Coimbra  15 de Fevereiro de 2026 | Director: Lino Vinhal

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Jaime Ramos denuncia: 30 anos de espera milhões gastos e o Ingote que Coimbra nunca viu

15 de Fevereiro 2026 Jornal Campeão: Jaime Ramos denuncia: 30 anos de espera milhões gastos e o Ingote que Coimbra nunca viu

Médico por vocação e homem público por sentido de responsabilidade, Jaime Ramos construiu um percurso singular que cruza a prática clínica, a intervenção social e o exercício cívico. Especialista em Medicina Geral e Familiar e em Medicina do Trabalho é fundador da Fundação ADFP, reconhecida como uma das organizações mais inclusivas, inovadoras e eclécticas do panorama nacional, com um impacto profundo nas áreas da saúde, da assistência, inclusão social e do desenvolvimento comunitário. Ao longo da sua vida pública, desempenhou relevantes funções políticas e administrativas, tendo sido deputado na Assembleia da República, governador civil e presidente da Câmara Municipal de Miranda do Corvo.

Campeão das Províncias [CP]: A Fundação ADFP conseguiu resistir aos efeitos da recente intempérie que assolou a região?
Jaime Ramos [JR]: Registámos alguns danos, sobretudo na adega, no Parque Biológico e no Hotel do Paço, em Condeixa. Houve também pequenos estragos em algumas áreas sociais, bem como em Coimbra, no St. Paul’s School, mas, felizmente, nada que tivesse colocado em causa o funcionamento da instituição.
Mantivemos a actividade e só não funcionámos no dia da tempestade em Coimbra devido à decisão da Protecção Civil de encerrar todas as escolas, uma opção que considero errada. O vento mais forte ocorreu durante a noite e, no dia seguinte, as famílias precisavam de respostas para poderem continuar a sua vida profissional.
No nosso caso, poderíamos ter estado a funcionar no St Paul’s School e no Centro Harmonia, com creche e pré-escolar. Mesmo que um ou outro docente não pudesse comparecer, as crianças podiam ter permanecido na instituição. O encerramento foi desnecessário. Tenho a convicção de que, por vezes, se decide de forma excessivamente radical, esquecendo a importância dos serviços prestados às pessoas. Em situações de verdadeira calamidade, a prudência é indispensável, mas quando existem condições para funcionar, encerrar tudo indiscriminadamente parece-me abusivo. Como quem decide é funcionário do Estado, tende a achar que tudo pode fechar, esquecendo as dificuldades que criam desnecessariamente as famílias.

[CP]: O resultado das eleições presidenciais correspondeu às suas expectativas?
[JR]: Nesta segunda volta, o resultado foi exactamente o que eu esperava. Desde muito cedo fui apoiante de António José Seguro, hoje Presidente da República. Recordo, aliás, que a convicção de que avançaria como candidato se consolidou numa visita à Fundação ADFP, seguida de um jantar no Conimbriga Hotel do Paço. Nesse momento achei evidente que o seu projecto político não iria parar, mesmo sem o apoio inicial do Partido Socialista.
Não o apoiei na primeira volta por uma questão de lealdade partidária, preservando uma antiga relação com Marques Mendes. Quando passou à segunda volta, fiquei satisfeito e apoiei convictamente.
Trata-se de um Político com profundas preocupações sociais e de desenvolvimento regional, conhecedor do interior do país e dos problemas que existem no País, para lá da Grande Lisboa. Possui um percurso marcado por coerência ética, nomeadamente pelo afastamento de determinados actores políticos e alianças que marcaram negativamente a vida nacional.
Demonstrou igualmente ser um verdadeiro estadista durante o período da Troika, ao apoiar, enquanto líder do Partido Socialista, medidas difíceis mas necessárias, ao lado de Pedro Passos Coelho, revelando sentido de Estado, responsabilidade e visão estratégica. Acredito sinceramente que fará um grande mandato.

[CP]: O Hospital da Compaixão nasceu para colmatar falhas do Serviço Nacional de Saúde ou resultou de uma visão estratégica para a saúde no interior do país?
[JR]: Nas últimas décadas assistimos a um progressivo abandono do interior. Os concelhos perderam serviços públicos essenciais e também muitos serviços privados — bancos, estações dos CTT — o que contribuiu para o despovoamento e para o envelhecimento da população. Na área da saúde, tornou-se evidente que, mantendo-se esta tendência, o interior do Pinhal Interior, entre Coimbra e Castelo Branco, ficaria cada vez mais desprotegido.
Foi nesse contexto que decidimos avançar com o Hospital da Compaixão: um hospital particular, sem fins lucrativos e de interesse público, pensado para cooperar com o Estado e complementar as insuficiências do Serviço Nacional de Saúde, sobretudo na proximidade e na humanização dos cuidados.

[CP]: Como avalia hoje a relação entre o Serviço Nacional de Saúde e o crescimento da hospitalização privada?
[JR]: À medida que o Serviço Nacional de Saúde perdeu capacidade de resposta, esse vazio foi sendo ocupado por uma hospitalização privada fortemente orientada para o lucro, muitas vezes dominada por grandes grupos internacionais. Basta olhar para Coimbra para perceber a dimensão deste fenómeno. São capitais que investem na saúde em Portugal para gerar lucro e que depois o exportam, empobrecendo o país. Ao mesmo tempo, assistimos ao desaparecimento da medicina liberal de proximidade: os consultórios independentes quase deixaram de existir e muitos médicos passaram a trabalhar, de forma quase ‘uberizada’, para grandes grupos privados.

[CP]: Que alternativa considera mais adequada para defender o interesse nacional na área da saúde?
[JR]: O Estado deveria ter uma estratégia nacional clara que, sem abdicar de um Serviço Nacional de Saúde forte e eficiente, promovesse a cooperação com o sector social sem fins lucrativos, IPSS’s, Misericórdias, Cooperativas, Fundações, que defendem o interesse público sem visar o lucro. Estas instituições podem colaborar através de acordos que, além de garantirem proximidade e qualidade, permitem ao Estado poupar recursos: tratar mais doentes sem aumentar a despesa.

[CP]: Considera que os sucessivos governos desvalorizaram este sector social?
[JR]: Claramente. Em particular, durante os governos do Partido Socialista, essa cooperação não existiu. Houve uma postura excessivamente ideológica que contribuiu para a degradação do Serviço Nacional de Saúde e para o fortalecimento da hospitalização privada lucrativa, com desvalorização do sector social.
As IPSS existem para combater e prevenir o sofrimento das populações nos territórios onde actuam, criando respostas para idosos, crianças, pessoas com deficiência ou doença mental. São instituições de interesse público, maioritariamente dirigidas por voluntários não remunerados, que prestam serviços essenciais às comunidades.
Existe, porém, um conjunto de mitos que importa desmontar. O Estado não subsidia estas instituições: comparticipa serviços, exactamente como faz nas farmácias ou quando paga a um empreiteiro por uma obra pública. Parte do custo nas IPSS’s é suportado pelo Estado e outra pelas famílias, em troca de um serviço prestado, tal como acontece nas farmácias.
É igualmente falso que as IPSS não paguem impostos. Pagam impostos e taxas — e, em muitos casos, proporcionalmente mais do que empresas privadas do sector lucrativo. No caso da Fundação ADFP, em 2024, pagámos ao Estado mais de 3,3 milhões de euros em impostos e taxas.
O sector social emprega milhares de pessoas, paga TSU, paga IVA como consumidor final e cria riqueza local, sem fins lucrativos e sem exportar lucros. Ainda assim, continua a ser ignorado pelo Estado e frequentemente desvalorizado pela comunicação social. Uma verdadeira estratégia de interesse público passaria por potenciar este sector como parceiro do Estado, em vez de o excluir por preconceito ideológico ou desconhecimento da realidade.

[CP]: Vindo a Coimbra, qual é a visão central da Fundação ADFP para o Planalto do Ingote?
[JR]: O Planalto do Ingote não é, nem nunca foi, um projecto imobiliário. Desde os anos 90 que o terreno foi cedido à Fundação para ali desenvolvermos um grande investimento social, pensado para responder a necessidades reais da população: cuidados continuados, apoio a idosos, pessoas com deficiência, crianças e, mais tarde, também respostas para doenças raras. Falamos de um projecto com forte impacto social, integrado na cidade e pensado para o interesse público.

[CP]: Porque é que um projecto com esta dimensão está parado há mais de três décadas?
[JR]: O projecto acabou por ficar bloqueado por sucessivas decisões políticas e burocráticas. A Câmara Municipal decidiu dividir o terreno e assumir também uma parte do projecto. Lançou um concurso internacional de arquitectura, gastaram-se milhões de euros, mas nunca se avançou para a fase de execução. Durante mais de 30 anos perdeu-se tempo, gastou -se dinheiro e impediu-se a concretização de um importante projecto arquitectónico e social, valorizando o Ingote e Coimbra.

[CP]: O que prevê, concretamente, o projecto do Planalto do Ingote?
[JR]: O projecto, no que nos respeita, prevê instalar 140 camas, para serem afectas a cuidados continuados, idosos, adultos com deficiência ou até crianças com doenças raras, consoante as necessidades sociais do momento. É um projecto flexível, moderno e absolutamente necessário para a cidade, que permitiria responder a carências evidentes na área social e da saúde, contribuindo para requalificar o Ingote.

[CP]: Vê condições para que o projecto seja finalmente desbloqueado?
[JR]: Tenho esperança que sim. A actual presidente da Câmara, a professora Ana Abrunhosa, demonstrou vontade de estudar o processo e de colaborar. Tivemos uma reunião positiva, preparada, e isso dá-me expectativa de que seja possível retirar este projecto da gaveta. Seria muito importante para o Ingote, para Coimbra e para o sector social.

[CP]: A Fundação consegue avançar sem apoio do Estado?
[JR]: Um projecto desta dimensão exige sempre algum apoio público, mas hoje existem instrumentos como fundos europeus e o PRR que podem viabilizá-lo. O que é essencial é vontade política e capacidade de decisão. O pior que pode acontecer é continuarmos com um projecto bloqueado, depois de já se terem gasto milhões de euros, sem qualquer benefício para a população.

[CP]: E até onde quer ir a Fundação ADFP?
[JR]: A Fundação quer avançar naquilo que for possível, desde que tenha recursos financeiros. Ao contrário de empresas privadas, que distribuem lucros a sócios ou accionistas, uma IPSS reinveste o excedente no próprio projecto e na comunidade. Nos últimos anos, diversificámos actividades para criar emprego, desenvolver a região e criar autonomia sem depender do Estado: agricultura, vinhos, turismo, hotéis, restaurantes, o Parque Biológico da Serra da Lousã, o Templo Ecuménico. Também mantemos projectos sociais próprios, como o refeitório e uma residência para pessoas sem-abrigo, e educativos com o St. Paul’s School, totalmente geridos sem qualquer apoio do Estado.
Esta autonomia financeira é rara nas IPSS e permite à Fundação responder às necessidades sociais de forma independente, inovadora e sustentada. Em resumo: o nosso objectivo não é lucro, é impacto social e defender o interesse público .

Luís Santos/Joana Alvim