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Reportagem: A experiência de alunos brasileiros na Universidade de Coimbra

1 de Abril 2023 Jornal Campeão: Reportagem: A experiência de alunos brasileiros na Universidade de Coimbra

A Universidade de Coimbra (UC) tem vindo a acolher cada vez mais estudantes de diversas nacionalidades e os dados mais recentes disponíveis indicam que dos 25.580 alunos que a frequentam os estudantes estrangeiros são 4.351, representando 17% do total, englobando 98 nacionalidades.

O elevado número de um grupo específico de estudantes conferiu à UC o título de “maior universidade brasileira fora do Brasil”. A opção destes 2.432 alunos brasileiros em virem para Coimbra é motivada por diversos factores, como a busca por novas experiências, ou pela vontade de viver noutro país com quem o Brasil tem evidentes afinidades.

Esta aventura, que se desenvolve de forma única para cada estudante, tem sido uma “montanha-russa” de emoções, como eles mesmos relatam ao “Campeão”.

 

Mariana Dares – estudante de Direito na UC

Foi através de um teste de vocação que Mariana Dares, natural do Rio de Janeiro, Brasil, ficou inclinada a frequentar Direito. Começou a pesquisar sobre o curso e descobriu que essa é a sua paixão. Actualmente, no seu último ano da licenciatura, está completamente satisfeita com a sua decisão, não apenas com o curso de Direito, mas de o fazer na Universidade de Coimbra.

Escolher esta cidade universitária e a sua mais famosa instituição foi uma decisão tomada há três anos, quando ainda frequentava o 12.º ano.

“Eu sempre tive vontade de estudar fora. Soube que a UC estava a aceitar a nota do Enem [Exame Nacional do Ensino Médio, uma prova brasileira de acesso ao Ensino Superior] para o ingresso e eu logo vi isso como uma grande oportunidade para mim”, conta.

Mariana relembra os conselhos do seu tio, que é português, de que a universidade em Portugal para se cursar Direito não poderia ser outra se não a UC.

“Hoje eu vejo que Coimbra é a nata do pensamento jurídico português. É aqui que a jurisprudência portuguesa inteira é formada. Quando descobri isso, fiquei muito feliz com a minha decisão”.

Agora, já há três anos na cidade universitária, Mariana conta que um dos pontos negativos da decisão é a saudade da família e do conforto que tinha no Brasil. Os pontos positivos, entretanto, passam pelo processo pessoal de amadurecimento e pela qualidade do ensino que, segundo a estudante, é “óptima”.

Nesse tempo que passou no país lusitano, o grupo de brasileiros que encontrou em Coimbra, bem como as “tertúlias” proporcionadas pela própria Faculdade, foram uma grande rede de apoio, que a fizeram ter “o melhor dos dois mundos”: amizades tanto com brasileiros, para amenizar um pouco a saudade de casa, como com portugueses, que lhe apresentaram a rica cultura do país.

Embora Mariana Dares queira regressar ao Brasil por um tempo, para “enriquecer o currículo”, o objectivo a longo prazo é viver definitivamente em Portugal

 

Cassimiro Scheid – estudante de Arquitectura na UC

Mudar de país tem sempre pontos positivos e negativos. Para Cassimiro Scheid, a saudade da família é uma das desvantagens, mas, no geral, a experiência “vale a pena”.

Natural de São José dos Campos, São Paulo, Cassimiro conta que a influência de estudar em outro país veio de seus pais, já que eles também frequentaram cursos no estrangeiro. Nesse período conheceram um português, com quem criaram uma grande ligação. Anos mais tarde, em uma viagem de férias para reencontrar o amigo, trouxeram o filho para conhecer Portugal. E foi neste momento que Cassimiro teve o seu primeiro contacto com a Universidade de Coimbra.

No entanto, foi em São Paulo que iniciou o curso de Arquitectura. Insatisfeito com os estudos, resolveu experimentar outra universidade, dessa vez em terras lusitanas. “Os estudos no Brasil eram muito técnicos e eu queria algo mais artístico. Encontrei aqui em Coimbra o que buscava”, afirmou. 

Cassimiro mudou-se para Portugal em 2016 e actualmente está no mestrado de Arquitectura. Desde então, sente que já amadureceu muito como pessoa e que esta experiência o fez “sair da caixa” onde vivia.

O universitário não planeia ficar em Coimbra (embora já se considere um conimbricense e goste da cidade) depois de finalizar o mestrado, mas não descarta a ideia de permanecer em Portugal. As outras opções de destino incluem voltar para o Brasil, ou ir para a Itália.

Cassimiro Scheid veio com a certeza de que encontraria uma cultura diferente e estava aberto a isso. Brasileiros e portugueses ajudaram na adaptação

 

Sophie Ganeff – estudante de Direito na UC

Sophie Ganeff define a permanência em Coimbra e na UC como um “mix de sentimentos”. Quando mudou para a cidade universitária em 2021, a estudante natural de São Paulo, Brasil, sentiu orgulho de ingressar na Universidade e a emoção de estar num local novo. No entanto, com o tempo esses sentimentos esvaíram-se.

“Coimbra não me agrada mais. Já me diverti muito e sou extremamente grata pela cidade. Actualmente, no entanto, me incomoda ser um local pequeno e a falta do que fazer”.

Outro ponto de descontentamento é o próprio curso de Direito, que segundo Sophie utiliza métodos de aprendizagem muito antigos e “difíceis para além do necessário”. 

“Eu queria mais inovação [na licenciatura] e sinceramente acho que é até necessário. O curso de Direito parou no tempo. Nós só temos avaliação final e frequências, quase não realizamos  debates ou trabalhos”, explica.

Sophie vai regressar ao Brasil este mês para o lançamento do seu segundo livro de crónicas, chamado “As Vozes da Minha Cabeça” e, embora o objectivo seja terminar a licenciatura em Portugal, a estudante e autora quer voltar a viver em terras brasileiras.

Sophie Ganeff não está satisfeita com a vida em Coimbra, por ser uma “cidade pequena”, nem com o curso de Direito, que “parou no tempo”

Emanuelle Dellu – estudante de Línguas Modernas na UC

Mudar para Coimbra e estudar na UC não tinha sido programado por Emanuelle Dellu, natural de São José dos Campos, São Paulo. Quando concluiu o secundário, tirou um ano sabático para decidir o que estudar no Ensino Superior.

Depois de descobrir que ingressar na UC era uma possibilidade, abraçou a ideia e fez as malas. “Eu relembrava dos meus antigos professores da escola [no Brasil] a falar que grandes nomes haviam estudado em Coimbra. E então eu pensei, por que não?” conta. 

Então, iniciou a licenciatura de Línguas Modernas em 2021 e, actualmente, está muito feliz de o ter feito. “Gosto muito de Coimbra e recomendo esta experiência para todos. Tenho saudades do Brasil, mas gosto de onde estou a viver”. 

De entre os diversos encantos que a cidade possui, o clima e o facto de ser um local “relativamente pequeno” foram os responsáveis por ganhar o coração de Emanuelle. Já a Universidade conquistou pelos próprios docentes que, segundo a estudante, fazem um “óptimo trabalho”.

Emanuelle Dellu veio para Coimbra após uma decisão de “última hora”. Gostou da cidade e acabou por ficar. Hoje, não pensa em regressar ao Brasil

 

Fernanda Paçó
»» [Reportagem da edição impressa do “Campeão” de 30/3/2023]