Maria Lencastre Portugal é hoje uma das figuras mais observadas da vida política coimbrã. Vereadora na Câmara Municipal de Coimbra, foi eleita nas listas do Chega, partido do qual se desvinculou no início deste ano, passando a exercer funções como independente. Essa ruptura, num momento politicamente sensível, reforçou a atenção em torno do seu percurso, das suas escolhas e do papel que passou a assumir no equilíbrio político do Executivo Municipal. Com formação e ligação ao Serviço Social na Universidade de Coimbra, foi também indicada para gestora-executiva da Prodeso, entidade responsável pela gestão do ITAP — Instituto Técnico Artístico e Profissional de Coimbra.
Campeão das Províncias [CP]: Olhando para o panorama político actual, ainda se identifica com a direita que o Chega representa ou considera que o partido mudou de rumo desde a sua eleição?
Maria Lencastre Portugal [MLP]: Quando aceitei ser candidata por Coimbra, deixei claro a André Ventura que sou democrata-cristã de raiz e que só avançaria se essa identidade fosse compatível com o partido. Na altura, revi-me na declaração de princípios do Chega, até porque saíra do CDS sentindo que a democracia-cristã já não tinha ali espaço. Com o tempo, porém, começaram a surgir sinais com os quais deixei de me identificar plenamente, embora considere que, em vários temas, houve também aproveitamento político das posições do partido.
A ruptura decisiva aconteceu em Coimbra. Quando fui eleita vereadora, percebi que o meu dever era defender a cidade e os cidadãos que me elegeram, e não seguir uma lógica partidária cega. Isso significava votar segundo a minha consciência e não rejeitar propostas apenas por serem do PS. Quando percebi que essa posição tornava a convivência com a estrutura distrital inviável, decidi assumir-me como independente, uma decisão que também vivi como um alívio, por me devolver total liberdade de pensamento e de acção.
[CP]: Quais considera terem sido as suas maiores vitórias e os maiores obstáculos enquanto vereadora na oposição?
[MLP]: Tenho tido pequenas vitórias, mas daquelas que fazem diferença real na vida das pessoas. Foi isso que prometi: dar voz a quem vive, estuda ou trabalha em Coimbra e me traz problemas concretos do dia-a-dia. Um exemplo recente foi a Rua da Sofia, que esteve sem iluminação e onde já foram instaladas novas luminárias LED, melhorando a segurança e reduzindo custos energéticos.
Há também um retorno humano que valorizo muito: pessoas que, no fim das reuniões, me dizem que se sentiram representadas. Ao fim de apenas cinco meses, isso é para mim um sinal importante de que este trabalho está a chegar às pessoas.
Quanto aos obstáculos, ainda é cedo para um balanço mais amplo, até porque parte deste período foi marcada pela tempestade e pela situação de emergência, que inevitavelmente travaram algum trabalho. Ainda assim, acredito que Coimbra está no caminho certo.
[CP]: Como avalia a governação da coligação “Avançar Coimbra”? Em que pontos houve convergência e onde sentiu maior resistência?
[MLP]: A resistência mais evidente que senti surgiu, paradoxalmente, quando fui eleita pelo Chega. Rapidamente percebi que esperavam de mim uma oposição automática, feita de votos contra tudo. Isso nunca fez sentido para mim: voto contra o que não concordo, mas acompanho o que considero útil para Coimbra.
Quando assumi essa posição, tudo ficou mais claro. No actual Executivo encontro pessoas educadas, íntegras e verdadeiramente empenhadas em trabalhar pela cidade. Não vejo uma lógica de vaidades pessoais, mas sim vontade de mudar Coimbra, e isso é determinante para mim.
Onde continuo a ver mais resistência é numa certa forma de fazer política marcada pelo ego e pela dificuldade em aceitar a mudança de papéis. Foi também por isso que avancei: sempre recusei uma política centrada em protagonismos, em vez de serviço público.
Nas matérias concretas, tem havido convergência sempre que estão em causa medidas úteis para a cidade, incluindo processos herdados do anterior Executivo. E isso parece-me natural. A política democrática também é isto: dar continuidade ao que está bem encaminhado, independentemente de quem o iniciou.
[CP]: O que falta para Coimbra reter o talento que a Universidade produz?
[MLP]: Falta quase tudo, embora esse trabalho esteja finalmente a começar. Hoje já se percebe uma maior articulação entre a Câmara, a Universidade de Coimbra e o Politécnico, e isso é essencial: juntar o saber ao fazer, sempre em benefício da cidade.
O que falta, na prática, é transformar conhecimento em oportunidades concretas. Coimbra precisa de criar condições para que teses, investigação, inovação e talento não saiam daqui sem deixar valor no concelho. Isso passa por atrair e apoiar pequenas empresas, startups e projectos capazes de aplicar localmente aquilo que é produzido na Universidade e no Politécnico.
Mas isso exige também espaço, habitação e processos urbanísticos mais ágeis. Se queremos fixar talento, não basta formar bem: é preciso criar condições para viver, trabalhar e investir em Coimbra. Durante demasiado tempo faltou essa ligação entre a academia e o município, e também houve entraves excessivos no urbanismo, que atrasaram respostas e bloquearam oportunidades. Sem facilitismos, é preciso simplificar, decidir e avançar. Só assim Coimbra deixará de formar talento para os outros e passará a consegui-lo reter.
[CP]: Como surgiu o convite para integrar a empresa municipal Prodeso, que tem o ITAP?
[MLP]: O convite surgiu numa fase de mudança da minha vida. Trabalho há 28 anos na Universidade de Coimbra, como assistente social, sempre muito ligada ao apoio aos estudantes, mas senti que estava perante um novo ciclo e que devia abraçar um desafio com sentido. Ao mesmo tempo, o trabalho na Câmara tornou-se muito exigente e difícil de conciliar com as minhas funções na Universidade. A presidente percebeu essa disponibilidade e, com a saída do anterior director do ITAP, convidou-me para este projecto.
Aceitei porque sempre defendi o ensino técnico-profissional e porque acredito que Coimbra precisa de o repensar com ambição. Não se trata de ocupar um lugar, mas de construir uma resposta estruturada, estável e útil para a cidade. Para isso, é preciso primeiro criar as condições certas: rever o modelo, perceber que cursos fazem falta, adequar a formação às necessidades reais e garantir um espaço capaz de permitir crescimento. O objectivo é claro: formar mais jovens e criar condições para que fiquem em Coimbra.
[CP]: A sua nomeação foi alvo de críticas por parte dos seus antigos companheiros de partido e da oposição na Câmara. Como responde a quem possa ler esta nomeação sob um prisma político e não técnico?
[MLP]: Encarei essas críticas com serenidade, porque me parecem injustas. Trabalho há 28 anos na Universidade de Coimbra, sempre em contacto directo com estudantes e com as suas necessidades, o que me deu uma experiência concreta no acompanhamento social e académico. Essa é uma base importante para este desafio. Não tenho dificuldade em reconhecer o que não sei e em procurar aprender. O que me move é a vontade de construir um ITAP mais sólido, mais atractivo e mais ajustado às necessidades reais dos alunos.
[CP]: Como gostaria que o seu mandato fosse recordado pelos munícipes de Coimbra?
[MLP]: Gostava que o meu mandato fosse recordado, antes de mais, por ter ajudado a construir uma escola técnico-profissional à medida da Coimbra que queremos. A cidade tem orgulho na sua Universidade, tem orgulho no Politécnico, e faz todo o sentido que venha também a ter orgulho num ensino técnico-profissional forte, credível e valorizado.
O ITAP justifica-se plenamente, mas não como um destino de recurso ou como um castigo para quem não encontrou lugar noutro percurso. O que eu defendo é exactamente o contrário: uma escola onde os jovens sintam que têm capacidade para crescer, ganhar ferramentas, descobrir o seu caminho e preparar o futuro com dignidade e ambição.
Ao fim de quatro anos, gostava também de ser vista como alguém próximo das pessoas, atento às suas preocupações e verdadeiramente empenhado em melhorar a qualidade de vida no concelho. Essa é a razão principal de eu estar na política: dar voz a quem sente que muitas vezes não é ouvido. Enquanto aqui estiver, o meu compromisso será sempre o mesmo: não trabalhar por partidos, mas por Coimbra, que é a minha cidade e a cidade onde quero continuar a viver.
Luís Santos/Joana Alvim