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São Martinho do Bispo e o espaço público: algumas ideias para uma estratégia comum a partir da Rua do Alecrim

2 de Outubro 2025 Jornal Campeão: São Martinho do Bispo e o espaço público: algumas ideias para uma estratégia comum a partir da Rua do Alecrim

Falamos de São Martinho enquanto um grupo de vizinhos que, a partir da Rua do Alecrim, pensa na freguesia de São Martinho do Bispo e Ribeira de Frades como espaço de vida em comum. É desta relação de vizinhança vivida, construída e discutida, que percebemos como a falta de urbanidade que nos envolve se deve à ausência de uma
estratégia política consistente, definidora do espaço público.
Se por um lado, o ambiente da freguesia é resultado da fragmentação de urbanizações e edificações, sem densidade, numa ambivalência entre espaço urbano e rural. E, num dificultado acesso a equipamentos e serviços, feito de uma parca articulação de mobilidades, e com um desenho de ruas inadequado à mobilidade pedonal, numa clara primazia do automóvel individual. Por outro, a freguesia detém um conjunto de recursos essenciais ao estabelecimento de relações de proximidade que, se articulados entre si, poderão vir a constituir uma identidade comum, sentido de pertença a todos que vivem, trabalham e estudam, em São Martinho. São eles creches escolas, instituições do ensino superior, equipamentos desportivos, o hospital, empresas, comércio, serviços e associações culturais e desportivas. Estes recursos são âncoras essenciais para o estabelecimento de densidade, diversidade e proximidade física entre pessoas e lugares. Eles estabelecem-se como potenciadores do acesso ao emprego, à cultura, ao desporto, dando lugar a novas possibilidades.
Numa ideia que é política e urgente, em tempo de eleições, cabe a nós cidadãos e residentes de São Martinho, repensar que tipo de vida desejamos para o nosso entorno.
Este texto procura assim deixar algumas ideias que nos parecem essenciais para uma estratégia comum para o espaço público de São Martinho.
Num primeiro nível poder-se-á repensar a mobilidade, as vias de ligação entre franjas dispersas de urbanizações, pontos de acesso a transportes, com uma articulação entre caminhos rurais e urbanos, equipamentos do quotidiano e espaços naturais, melhorando a mobilidade pedonal, o aprovisionamento de estacionamento, e quiçá introduzindo a mobilidade ciclável. Em seguida, no fomento do cruzamento e diversidade de transportes e a sua intermodalidade, entre comboio, autocarro, bicicleta, com condições de segurança, iluminação e sinalização.
Num terceiro nível na articulação e conexão de espaços públicos, existentes ou propostos criando uma rede de entre diversos núcleos habitacionais e zonas de concentração de atividades, respondendo às necessidades, sazonalidades e perfis dos usuários e da sua envolvente. O modelo de urbanização materializado na nossa freguesia, sempre deixou expectantes bolsas de terreno sem acessibilidade ou ocupação. Estas bolsas, apresentam-se aptas para a criação de uma rede de espaços públicos de proximidade que, bem programados, numa criteriosa atenção aos custos de execução e manutenção, podem vir a ser espaços de convívio de vizinhança. Muitos destes espaços expectantes já são alvo de apropriação espontânea, por quem passeia os seus animais domésticos ou pelo convívio viário dos residentes. Esta articulação estende-se obviamente aos grandes equipamentos públicos (hospitais, escolas, espaços desportivos, centro de saúde, etc.), e onde estes novos e velhos espaços públicos dotados de mobiliário urbano, para adultos e crianças.
Nas imediações da Rua do Alecrim, existem duas bolsas de terreno que poderão ser um princípio para o início desta estratégia. Temos o espaço que medeia entre a Rua 5 de Outubro e a Rua do Progresso, e o espaço entre os edifícios da Rua do Alecrim e da Rua dos Lusíadas, aliás outrora campo de futebol de terra batida usado pelas associações da freguesia. O aumento da construção habitacional e em proximidade ao hospital, à Bluepharma, aos comércios da Rua 5 de Outubro, à Escola Superior de Enfermagem, às creches da zona, colocam estas bolsas expectantes como potenciais espaços para a implementação de espaços públicos. Pode nesses espaços ser construída uma rede pedonal alternativa, que inclua um parque para animais, ou uma área a eles dedicada, com zonas verdes de baixa manutenção, aproveitando as manchas arbóreas existentes, dotadas de mobiliário urbano e equipamentos infantis ou de desporto. Tal traria à vida quotidiana de uma das zonas mais ativas da freguesia, lugares onde estudantes, residentes, trabalhadores podem disfrutar de alternativas de proximidade, nos tempos livres da semana, da sazonalidade e do fim de semana, criando novas dinâmicas, ativando a circulação, o comércio local, funcionando como âncoras para o lançamento de outras redes de articulação para velhos e novos lugares. Um dos exemplos positivos e representativos na freguesia da modificação física e social que a melhoria do espaço público traz é o Parque Infantil e Largo da Rua do Chafariz, sendo notória a sua
apropriação por as famílias de crianças que durante a semana e fim de semana se deslocam a este local.
Em conclusão, acreditamos que o espaço público construído na sua continuidade física e social é aquele que permite garantir uma vida com autonomia e desenvolver em proximidade as atividades da vida quotidiana em segurança e coesão instigando à participação social da comunidade. É um esforço que se apresenta como um caminho de alteridade e de inversão do modo atual de fazer cidade, em particular nesta freguesia urbana da cidade de Coimbra, e para o qual estamos investidos na sua discussão.

Da Rua do Alecrim,
Cátia Ramos, Carlos Mota, Luís Ribeiro.