Entre um misto de desilusões e crenças perdidas, o povo cria expectativas legítimas sobre as alternativas de poder que podem corresponder aos seus anseios, às suas análises, à sua esperança de uma vida melhor, ao desejo de um mundo ideal em que os morticínios e genocídios não existam, o equilíbrio de forças seja o domínio da diplomacia, e a paz é possível.
O povo não vota em conflitos de interesses e infracções conexas, em compadrio e corrupção activa e passiva, em traficâncias de cargos, funções e prebendas, em amiguismos que se sobrepõem à competência, em peralvilhos que ocupam lugares técnicos sendo políticos que servem para tudo.
O povo não votou pela demagogia mascarada de democracia, pela mentira com ou sem perna curta, pela inaptidão dissimulada por palavreado bacoco e finório, pela aparência populista que agrada a gregos e troianos donde nada resulta de eficiência, pelas promessas deliciosas incumpríveis.
Em Coimbra, onde está o Plano Marshall (megalómano), a segurança na Baixa (sem droga nem armas), a Rua da Sofia digna do Património da Humanidade (com obras), a Universidade com mobilidade (que seja boa), as árvores seculares protegidas (não são raízes nascituras), as estruturas de saúde merecidas (sem ventoinhas no Verão nem radiadores no Inverno), a habitação integrada no espaço urbano (sem guetização)?
As 112 medidas de emergência do executivo de direita (emergência para 8 anos…) não passam de “parole, parole”, como se fossem canções: “visão estratégica” (má ou inexistente), a “libertar energia criativa e empreendedora” (bonita estrofe), “incentivar o comércio local e a iniciativa privada” (nas grandes superfícies e descurando o serviço público e os apoios ao comércio tradicional). Conclui o presidente da Câmara que “hoje, Coimbra está estrategicamente no bom caminho”. Responda-nos o cidadão: melhorou a sua vida?
Uns vão bem, outros mal…
E a nível nacional?
Como é possível a suspeita de haver “pressões” do Ministro da Educação para aceitar entradas ilegais em Medicina, sem consequências políticas?
É aceitável haver uma tragédia em Lisboa, e o presidente da Câmara Moedas que foi lesto a pedir a demissão de Fernando Medina em tempos, e agora se demarca de um “erro técnico”, expiando os seus pecados (responsabilidade política) com uma ida à missa, gravata preta e ar compungido, seguindo tipo emplastro o primeiro-ministro e o presidente da República?
E como é possível que (segundo o Expresso) no dia do acidente no Elevador da Glória a urgência de trauma do Hospital de Santa Maria estava fechada e no Hospital de São José havia apenas um especialista de serviço, tendo sido médicos que não estavam de serviço a acorrer aos serviços para socorrer os feridos?
É admissível a um primeiro-ministro não ter problemas de consciência, festejando no Pontal com os seus acólitos, enquanto o País ardia e toda a gente via?
No Reino Unido, Angela Rayner renunciou aos cargos de vice-primeira-ministra, ministra do Trabalho e vice-líder do Partido Trabalhista, depois de ter assumido que não pagou o imposto devido por um apartamento. Em Portugal, Spinumviva não diz nada ao povo?
É plausível um presidente da República, que demitiu ministros socialistas, andar sempre a amparar os seus correligionários, façam o que façam ou não façam o que deviam fazer?
O povo vota em quem acredita, mas há quem não mereça a confiança depositada. António Aleixo, o maior poeta popular português, citado pelo seu neto Vítor Aleixo, socialista, actual presidente da Câmara de Loulé dizia: “O mundo só pode ser melhor do que até aqui, quando consigas fazer mais pelos outros do que por ti”. Uma lição de vida.
(*) Médico e vereador do PS na Câmara de Coimbra