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Vale do Pranto: uma nova era para a agricultura do Baixo Mondego

18 de Janeiro 2025 Jornal Campeão: Vale do Pranto: uma nova era para a agricultura do Baixo Mondego

A região do Baixo Mondego, reconhecida pela sua longa tradição agrícola, está a viver um momento histórico com a reestruturação do Vale do Pranto. Com um projecto de emparcelamento rural que se arrasta há várias décadas, a obra começou finalmente a ganhar forma em 2023, com a previsão de conclusão para o final do primeiro semestre deste ano (2025).

Benefícios da nova infra-estrutura para a região

O Aproveitamento Hidroagrícola do Baixo Mondego (AHBM) tem como objectivo a reestruturação fundiária, a reconversão das culturas agrícolas, a intensificação da produção e o uso de novas tecnologias. A proposta é tornar a região mais competitiva e sustentável, com a implementação de sistemas de rega e drenagem, a reorganização das propriedades agrícolas e a utilização de métodos de cultivo modernos. A obra tem também como meta a criação de novos postos de trabalho no sector agrícola e a redução do consumo de meios de produção.

Em declarações ao Campeão das Províncias, o presidente da Câmara Municipal de Soure, Mário Jorge Nunes, explicou que o projecto visa transformar um vasto território pantanoso em terrenos altamente produtivos. “O objectivo é evitar que o Vale do Pranto volte à sua configuração inicial de terrenos incultos e alagadiços, que eram um foco de doenças e instabilidade ambiental”, afirmou. “A longo prazo, esperamos ver a agricultura transformada num sector mais robusto, com grandes empresas a explorar o potencial da região”.

Superar desafios para o progresso agrícola

O projecto tem sido marcado pela complexidade das obras, que exigem um elevado nível de tecnologia, engenharia civil e hidráulica. A primeira fase da obra, adjudicada à empresa DST, que deveria estar concluída no início de 2025, tem enfrentado vários obstáculos, em particular as condições meteorológicas adversas e a natureza dos terrenos atravessados. Acresce toda a morosidade ao nível das autorizações da administração central, incompatível com a necessidade de cumprimento das metas dos financiamentos comunitários. No entanto, de acordo com o Engenheiro António Russo, da Associação de Beneficiários da Obra de Fomento Hidroagrícola do Baixo Mondego, a conclusão desta fase está prevista para primeiro semestre de 2025. “Estamos a desenvolver um sistema hidráulico primário que irá beneficiar cerca de 1.400 hectares na região, com foco no sistema de rega, drenagem e emparcelamento das propriedades”, explicou o engenheiro.

Apesar dos desafios, a obra está a avançar, com a construção de um circuito hidráulico primário, que inclui uma conduta de cerca de 12 km, que beneficiará a margem direita do Rio Pranto. Esta fase da obra, que teve um investimento aproximado de 20 milhões de euros, é apenas o início de uma transformação que deverá continuar nas próximas décadas. “O processo de reestruturação fundiária será gradual e demorado. A conclusão total da obra pode demorar mais de uma dúzia de anos, mas estamos a caminhar na direcção certa”, afirmou António Russo.

Em Abril de 2024, a DST publicou uma nota destacando a sua responsabilidade pela construção do Adutor Direito do Pranto e Distribuidor do Marnoto, assim como do Circuito Hidráulico da Quinta do Seminário, em Coimbra. Segundo a empresa, a empreitada inclui a execução de mais de 12.000 metros lineares de canal adutor de rega em tubagem PEAD, com diâmetros que variam entre os 1.800 e os 500 mm. A grande dimensão das tubagens e a especificidade do material a ser aplicado tornam esta obra um desafio técnico de elevada complexidade. O projecto será implementado em terrenos agrícolas, predominantemente dedicados à cultura de arroz, e uma das maiores dificuldades é o nível freático elevado e as características geológicas do terreno, que exigem uma engenharia altamente especializada.

A complexidade do projecto é evidente também na publicação da empresa em Novembro de 2024, que informa sobre os progressos realizados, incluindo o desmonte de rocha numa extensão de cerca de 500 metros lineares e os trabalhos de abertura e aterro de valas para o assentamento da tubagem. A empresa destacou novamente as dificuldades impostas pelo terreno, mas reafirmou o compromisso em melhorar radicalmente as infra-estruturas ambientais da região, com foco na sustentabilidade e na produtividade agrícola a longo prazo.

 

O impacto a longo prazo das Obras Hidroagrícolas no Baixo Mondego

O projecto de emparcelamento e as infra-estruturas de rega irão beneficiar directamente os agricultores da região, melhorando a eficiência das explorações e aumentando a produtividade. Segundo Mário Jorge Nunes, a transformação do Vale do Pranto terá um impacto profundo na economia local. “A obra visa não só aumentar a produção agrícola, mas também melhorar as condições de vida dos agricultores e garantir a sustentabilidade ambiental da região”, disse o presidente da Câmara.

A segunda fase do projecto, que envolve a expansão do sistema de rega e o emparcelamento de mais campos, ainda está em fase de estudo. “Estamos a aguardar pela abertura de novos concursos e fundos comunitários para avançarmos com a segunda fase, que abrangerá outros campos da região”, adiantou o engenheiro. António Russo explicou ainda que o projecto será fundamental para reforçar a produção de arroz, um dos principais produtos agrícolas da região, embora também haja a possibilidade de diversificação para outras culturas no futuro.

Um olhar para o futuro da agricultura no Baixo Mondego

Apesar das dificuldades enfrentadas ao longo das décadas, o presidente da Câmara Municipal de Soure acredita que este projecto é essencial para o futuro da região. “O Vale do Pranto tem um enorme potencial agrícola que, se bem aproveitado, pode garantir a sustentabilidade da agricultura no Baixo Mondego por muitas gerações”, afirmou Mário Jorge Nunes.

O engenheiro António Russo partilha a mesma visão, sublinhando que o projecto de emparcelamento será um ponto de viragem para a agricultura da região. “Estamos a falar de um projecto que irá transformar toda a paisagem agrícola do Baixo Mondego. O emparcelamento e a introdução de novas técnicas de cultivo vão permitir aos agricultores tirar o máximo proveito das suas terras”, afirmou.

No entanto, como alertou o engenheiro, este tipo de obras requer paciência e persistência. “A intervenção em terrenos pantanosos e de difícil acesso leva tempo, mas estamos confiantes de que, com o apoio da União Europeia e dos fundos comunitários, conseguiremos avançar com as obras necessárias”, disse.

Com um investimento a rondar os 40 milhões de euros e um impacto que se prevê será sentido durante décadas, o projecto do Vale do Pranto representa uma aposta forte no futuro agrícola da região. Se os prazos se cumprirem, a região estará a viver uma verdadeira revolução agrícola, que promete aumentar a produtividade e garantir a sustentabilidade do Baixo Mondego, enquanto reforça a sua posição como um dos principais pólos de produção agrícola do país.