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Entrevista: Sandra Felgueiras e a investigação que agora despertou o País

18 de Novembro 2023 Jornal Campeão: Entrevista: Sandra Felgueiras e a investigação que agora despertou o País

Sandra Felgueiras é uma renomeada jornalista que marcou presença em diversos meios de comunicação ao longo da sua carreira. Actualmente, encontra-se na TVI, ao comando do Jornal Nacional.

A jornalista já passou pela Cofina, onde integrou a direcção da revista Sábado, e pela RTP, onde foi a face e coordenadora do programa de investigação Sexta às 9. A sua saída da RTP foi marcada por polémica, após o cancelamento do referido programa pela direcção de informação da estação, depois da investigação sobre o caso lítio que agora, passados 5 anos, levou à queda do Governo.

O seu trajecto tem sido marcado pela coragem de questionar e pela dedicação incansável ao jornalismo de investigação, características que continuam a moldar o seu percurso na TVI.

 

Campeão das Províncias [CP]: Como é que a Sandra vive este momento (queda do Governo pelo caso do hidrogénio e lítio) da sua vida profissional?

Sandra Felgueiras [SF]: Enquanto muitos consideravam o caso adormecido, para mim e para as autoridades, sempre esteve activo. Desde o início, percebi uma rede de cumplicidades envolvendo o Governo e alguns grupos económicos. Não afirmo que as acções detectadas eram imediatamente criminosas, mas as irregularidades eram claras. Agora, o país acordou para o que se pode chamar de terramoto. Para mim não foi surpreendente; era algo anunciado, como se soubéssemos que o terramoto de 1755 se repetiria em Portugal. Não reivindico uma lucidez extraordinária, mas esta consciência já existia em mim há pelo menos cinco anos.

 

[CP]: Quando fez essa investigação sentiu alguma limitação no desempenho das suas funções?

[SF]: Nem eu, nem ninguém da minha equipa, imaginávamos a caixa de Pandora em que estávamos a mexer em Março de 2019.

Não tínhamos percebido ainda a dimensão dos protagonistas, os 350 milhões de euros envolvidos, e a quantidade de vezes que isso se estava a replicar noutros negócios. Em Setembro, tínhamos as reportagens prontas para avançar e fomos confrontados com uma decisão da directora de Informação na época, Maria Flor Pedroso, e da directora adjunta para a minha área, Cândida Pinto, de adiar o programa após as eleições.

A justificação dada foi que todos os programas não diários, que não eram noticiários do dia, iriam parar até às eleições. Na semana seguinte, percebi que isso era falso, pois o programa Linha da Frente continuou. Depois, ao ir para o ar, o programa teve um eco público significativo. Quando o líder do PSD questionou o primeiro-ministro no debate quinzenal sobre por que a reportagem não tinha ido para o ar antes das eleições foi a directora de informação respondeu, afirmando que o programa não estava pronto.

O braço de ferro culminou com a demissão da Maria Flor Pedroso e a minha ida ao Parlamento para explicar que o programa estava pronto. A realidade é que o programa não foi para o ar quando era previsto e ninguém saberá o impacto que teria tido no desfecho eleitoral.

 

[CP]: Olha para essa situação como um acto de censura?

[SF]: Não posso afirmar com certeza se houve uma tentativa deliberada de evitar a transmissão naquela época, pois não tenho provas concretas para sustentar essa alegação. O que apresentei ao Parlamento em 2019 e continuo a afirmar são os factos que vivenciei, mantendo uma narrativa consistente. Não adiciono detalhes à história, pois quem diz a verdade não acrescenta pormenores. A minha abordagem é rigorosa na apresentação dos factos, testemunhados por mim e outras cinco pessoas que trabalhavam comigo. Destaco a coesão e força deste colectivo, que permanece unido apesar das adversidades, discutindo diariamente esse tema e outros. Essa coesão é a parte bonita desta história.

 

[CP]: Respira-se liberdade de imprensa no país?

[SF]: Em Portugal há uma dualidade na liberdade de imprensa. Enquanto uma parte do ambiente jornalístico permite a livre expressão de informações, outra parte enfrenta uma anormal falta de liberdade, principalmente devido à autocensura. Esta última é muitas vezes resultado de pressões externas, medo de represálias ou influências comprometedoras. Destaca-se a importância de um ambiente que promova a liberdade para que os profissionais possam cumprir eficazmente o seu papel na sociedade, garantindo uma informação justa e precisa.

 

[CP] Não se sente totalmente orgulhosa da sua classe profissional?

[SF]: Não, não me sinto totalmente orgulhosa da minha classe profissional. O que ocorreu na semana passada não foi apenas a queda de um Governo, mas sim um dano colateral de uma investigação policial que culminou na decisão do primeiro-ministro, sendo uma espécie de bofetada de luva branca. Ao longo dos anos muitos jornalistas pactuaram com tentativas persistentes de difamação, enxovalhando o bom nome de profissionais sérios que procuravam apenas contar a verdade. Alguns, como eu, arriscaram-se a ser despedidos e enfrentaram ameaças por relatar os factos. O resultado final é a saída de alguns jornalistas, como é o caso da minha equipa.

 

[CP]: Acha que há uma cumplicidade excessiva entre o profissional da comunicação social e os poderes?

[SF]: Não acho, tenho a certeza de que existe uma cumplicidade excessiva e comprometedora da verdade, não apenas no âmbito do poder político, mas também no âmbito desportivo, entre jornalistas desportivos e os principais líderes de clubes.  Essa cumplicidade também se estende ao jornalismo económico e judiciário, onde há um comprometimento significativo. A raiz do problema reside na génese dessas relações e não quero com isto a generalizar.

Infelizmente existem jornalistas dentro desses sectores que demonstram um comprometimento excessivo, e todos nós conhecemos essas figuras, embora raramente alguém ouse apontar directamente. É urgente abordar essa questão para preservar a integridade do jornalismo e garantir que a verdade seja priorizada.

 

[CP]: A partir de certa altura proliferaram cursos de comunicação social em Portugal, mas não se traduziu em melhor jornalismo. Concorda?

[SF]:  Os 20 anos entre 1974 e 1995 marcaram uma transição significativa, passando de uma ditadura para uma luta pelo crescimento democrático. Nos últimos 24 anos, observei uma luta diferente, onde o jornalismo deveria ser um pilar essencial numa sociedade democrática bem estabelecida. Destaco a importância de fazer perguntas livremente, sem medo de perder fontes e a necessidade de manter uma separação clara entre relações pessoais e fontes profissionais. Estou a querer chegar onde? Não acho normal que um ministro vá almoçar ou jantar com empresários que pretendem uma licença para uma empresa. Comportamentos assim numa sociedade democrática como a nossa, quase a completar 50 anos, não devem acontecer.  Nas democracias consolidadas estes tipos de comportamentos não são admissíveis.

 

[CP]: Nunca pensou em abandonar o jornalismo?

[SF]: Ao sair da RTP para a Cofina, enfrentei um período difícil, deixando para trás família e amigos. Contudo, não guardo ressentimentos em relação à RTP, pois foi lá que aprendi e cresci, sendo grata às pessoas que me ajudaram. No entanto, houve algumas pessoas com as quais me zanguei e que me magoaram, pois acredito que defraudaram o jornalismo na forma como lidaram comigo e com os meus. Devido a essas pessoas, decidi sair. Acabei por reencontrar o “pai” do Sexta às 9, Nuno Santos. Também me reencontrei com uma das pessoas que me deu das maiores oportunidades profissionais da minha vida, José Alberto Carvalho, que ainda hoje é uma figura de referência na apresentação do Jornal Nacional. Hoje, tenho o privilégio não apenas de trabalhar com pessoas que admiro profundamente do ponto de vista profissional e ético, mas também estou numa casa, TVI, que não só me dá total liberdade para trabalhar, como também me apoia e ajuda no meu trabalho.

 

CP: Quando é que a Sandra decidiu ir para jornalismo? Essa decisão teve alguma influência do período difícil que viveu a sua mãe?

SF: Não, a decisão de ser jornalista não foi influenciada por isso. Aos seis anos, fiquei fascinada pela televisão através do meu tio-avô, tio Toneca, que assistia a noticiários na RTP. Encantada com Carlos Fino, decidi ser como ele, queria contar histórias reais, não apenas ficção. Cresci numa família que valorizava a utilidade à sociedade, com exemplos como a minha mãe, presidente de Câmara, que se dedicava ao trabalho sem receber além do salário. Vivo do meu trabalho, ganhando justamente, sentindo-me útil. Não sou nenhuma heroína, mas sou uma pessoa lúcida. A única influência foi no sentido de justiça, sem perseguições. Falo todos os dias sobre presunção de inocência, não persigo ninguém. Nunca confundi o pessoal com o profissional, pois o que fizeram à minha mãe é prova de que não podemos presumir sobre pessoas que não conhecemos.