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Hernâni Caniço

O glifosato tem potencial cancerígeno, sabia?

11 de Outubro 2024

O glifosato foi considerado potencialmente cancerígeno pela Agência Internacional de Investigação para o Cancro da Organização Mundial de Saúde (“carcinogéneo provável” desde Março 2016). Em Portugal é usado não só por agricultores e proprietários rurais, mas também por autarquias no espaço urbano para eliminar vegetação em passeios e jardins.

No editorial publicado na revista da Ordem dos Médicos, José Manuel Silva (JMS) refere estudos que “demonstram a associação epidemiológica do glifosato e o aumento de patologias como a doença celíaca, infertilidade, malformações congénitas ou doença renal” e que “há uma relação entre a exposição a esta substância e o linfoma não Hodgkin detetado em agricultores”.

Citado no Expresso, o então bastonário da Ordem dos Médicos, JMS, chamava a atenção para a “toxicidade” e “as evidências dos riscos”, sublinhando que “o glifosato devia ser suspenso não só em Portugal mas em todo o mundo tendo em conta o seu potencial cancerígeno”.

No Correio da Manhã, JMS escrevia que “a deficiência humana de vitamina D atinge proporções epidémicas no mundo, o que pode estar associado a osteoporose, fracturas e outras doenças.

Sendo a maior fonte do precursor da vitamina D a exposição solar, suspeita-se que o efeito inibitório do glifosato (herbicida) sobre as enzimas do citocromo P450 possa ser corresponsável por esta deficiência epidémica de vitamina D” (…). Portugal também será o país do mundo com níveis mais elevados de glifosato na urina das pessoas (…)

Segundo Luís Alves, além da urina, “o glifosato já é detectado em análises de rotina aos alimentos, ao ar, à água da chuva e dos rios, (…) ao sangue e até ao leite materno” e está também associado ao mieloma múltiplo e ao autismo.

Em análises realizadas pela Plataforma Transgénicos Fora em colaboração com o Detox Project publicadas pela Quercus, o glifosato foi detectado em 100% das análises efectuadas à urina e os níveis de glifosato na urina representam apenas uma fracção da exposição real (que é inevitavelmente várias vezes superior). A quantidade de glifosato aqui detectada, se estivesse em água da torneira, contaminaria essa água 260 vezes acima do limite máximo legal!

Registe-se ainda que o português menos contaminado tem três vezes mais glifosato que o pior caso alemão.

Um estudo europeu realizado pela ONG Pesticide Action Network-PAN Europe e Verdes Europeus em 12 países, revelou que Portugal é o líder no que toca à concentração tóxica do herbicida glifosato em cursos de água doce.

Segundo José Janela, da Quercus, em “Ambiente em FM”, o glifosato e seu resíduo metabólico AMPA foram encontrados em águas superficiais em Portugal, mesmo fora da época de aplicação de pesticidas.

 

Saúde anda à maré das conveniências políticas?

 

O glifosato e o AMPA representam “uma séria ameaça para a vida aquática, a qualidade da água potável e a saúde humana”. O glifosato “está amplamente presente no ambiente, incluindo na urina humana, poeira doméstica, solos e águas superficiais”.

O Executivo municipal de Coimbra auscultou online a população sobre a possibilidade de reintroduzir a utilização de glifosato em espaços urbanos, um herbicida que serve para travar o crescimento das ervas, pretendendo promover “a participação dos munícipes no processo de decisão, de forma transparente”. Quanta hipocrisia!

Então, a contratação de pessoal de jardinagem e assistentes operacionais não é opção? E as responsabilidades da CMC são delegadas nos cidadãos? E nas Juntas de Freguesia, com comparticipação financeira? E a educação cívica, com apelo à sociedade civil organizada, onde está?

No seu Programa Eleitoral, acção 66, refere “apoio aos condomínios para a regeneração ambiental de áreas envolventes e da eliminação da utilização camarária de herbicidas”. Existe algum acordo com o condomínio da Quinta de S. Jerónimo, com retribuição financeira, que permitirá a eliminação de vegetação nos passeios e jardim e sem utilização de glifosato? A existir, esse acordo é exclusivo da Quinta de S. Jerónimo, ou é extensivo a outras zonas da cidade e concelho?

Qual a função da ciência, ser desvirtuada por quem, além da responsabilidade autárquica, tem ainda responsabilidade profissional? A saúde anda à maré das conveniências políticas? Que coerência entre aconselhar uma alimentação saudável e permitir a utilização do glifosato?

E, afinal, o referendo, sem controlo prévio do voto individual (uma pessoa, um voto), é um “momento de reflexão”, é “informal” ou o resultado é “obrigatório” coincidindo com a decisão?

Não sendo uma delegação de competências nos cidadãos, trata-se de um truque, como “acção destinada a enganar os conseguir alguma coisa”, igual a “ardil” ou “artimanha”?

E se a audição dos cidadãos é uma forma de democracia participativa, porquê só este assunto é questionado? Não vemos os cidadãos serem questionados sobre o que pensam sobre o planeamento das obras em Coimbra, o aumento das tarifas da água, o IMI, o corte das árvores, a travessia do Choupal pela nova ponte, o destino da Estação Nova, e muito mais.

(*) Médico e vereador do PS na Câmara Municipal de Coimbra