, o advogado António Fontes, e vamos descomprimir a dieta e dizer mal de meio mundo ali “pelos escritórios” da Baixa Jurídica, que dificilmente deixará sair dali o Palácio da Justiça.
O Fontes, um dos mais distintos advogados da Coimbra da minha geração, foi dos melhores investimentos que fiz na vida, em termos humanos e como jurista. Nunca me deixou perder uma acção. E olhe que algumas vezes eu bem o merecia… Nunca nos levantamos da mesa sem dizer mal de alguém. A isto chama-se disciplina mental. Descompostura intelectual, se preferir.
[CP]: Como recorda os primeiros anos de profissão?
[LV]: O 25 de Abril caiu-me em cima três meses depois de ter obtido a carteira profissional de jornalista. Os adultos, de reunião em reunião, como era em quase todas as empresas, anularam-se uns aos outros e parte foi-se embora. Fiquei muito só. Mais o meu patrão… Mas que patrão! Nunca me recusou ânimo e, durante uns meses, poucos, tive de me repartir entre o jornalismo e o apoio a alguns jornais que o Conselho da Revolução havia proibido em Lisboa: A Luta, de Raul Rego e Vítor Direito; A Luta Popular, do MRPP; e o Jornal Novo, dirigido por Artur Portela.
Consegui arranjar espaço para os três, mais o Diário de Coimbra. E, manhã sim, manhã não, tinha de ir depor ao Ministério Público que, por acção directa do respectivo chefe, já então meu colega de cabelo, me exigia explicações a cada texto que eu publicava e assinava. Tenho-os hoje compilados em livro, não todos, mas uma boa parte.
Tempos difíceis, tornados fáceis e estimulantes pelo meu patrão, engenheiro Adriano Lucas, empresário muito activo também em Coimbra, que todas as manhãs, ou quase todas naquele período mais conturbado entre o 11 de Março e o 25 de Novembro, me ligava a dizer que admirava a minha coragem, mesmo nem sempre concordando comigo. Depois de um início desta natureza, eu não tinha outra opção que não fosse preocupar-me em tornar o Diário de Coimbra um jornal cada vez mais respeitado e inovador.
[CP]: Qual foi a reportagem, cobertura ou momento profissional que nunca esqueceu?
[LV]: Cinco pescadores, no final de uma manhã de domingo, caíram ao rio Mondego, a sul de Coimbra, quando uma frágil embarcação de madeira, que as águas revoltas viraram de pernas para o ar, tombou. Morreram todos. Um drama de elevada e rara dimensão humana. Havia um único jornal em Coimbra na altura, as margens estavam repletas de gente, e senti a responsabilidade de esclarecer os leitores daquilo que não conseguira entender bem, nem hoje ainda. Fiquei muito triste para sempre e, desde aí, não é muita a minha simpatia pelo rio, tão insensível ele tem sido ao longo dos tempos.
Segunda reportagem tremendamente difícil: muitos anos mais tarde, duas jovenzinhas do concelho de Montemor-o-Velho quiseram vir a Coimbra ver, pela primeira vez, uma delas, o comboio. Desorientaram-se e perderam-se. Entraram num regional, desceram em Alfarelos e voltaram para Coimbra, a pé, pela linha fora. Fazia-se noite. Um rápido, a duzentos e muitos à hora, lançou-as contra a rede que protegia a linha, redes que lhes rasgaram e dilaceraram o corpo. Tinham catorze anos, por aí.
Coimbra no seu melhor: se desapareceram, porque levou algum tempo a localizar os corpos rasgados, é porque “vieram aos gajos”… Senti uma revolta profunda. Aluguei um táxi e fui para a zona de Montemor. A ouvir gritos de mães desesperadas, uma região de olhos no infinito da incompreensão. Fez-se luz, enterraram-se os corpos, a região chorou e voltei ao trabalho dias depois.
Escrevi a história mais chocante da minha vida, também a mais chocante que alguma vez conheci. Está descrita no Diário de Coimbra e transposta para o meu livro de recolha Pedaços de Mim. Cedi, na altura, a reportagem ao Daily Times inglês e ao L’Aurore francês, a seu pedido. As mães são vivas ainda, mas nunca mais voltaram a ser elas. Ainda hoje choram a Inês e a Lígia, que me disseram, na altura, terem sido duas belas jovenzinhas que nunca conheci. Mas nunca mais deixei de dizer ao Universo que está longe de ser perfeito.
[CP]: O que representa Coimbra na sua identidade?
[LV]: Coimbra foi o meu modelo de cidade. Pelo seu desenho, que testemunha uma urbe bem pensada desde o seu início; pelo seu passado brilhante, gerador de invejas que nunca mais acabam e muitas vezes sem razão; pela diversidade da sua gente, que, quando cheguei, e assim foi durante séculos, ia dos matraquilhos à canastra; pela forma como, carinhosamente, me deixou fazer dela o meu segundo chão; e, razão das razões, me ensinou quase tudo do pouco que sei.
E, razão maior de todas, entregou-me para mãe das minhas filhas a mais extraordinária das mulheres, que eu nunca saberia escolher sozinho, não fossem os milhares de horas que, sozinho, investi no pensamento, Choupal além, madrugada fora. Estou muito grato a Coimbra por me ter recebido tão generosamente. Um dia regresso, em tempo ou fora de tempo. Mas regressarei.
Com a mágoa de, desde há uns anos, ver esta “minha” cidade a deixar-se agachar perante a Administração Central, que soube “chupar” a Coimbra parte da sua melhor juventude, pagando-lhe com meia dúzia de cascas de amendoim nas tascas da política barata. Mas a Coimbra que ainda povoa a minha memória há-de voar. Vem a caminho.
Por isso defendo a regionalização e a vejo como a única forma de desenvolver o país de forma harmónica; por isso defendo um novo modelo de eleger o Reitor, assente na comunidade académica; defendo o apoio do Estado ao ensino superior. E defendo… desejo que o Restaurante Cova Funda e a Taberna do Mijacão não fechem nunca. São salas de aula para muitos dos nossos estudantes e parte do orgulho da nossa Baixa.
[CP]: Como se constrói credibilidade num meio tão exigente como o jornalismo?
[LV]: Uma só forma: com verdade, com rigor, com ética, com frontalidade. E sem medo.
[CP]: Em que momento sentiu que não queria apenas trabalhar em projectos dos outros, mas criar o seu próprio caminho?
[LV]: Às vezes faz-se tarde demasiado cedo ainda. Reuni uma equipa-base que há mais de 30 anos está comigo. São o meu orgulho. Um único patrão, um só local de trabalho para muitos deles.
Pensei este projecto em dois momentos distintos, mas próximos: quando senti que o Diário de Coimbra estava a precisar de novas ideias e nova gente, e quando me apercebi de que estavam a definhar na região vários jornais que eu não gostaria de ver morrer. Senti-me tentado a agir.
Salvei vários: O Despertar, o mais antigo de Coimbra; o Notícias de Vouzela; o Notícias de Lafões; o Beira Vouga; e tentei o Independente de Cantanhede, mas esse já não consegui. Deixar morrer um jornal regional é, para mim, ver morrer alguém da minha família profissional. Foi aqui que comecei um novo caminho, depois de ter dado a mão às Beiras para que passassem a jornal diário.
[CP]: O que é que mais o orgulha na construção do Grupo Media Centro?
[LV]: O respeito que sinto que os leitores têm pelo jornal, o apoio nunca escondido de Coimbra, a região que nunca esqueceu o quanto me dediquei a que não nos levassem de volta a liberdade que Abril trouxera. Orgulho-me sobretudo de ter recuperado vários meios de comunicação social. Meios esses que estavam em fase final de publicação.
Além de ter desenvolvido a Rádio Regional do Centro, hoje a de maior implementação no centro do país em termos de rádios locais, ter salvado o Campeão, ter impedido o fecho de O Despertar — com a morte do Fausto Correia — que, como se sabe, é o mais antigo jornal de Coimbra, ter impedido ainda o fecho de outros meios noutras zonas do país, rádios e jornais, deixou-me muito satisfeito.
Tem sido um projecto que me orgulha e que devo a uma equipa fantástica, parte da qual me acompanha há mais de 30 anos, tendo começado a trabalhar comigo e mantendo-se ainda hoje. Fechar um jornal é, para mim, uma facada na minha sensibilidade. É um luto que não gostaria de fazer nunca.
[CP]: A vida profissional roubou-lhe coisas? Tempo, descanso, momentos em família?
[LV]: Não me roubou muita coisa, até mesmo nada. Nem tempo. Pelo contrário: deu-me muita coisa, até o conforto de olhar ao espelho e rever-me naquela imagem.
[CP]: Tornou-se um homem mais sereno com o tempo ou continua inquieto por natureza?
[LV]: Terei tempo para serenar quando mudar o escritório para Alcofra, concelho de Vouzela, campa 41, onde os meus pais e alguns irmãos me aguardam. Já lá tenho flores plantadas por mim, que os meus pais cuidam enquanto esperam por mim.
[CP]: O que é que nunca negociou, nem na vida nem no jornalismo?
[LV]: Não faço negócios com a ética nem com a verdade. Quero fazer a Sofia, a Visconde da Luz e a Ferreira Borges sempre de cabeça levantada. E receber aquele abraço do Marques, da Casa dos Enxovais, do Costa, da Ourivesaria com o mesmo nome, e dos demais que, cada qual ao seu jeito, preencheram pedaços da minha vida.
[CP]: Ainda acredita no papel transformador do jornalismo?
[LV]: Se não for ele, estamos lixados…
[CP]: Se pudesse conversar hoje com o jovem que chegou a Coimbra para estudar Direito, o que lhe diria?
[LV]: Lê o Cântico Negro, de José Régio.
[CP]: Se tivesse de resumir a sua vida numa ideia, numa imagem ou numa frase, qual seria?
[LV]: Fui e sou tão feliz que, mesmo tendo sofrido tantas vezes, nunca deixei de o ser.