Umas cidades celebram a liberdade como um ritual, outras, como Coimbra, carregam-na como uma inquietação. O 25 de Abril não cabe aqui apenas em cravos ou discursos: percorre as ruas íngremes, ecoa nos pátios antigos, pousa nas margens do Mondego como uma pergunta que nunca se cala…
Que fizemos nós da liberdade que herdámos? Talvez esteja na hora de a reinventar, de a trazer do passado para o presente, de a tornar concreta, tangível, quase quotidiana.
Que Coimbra se liberte, antes de mais, das suas casas fechadas. Há portas que não se abrem há anos, janelas que não conhecem luz, edifícios inteiros que existem apenas como sombra na paisagem. E, no entanto, há vidas suspensas, pessoas adiadas, jovens que partem porque não conseguem ficar. Isto não é apenas uma questão de mercado, é uma questão de justiça.
Uma cidade onde há casas vazias e pessoas sem casa é uma cidade que ainda não compreendeu a liberdade. Libertar estes espaços é devolver-lhes propósito. É permitir que a cidade respire de forma mais justa, mais equilibrada, mais humana. E talvez seja tempo de pensar a cidade como um bem comum… onde o direito a habitar não dependa apenas da lógica do lucro, mas de uma responsabilidade coletiva que devolva equilíbrio ao que hoje está profundamente desigual…
Cultivar o verde
A liberdade também se cultiva no verde, nos jardins que resistem, nos recantos que ainda guardam silêncio. Coimbra tem neles um dos seus maiores tesouros… e, paradoxalmente, um dos mais esquecidos. O Jardim da Sereia, tantas vezes cantado, pede mais do que memória: pede cuidado, atenção, presença! O Choupal, com a sua serenidade antiga, não pode ser apenas uma lembrança nostálgica! E entre o Penedo da Saudade e as margens do Mondego há uma série de espaços vivos que não devem ser tratados como luxo, mas como necessidade!
Precisamos de uma Coimbra que se reconheça na sua natureza. Que compreenda que ser verde não é uma estética, mas uma identidade. Que perceba que preservar é também um acto de liberdade… porque protege o que é de todos, hoje e amanhã. E talvez seja também o momento de devolver estes espaços à vivência cultural e comunitária… jardins onde se leem poemas, onde se ouve música, onde a cidade se encontra consigo própria sem pressa nem consumo.
Prioridade às pessoas
E depois há o ruído. O trânsito. A pressa constante que parece ter tomado conta da cidade. Coimbra tornou-se, em muitos momentos, um lugar difícil de atravessar a pé! Os carros dominam, ocupam, impõem-se. E com eles vem o risco… visível, repetido, inquietante. Atropelamentos, sustos, vidas em perigo! Uma cidade verdadeiramente livre não pode ser um lugar onde caminhar é um acto de coragem… Libertar Coimbra dos carros não é eliminá-los, mas devolvê-los à sua medida. Dar prioridade às pessoas, ao passo humano, à convivência tranquila. Criar uma cidade onde uma criança possa correr sem medo, onde um idoso possa atravessar a rua com tempo, onde o espaço público seja, de facto, público. Precisamos de mais ruas devolvidas ao encontro em vez da pressa. Porque a liberdade mede-se também assim: na forma como tratamos os mais vulneráveis.
Uma Coimbra livre é uma Coimbra que cuida, que valoriza o envelhecimento activo, que respeita o tempo dos mais velhos, que não os empurra para as margens da pressa!! É uma cidade que acolhe, que inclui, que não esquece… Uma cidade que cria espaços de convívio intergeracional, onde a experiência dos mais velhos não se perde e a energia dos mais novos encontra orientação… porque a liberdade também se constrói na partilha entre tempos de vida.
No fundo, o 25 de Abril em Coimbra não deve ser apenas uma evocação. Deve ser um compromisso. Um convite a olhar à volta e a perguntar, com honestidade: onde falta ainda liberdade? Talvez a resposta esteja em cada rua, em cada jardim, em cada casa vazia. E talvez a verdadeira celebração comece quando deixarmos de a recordar… e começarmos, finalmente, a cumpri-la.
(*) Doutorando na FMUC