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Voluntários abrem o mundo espiritual aos reclusos da Penitenciária de Coimbra

8 de Fevereiro 2025 Jornal Campeão: Voluntários abrem o mundo espiritual aos reclusos da Penitenciária de Coimbra

Assistência espiritual, visitas solidárias individuais, iniciativas culturais, estabelecimento de confiança e amizade e oportunidade de trabalho para reclusos são algumas das preocupações do Grupo Mateus 25, que aceita e reúne voluntários para uma missão em ambiente prisional.

O Grupo Católico de Visitadores Voluntários Mateus 25, ou Grupo Mateus 25, opera no Estabelecimento Prisional de Coimbra há 46 anos, com assistência espiritual e visita aos reclusos. Rui José de Oliveira Félix Amado, jurista conimbricense, é um dos elementos da equipa executiva deste trabalho e abriu a porta do Mateus 25 ao “Campeão”.

No princípio era…

“Em 1979, o capelão do estabelecimento prisional de Coimbra era o Padre Branco, franciscano, e além de celebrar a missa prestava assistência espiritual”, introduziu Rui Amado. “Nessa altura entendeu que apenas um homem para servir 400 reclusos era pouco e junto da Direcção do estabelecimento, com o conhecimento do senhor bispo, propôs que fosse aceite a criação de um grupo de leigos que o acompanhasse nesse serviço confessional”, explicou. Esta atitude resultou na autorização de leigos, devidamente credenciados pela diocese, para entrarem em acção junto dos reclusos. Segundo o jurista, apesar desta ter sido a génese do movimento, “rapidamente evoluiu para um serviço de voluntariado além das dimensões litúrgica e confessional”.

Mateus 25 em 25

Este grupo é sempre coordenado pelo capelão do estabelecimento, que neste momento é o Padre João Paulo Fernandes. Sob o líder espiritual existe um grupo de três leigos que configuram uma comissão executiva e que garantem a gestão diária desta missão. São responsáveis pela burocracia, contabilidade, estatísticas, mapas, correspondência e comunicação. Este núcleo executivo é constituído por Cristina Novo, Maria Eugénio Jardim e o nosso guia para esta reportagem, Rui Amado.

Actualmente, o grupo conta com 15 voluntários que fazem um trabalho de serviço cara-a-cara com os prisioneiros, não numa lógica de mestria, mas de companheirismo. É procurado o estabelecimento de relação de proximidade e confiança com a pessoa que está reclusa. Dos cerca de 570 presos, 25 são acompanhados com grande regularidade. “Não são sempre os mesmos, alguns são transferidos para outro estabelecimento, outros saem em liberdade, mas procuramos ajudar o máximo possível”. Antes da pandemia as visitas aconteciam “todos os dias da semana”, depois passaram para periodicidade semanal.

Esta forma de voluntariado é tida como “atípica”, na medida em que quando comparada com outras expressões, a experiência positiva “é menos evidente”, menos atraente e é uma acção “invisível”. “Ao contrário do voluntariado com crianças ou idosos, o nosso trabalho é pouco sentido pela sociedade civil”, explica Rui Amado.

Relação aquém da Fé

A assistência espiritual inicial teve uma recepção tão boa que foram os próprios reclusos a manifestar que gostariam de poder conversar um pouco mais, “e simplesmente conversar”. Essa foi a raiz da implementação das Visitas Solidárias Individuais. De acordo com a explicação de Rui Amado, Coimbra é caso único no país com esta modalidade de visita garantida exclusivamente por voluntariados.

Apesar da natureza católica do movimento, actualmente o corpo é composto por católicos, protestantes, agnósticos e até ateus. Para o executivo, também este traço demonstra que o projecto está a evoluir para uma dimensão mais humana e não apenas confessional.

Rui Amado tem 54 anos, é de Coimbra, presta serviços de consultadoria jurídica a empresas e autarquias. É secretário-geral da Casa de Angola e promotor de iniciativas culturais em Coimbra, cidade onde é autarca. Faz parte do núcleo executivo do Grupo Mateus 25.

Visita Solidária Individual

A Visita Solidária Individual pressupõe o encontro entre duas pessoas. Uma está sujeita a uma privação temporária de liberdades como “circulação, tomar café numa chávena de cerâmica, horários, entre outras, independentemente da causa” e a “outra que tem a liberdade de disponibilizar o seu tempo para estar naquele encontro”. Não há uma agenda ou ritual fixo, “pelo que se manifesta num espaço-tempo de liberdade recíproca”, uma vez que ambas as partes só estão naquele momento porque querem e “podem interromper, se for essa a sua vontade”.

Alguns voluntários acompanham apenas uma pessoa, outros optam por acompanhar mais do que um recluso. São encontros semanais que decorrem entre as 14h00 e as 17h30 de quarta-feira. “É como se estivéssemos numa esplanada e os temas de conversa variam entre os mais profundos e os mais banais, mediante a vontade dos intervenientes”. “Não há intenção de proselitismo ou conversão, apenas de participar de um diálogo que possa ser benéfico, libertador e capacitador”, explicou o voluntário. Há o cuidado de não se perguntar ao recluso o motivo pelo qual está a cumprir pena.

Natal e Páscoa para todos

Uma das inovações deste grupo foi a implementação universal de lembranças de Natal, “além dos reclusos que vão à missa”. Este gesto natalício é feito “cela-a-cela” desde 1986, pelos voluntários e pelo capelão. Uma dinâmica semelhante, e igualmente simbólica, ocorre na Páscoa com forma de visita pascal para todos, com a entrega de um mimo e uma mensagem de esperança. O jurista garante que estas iniciativas somam a Coimbra características únicas no universo prisional português.

Acções Culturais e Sociais

As relações de confiança com a Penitenciária e o reconhecimento do trabalho dos voluntários abriram espaço para continuarem a inovar na sua acção. De iniciativas sazonais, com raízes religiosas, passaram para a promoção de projectos culturais como formação de artes plásticas e poesia, outras aulas e formações com professores voluntários, palestras e conferências, prática de meditação e até bridge.

“Também temos alguns projectos de natureza integrativa”, continuou Rui Amado, explicando a iniciativa “Bem Parecer para Ser”. O objectivo deste projecto prende-se com promover o acesso aos reclusos com menos condições económicas a vias de melhoria do seu aspecto físico. Próteses dentárias e oculares são alguns exemplos de objectos atribuídos, que chegaram até aos beneficiários “graças a recolhas de fundos, donativos e receitas geradas em eventos solidários”.

As saídas precárias, período limitado de tempo em que o recluso sai do estabelecimento prisional, podem ser um desafio para quem não está preparado. Carências económicas, desligamentos familiares ou o imprevisto são algumas razões que levam o recluso a ter dificuldade de se organizar ou estabelecer. Também nestas circunstâncias, o Mateus 25 procura dar resposta, em particular “no custeio de alojamento e refeições para esse intervalo de tempo”.

“Que livro darias a um recluso?”

Em 2024, aquando do Dia Mundial do Livro, os voluntários recolheram centenas de livros de vários géneros literários, organizaram-nos e garantiram que todos chegariam a um recluso com uma dedicatória. Foram distribuídos 524 livros, ala-a-ala, porta-a-porta, acompanhados de um envelope e de uma folha em branco. O objectivo era promover a leitura e estimular a crítica com a devolução da folha com um testemunho da experiência de ler e opinião sobre o projecto.

Na sequência do “Que livro darias a um recluso?” o Mateus 25 convidou o poeta João Rasteiro e o romancista Bruno Paixão para realizarem uma acção presencial e aproximarem os reclusos dos autores.

Um dos resultados deste projecto foi o encontro com a editora Leya para publicação sobre ele. O objectivo foi registar o que aconteceu, como aconteceu e a compilação dos testemunhos escritos dos presidiários.

O que é o sucesso?

O estabelecimento de confiança e de amizade acaba por acontecer naturalmente. “Registamos alguns resultados que nos animam face às visitas e um bom exemplo é de um recluso que decidiu inscrever-se no ensino superior para estudar história, pelo gosto que desenvolveu sobre o tema durante as conversas”. Outro caso que Rui Amado destacou foi o de um homicida, toxicodependente, analfabeto e não crente que, com o desenvolvimento destas visitas, “decidiu aprender a ler e a escrever, desintoxicou-se sem recurso de metadona e pediu à sua assistente para ser sua madrinha de baptismo”. “O sucesso é estar presente, é essa a essência do voluntariado em ambiente prisional”, define Rui Amado.

O Estado, o trabalho e a reclusão

“Uma das coisas mais penosas da reclusão é a passagem do tempo e a inactividade, daí uma das preocupações do Estabelecimento Prisional ser a de proporcionar oportunidades de trabalho”. Para Rui Amado, as autarquias têm, neste ponto, um papel fundamental. “Há vários serviços que precisam de colaboradores e têm dificuldade em encontrar candidatos”, pelo que as autarquias poderiam contar com reclusos que “estão disponíveis e desejam ter a oportunidade de trabalhar, sendo muitas vezes os colaboradores mais assíduos e motivados”.

Como se tornar voluntário?

Este projecto está a aceitar novos voluntários. Para ser membro do Grupo Mateus 25 não é necessário ser crente. O primeiro contacto pode ser feito via e-mail para o endereço visitadoresvoluntariosmateus25@gmail.com. Seguir-se-á uma entrevista para o conhecimento mais próximo do candidato e da instituição. O passo seguinte é uma formação inicial sobre as obrigações legais inerentes à acção, os direitos dos reclusos e dos voluntários. Após a formação, o novo membro será acompanhado por seniores até desenvolver a autonomia necessária para assumir as funções a que se propôs. Os elementos desta equipa reúnem a dupla condição de voluntários e colaboradores de assistência espiritual.

Mateus 25 na Bíblia

O capítulo 25 do Evangelho de Mateus faz parte do discurso de Jesus sobre os últimos tempos e contém três parábolas que abordam a preparação dos seus seguidores para o Reino dos Céus e o julgamento final.

Este capítulo pode ser entendido como um chamado à vigilância e à responsabilidade para com os outros. Além das parábolas das Dez Virgens e dos Talentos, refere a do Julgamento das nações. Esta última descreve que no final dos tempos todos serão divididos em duas categorias, as ovelhas à direita, e os bodes à esquerda. As ovelhas referem-se aos herdeiros que merecem o “Reino”. Em oposição, os bodes que ficam à esquerda, por não terem feito nada disto, serão merecedores do tormento eterno.

A escolha do nome deste Grupo de Visitantes remete para esta passagem, o capítulo 25 do evangelho de Mateus, onde Jesus concretiza, nos versículos 35 e 36: “Porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; Estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e foste-me ver”. A chave de leitura para a universalidade destes feitos surge no versículo 40: “E, respondendo o Rei, lhes dirá: Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes”.

Estava passagem concretiza o valor do amor e do serviço ao próximo e da importância dos pequenos gestos que podem impactar a vida de gente real e ser gratificante para quem o faz.

Texto: António Carraco dos Reis

Publicado na edição em papel do Campeão das Províncias de 6 de Fevereiro de 2025