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Semanário no Papel - Diário Online

 

Joana Gil

A galinha do vizinho

29 de Agosto 2025

Num banal dia do ano de 2024, um revisor de um comboio belga entrou numa carruagem e cumprimentou os presentes com a saudação bilingue “Goeiedag, bonjour”, ou seja, “bom dia” dito em flamengo e em francês. A este cumprimento, muito habitual no atendimento das lojas e serviços em Bruxelas, responde normalmente o interlocutor na língua que mais lhe aprouver, desenrolando-se a partir daí a conversa nessa língua.

Voltando ao comboio, este encontrava-se perto de Vilvoorde, ou seja, já fora da região de Bruxelas por alguns quilómetros. Ora, nessa carruagem, encontrava-se um passageiro da Flandres muito zeloso da língua da sua região. Assim sendo, o bem-intencionado “bonjour” foi visto não como um cumprimento desnecessário mas antes como verdadeira afronta. O passageiro apresentou por isso queixa junto da Comissão Permanente do Controlo Linguístico (parece uma figura inventada para um livro sobre uma distopia, mas não é, existe na Bélgica desde 1966), que é o organismo belga responsável por aferir da boa aplicação das leis belgas em matéria linguística e, nesse âmbito, analisar eventuais reclamações. Reclamou pois o encanitado passageiro, por entender que aquele cumprimento violava as regras linguísticas do país, segundo as quais na Flandres não poderia o revisor dirigir-se a nenhum passageiro em francês a não ser que o próprio passageiro se lhe tivesse dirigido primeiro nessa língua.

No passado mês de Julho, a Comissão proferiu a sua decisão: constata-se a prática de uma infracção, assistindo por isso razão ao passageiro. O desafortunado revisor, que usou a saudação bilingue pouco depois de ter saído da região de Bruxelas, onde a mesma é obrigatória, será porventura alvo de uma advertência, tal como a companhia ferroviária para a qual trabalha, a qual fez o possível para defender o seu trabalhador na praça pública. Nunca a expressão “cuidado com a língua” fez tanto sentido. O resultado desta aplicação inflexível da lei é quase unanimemente considerado tão lamentável quanto necessário. As mui estritas regras linguísticas da Bélgica reflectem tensões linguísticas de gerações, que atravessam o país desde a sua fundação e para as quais não há solução fácil.

Enquanto Portugal se debate com um estado centralista e centralizador, onde o interior definha e as políticas estatais não favorecem uma verdadeira coesão do território nem a preservação de modos de viver que não se ajustem às grandes metrópoles, lá fora a Bélgica tem três regiões e figura entre os países mais ricos do mundo, considerado o poder de compra. Muitos pensam que a Bélgica é um excelente exemplo de um país com um território ligeiramente mais pequeno que o nosso e uma população só muito ligeiramente maior e um magnífico modelo de descentralização. O que não sabem é que a regionalização é, sob muitos pontos de vista, a resposta possível para problemas que nós não temos. Às vezes, a galinha do vizinho é só mais doida do que a minha.