Isabel Craveiro é uma figura incontornável no panorama das artes cénicas em Portugal. Destaca-se como uma personalidade multifacetada e de importância ímpar no universo teatral, não só em Coimbra, mas em todo o país. Para além do seu desempenho como actriz, assume também os papéis de encenadora e directora artística do Teatrão. Neste papel, não só se evidencia pela sua capacidade criativa na concepção de espectáculos, como também se destaca na gestão e programação da Oficina Municipal do Teatro. A trajectória de Isabel Craveiro é um testemunho vivo do potencial transformador da arte. O seu percurso é um exemplo inspirador para todos, demonstrando como a paixão, dedicação e talento podem moldar e enriquecer o panorama artístico.
Campeão das Províncias [CP]: Uma companhia de Teatro, em Coimbra, fazer 30 anos, é obra!
Isabel Craveiro [IC]: É obra, mas existem outras mais antigas. Existem companhias com uma longa tradição e vitalidade, o que é muito positivo. Isso significa que a cidade consegue, apesar das vezes em que olhamos de forma crítica e por vezes com menos entusiasmo, gerar um fluxo de trabalho regular na área do teatro de maneira bastante consistente. Actualmente, em Coimbra, encontramos numerosos projectos teatrais profissionais. Além disso, há uma riqueza representativa nos núcleos do teatro universitário e do teatro popular, que continuam a ser fontes muito interessantes de produção para a cidade.
Olhando para o panorama teatral da cidade, vemos que novos e diversos projectos de várias dimensões e escalas têm surgido. Temos, por exemplo, a Marionet, que está muito ligada à produção e também ao Teatro e à Ciência. Trata-se de um trabalho bastante específico, mas com uma regularidade notável e conta também com apoio do Governo central. Menciono ainda os Bonifrates e a Casa da Esquina, que apresentam produções regulares nas artes performativas e em outros projectos. Todas estas estruturas recebem apoio municipal, além de financiamento pontual do Estado central. E ainda existem outros projectos, como a Trincheira Teatro, que recebeu apoio pontual da DGArtes e o novo núcleo dedicado à formação chamado Elefante na Sala.
Há, de facto muitas coisas a acontecer. Para além daqueles que já estão há mais tempo no terreno, acredito que esta capacidade de gerar novos colectivos está também intimamente ligada à formação, e à oferta de formação superior na cidade nesta área.
[CP]: Quem diz que em Coimbra não se passa nada, não está atento.
[IC]: Não está e talvez precise de tomar um tónico para ficar mais bem-disposto. Acredito que devemos contrariar esse discurso de “não se passa nada”, porque não corresponde à realidade. Especialmente quando olhamos para o panorama cultural. Se considerarmos a participação das pessoas nas actividades e o interesse, também não podemos dizer que não se passa nada. Há um público activo, e actualmente existem muitos espaços com programações de alta qualidade e regularidade.
A verdade é que o público existe. Está presente, vai aos espectáculos, mobiliza-se. Está informado. Eu própria, apesar de passar a maior parte do meu dia na Oficina Municipal do Teatro, sou uma espectadora assídua de outras produções e actividades. Dessa forma, consigo perceber as dinâmicas do público noutros espaços de programação. E, neste sentido, Coimbra destaca-se não apenas na região Centro, mas a nível nacional, como uma cidade que possui equipamentos e infra-estruturas culturais de elevada qualidade, com uma programação robusta, consistente e com um público activo. São todas coisas muito positivas, o que demonstra que a cultura em Coimbra está bem e merece os parabéns.
[CP]: Como tem sido o dia-a-dia para conseguir criar projectos e cativar público?
[IC]: Ao longo destes 30 anos, o Teatrão passou por grandes transformações. Inicialmente, era uma companhia de teatro voltada para a infância, com uma relação quase exclusiva com o público escolar. Embora o público escolar ainda esteja presente de várias formas no nosso trabalho, expandimos consideravelmente a nossa abordagem. Considero que um dos principais impulsionadores da nossa proximidade com o público foi o projecto pedagógico iniciado em 2001. Destaco o trabalho de formação e mediação nas classes do Teatrão, o projecto Teatro e Memória com os idosos das IPSS e o projecto com os cegos e deficientes visuais, em parceria com a ACAPO e a Fundação Calouste Gulbenkian. Actualmente, as classes do Teatrão acolhem crianças a partir dos 6 anos e a idade não é uma barreira. Uma coisa muito interessante é que os alunos que começam no Teatrão tendem a permanecer connosco durante muitos anos.
Durante todos estes anos, houve uma diversificação significativa de projectos, com o objectivo de alcançar públicos que normalmente estão menos envolvidos com o teatro. É importante desconstruir preconceitos em relação a diferentes formas teatrais. Acredito que estamos numa era em que é crucial trabalhar estas questões. Ao conhecermos melhor a nossa comunidade, devemos estar preparados para interagir com todos. Este tem sido o nosso foco. Procuramos oferecer espectáculos para diversas idades e sempre com a máxima profissionalização.
O teatro continua a ser uma arte efémera. Não existem dois espectáculos iguais, não há repetições. A experiência de assistir a um espectáculo ao vivo, com os actores ali presentes, é completamente diferente de ver cinema, séries ou outros conteúdos em casa. O teatro requer a decisão de comprar bilhetes, deslocar-se até ao local e às vezes até ser surpreendido com um espectáculo no meio da rua – algo que também gostamos muito de fazer. Esta diversidade de público é algo que valorizamos e trabalhamos continuamente.
[CP]: Qual é a mais-valia do teatro para as crianças e jovens?
[IC]: É diferente. Para as crianças é um fenómeno extremamente lúdico, o que naturalmente influencia a sua capacidade de expressão, imaginação e criatividade. Contudo, quando se trata do público adolescente, encontramo-nos perante uma fase de transformação crucial. Estes jovens enfrentam uma série de conflitos pessoais, bem como questões relativas à sua relação com os adultos, ao futuro e às escolhas que têm de fazer.
O teatro desempenha um papel fundamental na construção de um olhar mais crítico e menos alienado sobre as grandes opções que se colocam nas suas vidas. Estas opções incluem a decisão de consumir jornais, ler notícias, explorar livros, ou desfrutar do cinema – hábitos culturais que se moldam principalmente durante a adolescência.
Hoje em dia, os jovens enfrentam uma enorme pressão relacionada com o desempenho escolar. Esta pressão não provém apenas dos pais; muitas vezes, eles próprios criam essa pressão, pois sentem de alguma forma que o seu futuro pode estar em risco devido a um desempenho menos positivo ou notas menos elevadas. Esta situação é agravada pela extensão dos horários escolares e pelo nível de compromisso que esperamos deles em diversas actividades.
A escola não pode ser apenas uma questão de resultados quantitativos. Há níveis de confiança e de auto-estima muito baixos, os miúdos têm muito medo de errar e isso não é bom. É essencial considerar o desenvolvimento global dos adolescentes, não apenas no que diz respeito ao seu desempenho académico, mas também à sua formação como indivíduos críticos, criativos e conscientes do mundo que os rodeia.
[CP]: E o teatro para as populações seniores?
[IC]: Há uma memória muito rica do teatro amador, das rábulas, das improvisações e de formas muito mais populares. Existe vontade de participar e divertir-se, por vezes acompanhada de um pouco de receio ou timidez, mas superam com mais facilidade do que os adolescentes.
O projecto “Teatro e Memória” tem sido uma experiência incrivelmente enriquecedora para nós. Ao longo dos últimos sete anos, em cada ciclo, trabalhámos com 19 instituições particulares de solidariedade social (IPSS) do concelho de Coimbra. O projecto é focado numa população que possui um traço marcante de demência, o que nos leva a trabalhar com referências e memórias concretas de tempos passados. Isso tem revelado um tesouro de informações sobre como era a vida e o trabalho na cidade há 50 ou 60 anos atrás, as principais profissões e ocupações das pessoas, assim como os rituais familiares, de casamento e namoro. O próximo ciclo do projecto irá explorar o trabalho manual e artesanal, com o tema “Quem Sabe, Sabe”, destacando o que sabemos fazer com as nossas mãos nos dias de hoje.
O Teatrão, desde a sua origem, sempre teve uma preocupação marcada com a formação e mediação de públicos, o que nos torna tudo menos elitistas. Este compromisso com as comunidades é algo que temos mantido ao longo dos anos, trabalhando com estruturas amadoras, companhias e núcleos do Baixo Mondego. Estamos em constante movimento e abertos a diversas abordagens, pois acreditamos que uma comunidade viva é uma comunidade em constante evolução.
[CP]: Na próxima sexta-feira vão realizar um arraial no Jardim das Oliveiras da OMT que abre a nova temporada. O que vai acontecer?
[IC]: Temos muitos motivos para comemorar, não apenas os 30 anos do Teatrão, mas também a oportunidade de oferecer uma programação que irá destacar a importância da celebração da Revolução do 25 de Abril. Não se trata apenas de marcar 50 anos de história, mas sim de uma celebração viva. Deveria ser o início de uma nova relação com a memória desta revolução, uma relação que é crucial para as novas gerações. Em breve, fará 50 anos desde o 25 de Abril e muitos jovens hoje em dia sabem muito pouco sobre esse evento. Temos uma grande responsabilidade em manter viva a essência desses princípios nas novas gerações do nosso país, para que possam servir de inspiração. Esta revolução é uma fonte de inspiração não apenas para Portugal, mas para o mundo inteiro. Às vezes, esquecemos de ter orgulho no que alcançámos, devido à nossa tendência de pensar que estamos sempre a fazer tudo errado. No entanto, o 25 de Abril foi um feito grandioso. Foi uma revolução pacífica que contou com a participação exemplar dos artistas da música de intervenção e dos militares. Em muitos casos, os militares têm a tendência de instaurar ditaduras e não promover democracias. No nosso caso, foi algo verdadeiramente maravilhoso. No ano passado, iniciámos um espectáculo chamado “Revolution”, que reuniu quatro estruturas. Este ano, no 25 de Abril, irá percorrer principalmente a região Centro, em vários teatros. Teremos 16 actores em cena, acompanhados de música ao vivo. Além disso, teremos novas produções dedicadas ao 25 de Abril e a edição de textos teatrais sobre esse tema, com a participação de novos dramaturgos. Este programa celebra não só os 30 anos do Teatrão, mas também reflecte sobre o futuro e a necessidade de afirmar, num mundo tão complexo e desafiador, quais são as nossas prioridades e o que devemos exigir para o nosso futuro comum, não apenas a nível nacional, mas também na nossa capacidade de intervir no mundo.
[CP]: Até 8 de Outubro decorrerá uma nova temporada de Os Cantos das Pedras, que percorre as ruas da Alta e da Baixa à procura da história de Aeminium. Que espectáculo é este?
[IC]: Foi um desafio lançado pelo município e revelou-se extremamente interessante. Obrigou-nos a estudar e investigar, indo além do que é visível à primeira vista. Muitas pessoas associam os romanos em Coimbra ao criptopórtico, e claro, fizemos um espectáculo lá. Pretendemos regressar com este projecto, mas também criámos um percurso sonoro pela cidade, permitindo às pessoas descobrir uma Coimbra diferente, embora, em muitos aspectos, esta cidade não seja tão diferente da antiga cidade romana. Já existiam duas cidades, uma com a população mais pobre a viver na baixa e a população mais abastada na alta. Assim, havia uma clivagem evidente. As pedras guardam muitas histórias e foi isso que os dramaturgos exploraram connosco. Contámos com a valiosa colaboração do professor Jorge Alarcão e de outros arqueólogos, bem como do departamento de arqueologia da Universidade de Coimbra, que nos auxiliaram imensamente na investigação e compreensão.
[CP]: No dia 12 de Outubro têm mais uma estreia.
[IC]: Vamos adaptar uma grande obra de Bertolt Brecht, “Mãe Coragem”. Esta adaptação conta com a tradução de António Sousa Ribeiro e dramaturgia de Jorge Louraço Figueira, que intitulámos de “Ti Coragem & Filhos Lda.”. O título tem uma conotação empresarial propositada, já que procuramos uma actualização do texto original de Brecht, com uma dose generosa de crítica em relação ao discurso actual sobre empreendedorismo e a precariedade associada a ele.
Vamos conhecer o exemplo de uma empresa familiar chamada Ti Coragem & Filhos Lda. Este espectáculo conta com 10 actores em cena e música ao vivo. Nele, abordamos um dos textos mais importantes e famosos de Brecht, actualizando-o e questionando-o. Queremos discutir vários aspectos relacionados com o mundo contemporâneo.
Um dos temas centrais é o fenómeno da guerra, algo que está presente em vários cantos do mundo, mesmo que nem todos os conflitos recebam a devida atenção. Este espectáculo aborda também a nossa capacidade crítica e a influência da comunicação social e das redes sociais na formação de opiniões.
“Ti Coragem & Filhos Lda.” é um espectáculo marcadamente político e apesar de não contar uma história feliz, trata-se de uma comédia muito divertida e emocionante, com música ao vivo, sob a direcção de Victor Torpedo.
A peça é uma provocação para repensarmos o papel do teatro como um espaço de discussão e construção de pensamento, uma ferramenta de interferência na vida das pessoas. Em parceria com a Faculdade de Economia e o CES, teremos uma série de actividades complementares, como conferências, um seminário sobre Brecht e um ciclo de cinema. Todas estas iniciativas visam envolver o público nesta importante discussão.
[CP]: Qual é a equipa com que o Teatrão conta para concretizar os seus projectos?
[IC]: Nós temos uma grande preocupação em incentivar jovens dramaturgos que queiram trabalhar na cidade. Um exemplo disso são o João Gaspar e a Inês Silva, que são, na verdade, jovens dramaturgos que desafiámos a escrever peças para o Teatrão. Além disso, na nossa equipa, temos outros dramaturgos consagrados, com experiência distinta, como Jorge Louraço Figueira, que foi crítico teatral, possui um trabalho sólido em dramaturgia e é professor universitário nesta área. Também contamos com a tradução de António Sousa Ribeiro, um professor que foi director do CES, que tem uma vasta obra publicada e está em Coimbra há décadas.
A música está sempre presente no Teatrão, com uma programação musical diversificada. Também incentivamos músicos locais a serem directores musicais de projectos, a criarem versões ou músicas originais para os nossos espectáculos, muitas vezes originando novos projectos. Isso permite conhecer e valorizar ainda mais o cenário cultural da cidade. É maravilhoso trazer pessoas de fora, o que fazemos com regularidade, mas também é igualmente gratificante reconhecer e promover a alta qualidade da produção cultural local, algo que deve ser firmemente defendido e apoiado.
[CP]: Que tipo de apoios tem o Teatrão para desenvolver todas estas actividades e como tem sido a relação com a autarquia?
[IC]: O Teatrão possui actualmente uma situação financeira muito diferente daquela que tinha no início. Neste momento, o Teatrão tem uma relação estável com o financiamento do Estado central, contando com dois programas que são pilares fundamentais desse apoio. Em primeiro lugar, o apoio sustentado, no qual o Teatrão obteve uma conquista notável ao ficar em primeiro lugar no concurso nacional. Isso garante financiamento para os próximos quatro anos, com previsão de renovação por mais quatro anos, graças a essa excelente classificação no projecto do Teatrão. Essa estabilidade financeira permite-nos planear a programação das nossas actividades de criação e pedagógicas com tranquilidade.
Além disso, o Teatrão também conseguiu, numa estratégia desenvolvida em conjunto com o município, uma candidatura bem-sucedida à Rede de Teatros e Cineteatros Portugueses, o que significa que o Teatrão tem mais de 100 mil euros disponíveis para programar e apoiar outros projectos. Valorizamos muito esta oportunidade, especialmente porque existem quatro teatros em Coimbra que fazem parte desta rede: o Teatro da Cerca, a Oficina Municipal do Teatro, o TAGV e o Convento de São Francisco.
Tentamos não só promover a vitalidade cultural da região, mas também afirmar a região Centro como um núcleo importante de criação artística. Isso permite-nos mobilizar mais recursos e incentivar os municípios a apoiarem ainda mais as programações culturais e os projectos locais. Além desses programas, contamos com o apoio do município para a criação e gestão da Oficina Municipal do Teatro. Também recebemos outros tipos de apoios, como os Fundos 2020, e estamos a preparar candidaturas para os Fundos 2030 e para projectos da Fundação Calouste Gulbenkian.
Ainda assim, o Teatrão continua a ter uma actividade muito intensa em relação aos recursos financeiros disponíveis.
Entrevista: Luís Santos / Joana Alvim
Publicada na edição do “Campeão” em papel de quinta-feira, dia 21 de Setembro de 2023