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Ana Laíns: “é preciso acabar com o medo que continua a castrar as mulheres”

1 de Maio 2026 Jornal Campeão: Ana Laíns: “é preciso acabar com o medo que continua a castrar as mulheres”

Começou a cantar aos seis anos e aos 18 percebeu que a música seria o seu destino. Nascida em Tomar, em 1979, foi em Montalvo, concelho de Constância, que passou a sua infância e adolescência, um tempo que a balizou para o futuro que havia de chegar. Ana Laíns é uma voz inconfundível da música portuguesa. Do fado à música tradicional, canta a Portugalidade de forma ímpar e tem na Língua Portuguesa uma das suas maiores inspirações.

Campeão das Províncias [CP]: Como é que começou a sua carreira e qual o estilo musical que a define?

Ana Laíns [AL]: Sempre fui cantora. Dentro de mim sempre soube disso. Cantei publicamente, pela primeira vez, com seis anos, no Festival Interescolas, no concelho de Constância. Representei a minha escola com seis, sete e nove anos. Sempre soube que estar em palco seria a melhor forma de me expressar. Aos 18 anos, no final do Secundário, tive certeza que ser cantora profissional era o que queria fazer. Fui para Lisboa para ser cantora, em Março de 1999, momento em que comecei a cantar profissionalmente no Casino Estoril. Não consigo definir-me num estilo musical. Acho que me movo no que se convencionou chamar de MPP (Música Popular Portuguesa), mas sem um sentido pejorativo que insistem em atribuir a esta designação.

[CP]: E foi fácil?

[AL]: Não foi. Ganhei o Big Show SIC, em 1998, com o ‘Fado Português’, de José Régio, da Amália Rodrigues, mas eu cantei a versão da Dulce Pontes, a minha grande musa inspiradora. Foi com esse dinheiro que comecei a minha vida em Lisboa. Um mês depois já estava a trabalhar no Casino Estoril, a cantar numa banda de covers, pela mão do pianista José Cabeleira, e que aconteceu por causa de um trabalho que surgiu por causa de um disco que gravei, no seguimento do Big Show SIC. Foi o meu primeiro disco, a que eu chamo disco ‘zero’ porque nunca saiu. Porém, devo a esse disco o início da minha carreira, porque foi através dele que me cruzei com o José Martins, saxofonista, que tocava na banda do Casino Estoril.

[CP]: Nessa altura já tinha encontrado o seu caminho na música ou isso veio com o tempo?

[AL]: Eu não sabia o que queria, mas sabia o que não queria. Muitas vezes não temos a clareza mental de compreender o porquê, mas sempre compreendi que queria que a minha existência neste mundo, e na música, fizesse a diferença. E não se faz sendo a cópia da cópia. Isto por que esse “disco 0” iria fazer de mim uma Dulce Pontes de categoria bem inferior. Ela é única na história da Música Portuguesa. Só em 2004 quando surge um convite para gravar um novo disco, é que sou mais previdente. E demorei ainda quase dois anos a gravar este disco, que sai em 2006 (‘Sentidos’). É um disco com o qual me identifico a 200% ainda hoje.

[CP]: Olhando para trás, voltaria a fazer o mesmo?

[AL]: É óbvio que não. Porque, entretanto, também mudei. Eu foco-me sempre nesta expressão da honestidade intelectual. Porque ela realmente rege a minha vida. Busco essa honestidade em tudo o que faço. E o que sinto com o ‘Sentidos’ é que se gravasse aquele disco hoje, a única coisa que mudaria eventualmente seria a minha interpretação. Como intérprete cresci, mudei. Há uma Portugalidade inerente a esse disco já, que já me definia e continua a definir-me.

[CP]: Mas a Ana canta, desde sempre, a Portugalidade. Isto é algo que a define.

[AL]: Sim, define. Tudo o que eu sinto enquanto cantora sabe-me a Portugal, nas suas diversas identidades, que vai ser o nome do próximo disco. Eu sou uma pessoa que gosta de Portugal. Aceito a condição de ter nascido em Portugal, mas isso não é necessariamente uma forma de desprezo pelas outras nacionalidades e pela identidade de outros países. É importante não confundir este brio com nacionalismos tão em voga actualmente. Sou portuguesa e gosto de o ser. Somos um povo com capacidades extraordinárias, mas também falhámos. Temos só de aceitar isso, seguir em frente e construir um futuro melhor. Gosto de viver num País que tem muitas referências culturais e um enorme legado histórico, que nos trouxe uma enorme diversidade cultural. E associada a essa diversidade trouxe-nos a capacidade, enquanto pessoas e seres humanos. E temos uma capacidade brutal de nos adaptarmos a tudo.

[CP]: A Ana vai do fado à música tradicional, mas tem sempre na Língua Portuguesa uma baliza importante. É uma escolha?

[AL]: Não é uma escolha. Durante dois anos, entre 2023 e 2025 eu questionei muitas vezes se não estava aprisionada às minhas próprias convicções. Nós, muitas vezes, deixamos de questionar a nossa perspectiva sobre o mundo e sobre a nossa vida, e ficamos reféns daquilo em que acreditamos porque queremos provar à sociedade que aquilo em que acreditamos é que faz sentido. E eu questionei-me sobre a minha essência e a minha identidade enquanto cantora.

[CP]: E foi aí que se abriu o caminho?

[AL]: Sim. E posso referir o culpado dessa epifania. Chama-se Rui Vieira Nery. Quando o convidei para ser palestrante no Estoril Folk Fest, que eu e o meu marido organizamos desde 2023 no casino Estoril. E a pergunta que lhe coloquei foi o que é isto da tradição e qual o futuro em Portugal? E ele responde que a tradição não existe, é um conceito, não é palpável. A tradição só existe daqui a 100 anos com aquilo que se fizer hoje. É assim em todas as décadas e séculos. E nós, ao nos apoderarmos de uma certa verdade da memória colectiva, que eu fazia inconscientemente, concluí que é necessário criar, com base naquilo que é a nossa sociedade actual. Precisamos de construir canções que visitem a memória e que a enalteçam, mas canções dos nossos dias. E é por isso que o próximo trabalho se vai chamar ‘Identidade(s)’, e sairá em 2027.

[CP]: Quando olha para trás, que balanço faz?

[AL]: A sensação que tenho é que estes 27 anos de carreira, os mais de 1000 concertos que devo ter feito no mundo inteiro, em mais de 30 países, existiram para me trazer a este momento em que me encontro, ter uma maior consciência e uma certeza de que tudo o que eu vivi, todas as dificuldades que tive, e do quanto valeu a pena. Eu nunca vou ser uma cantora de mainstream, porque para mim a música é mais importante do que o dinheiro. E tudo o que eu fiz e passei foi para me trazer a este ponto, a este projecto que eu tenho certeza que vai ser o projecto da minha vida.

[CP]: Sente mais reconhecimento no estrangeiro do que em Portugal e que público é diferente lá fora?

[AL]: O que eu acho que acontece em grande parte dos países onde cantei, especialmente na Europa, é que existe uma curiosidade cultural que Portugal não tem. Nós não somos um País curioso, o que me deixa profundamente frustrada. E dou um exemplo: se a Rádio Comercial passar 18 vezes por dia a mesma cantora e canção, isso vai-se fixar na cabeça das pessoas. E o público não sente necessidade de procurar outras coisas. Eu vou para a Espanha, e todas as salas estão esgotadas, e não é porque sou eu, mas as pessoas têm o hábito de ir a um concerto. E as nossas políticas culturais também não acompanham a necessidade de mudança. Temos 308 municípios e diria que se calhar 10% têm política cultural, apesar de reconhecer que há autarcas que têm a consciência do seu papel enquanto fazedores de cultura. Mas a maior parte não tem. Sinto que tenho o reconhecimento para o qual trabalhei, nas escolhas que fiz em não ceder a uma série de pressões na indústria, e nunca abdiquei da minha liberdade de expressão. E sei que sou a cantora e mulher que sou resultado do que construí ao longo destes 27 anos.

[CP]: Tem uma voz muito activa sobre Portugal. Como vê o papel da mulher na sociedade portuguesa em 2026?

[AL]: Não sei se há um retrocesso ou se não chegámos a evoluir. A nossa democracia tem 50 anos e não acredito que a sociedade mude em pouco mais do que duas gerações. A euforia da liberdade pós-25 de Abril camuflou vários problemas que continuaram a prevalecer. Alcançámos muitas conquistas, mas há toda uma revolução por acontecer em relação ao papel da mulher, em Portugal e no mundo. Nunca senti particularmente que o meu caminho fosse colocado em causa por ser mulher. Mas isso partiu sempre de mim e da educação que tive. E sinto uma empatia e solidariedade com as mulheres que, infelizmente, não tiveram esta possibilidade. Aconteceu na vida de muitas mulheres da sociedade portuguesa como Natália Correia, Maria Teresa Horta ou Sofia de Mello Breyner. É preciso acabar com o medo que continua a castrar a evolução das mulheres. E todas nós precisamos de ser mais unidas.

[CP]: Portugal ainda está por cumprir?

[AL]: Sim, ainda. Mas tenho fé no meu País. Há um aspecto que é urgente trabalhar: a Humanização. Em Portugal e no Mundo. Depois disso, todas as questões pendentes têm solução. Aceitar e compreender a nossa condição humana é essencial. Vivemos numa sociedade tão desfocada do que é fundamental, que ser frágil tornou-se um defeito incomportável. Temos, acima de tudo, de ser boas pessoas, sejamos de esquerda ou de direita.

‘IDENTIDADE(S)’ CHEGA EM 2027

O novo álbum de Ana Laíns, ‘Identidade(s)’, sairá em 2027, e 2026 será um “ano mais calmo” em concertos”. ‘Identidade(s)’ é um trabalho de “pesquisa muito grande”, afirma a cantora. “Não vai ser só um disco, é um projecto pedagógico e multidisciplinar”, que vai basear-se na construção de 20 canções novas, com base nos 18 distritos do País e as regiões autónomas. Ana e a sua equipa estão já no terreno com o objectivo de “estar próximos das comunidades e a compreender o que prevalece”. É daí que vão nascer as canções. “Vamos estar com as comunidades locais, artistas nacionais e locais e criar músicas novas que representam as identidades dos nossos povos”. Serão também lançados um livro e uma exposição, sendo que no final haverá um grande concerto.

Entrevista: Ana Clara (Jornalista do “Campeão” em Lisboa)

FOTOGRAFIA: Paulo Maria