Coimbra  22 de Maio de 2026 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Hernâni Caniço

O mundo em perigo como nunca

22 de Maio 2026

Após a perestroika (recomposição da economia) e a glasnot (transparência política) de Gorbatchov na União Soviética em 1991, que levou à sua dissolução, a novos países independentes, ao fim da guerra fria e a uma nova Ordem Mundial (com os EUA como superpotência e a China em ascensão), o mundo crédulo deu como adquirida uma época de paz, desenvolvimento e cooperação.

Em equilíbrio instável, a Rússia emergiu com novas ambições geoestratégicas (invasão da Moldávia – Transnítria, Geórgia, Chechénia, Cazaquistão e Ucrânia), a China paulatinamente afirmou-se como novo mundo tecnológico e político ao arrepio da democracia, os EUA assumiram-se como os donos do mundo, a União Europeia foi-se ampliando, periclitante e frágil como união económica e depois união política sem força militar.

Sobressaíram os EUA, esquecidos da perda da guerra no Vietnam, com a política das invasão de Estados soberanos, desde o Afeganistão (que vergonhosamente depois entregaram aos talibans fundamentalistas islâmicos), ao Iraque (inventando suposta bomba nuclear em construção, sob cumplicidade de Portugal via Durão Barroso), à Líbia (via NATO), à Venezuela e depois ao Irão (com apoio de Israel), e ameaças constantes à Gronelândia, a Cuba e o que mais virá da personagem grotesca que a História (des)qualificará.

Aliás, a atitude invasora dos EUA vem de longa “tradição”, com contínuo desrespeito pela soberania dos Estados e a independência dos povos, através de intervenções, ocupações, invasões e apoio a golpes militares, desde o século XIX, na América Latina e Caraíbas (México, Cuba, Porto Rico, Panamá, Nicarágua, R. Dominicana, Guatemala e Granada), na Ásia e Pacifico (Havai, Filipinas, Coreia, além das citadas e outras), Rússia e Líbia.

Envolvimento dos EUA

Acresce o envolvimento dos EUA em mudanças de regime pelo mundo, como as destacadas no Chile, Honduras, Haiti, Japão, Indonésia e Líbano, entre 81 intervenções (declaradas, dissimuladas ou ocultas) em eleições estrangeiras, só de 1946 a 2000. De positivo, resta apenas a intervenção dos EUA na 2ª Guerra Mundial contra Hitler e Mussolini.

Em Portugal, pós 25 de Abril, os EUA influenciaram processos eleitorais e o poder político, através da CIA, do embaixador Carlucci e de fantoches de Kissinger, com financiamento partidário, intervenção na comunicação social, apoio a movimentos nas Forças Armadas e a grupos clandestinos como o MDLP e o ELP, e apoio económico suspeito (linhas de crédito e “jumbo loan” – empréstimos fora dos limites da Federal Housing Finance Agency).

Recentemente, uma figura bizarra, burlesca e perigosa denominada Trump, seus acólitos e os interesses de exploração americanos, disparam em todas as direções, subvertendo o débil equilíbrio mundial em verborreia, rebaixolice e intervenções militares sem qualquer respeito pela vida humana (apoiando Israel em Gaza).

O mundo está em perigo como nunca, face ao potencial militar das superpotências (até inclui “drones assassinos” que o governo de Montenegro permite que circulem pelas Lages), ao comportamento de Trump (para uns será histriónico, errático e narcisista, para outros será psicótico, sociopata ou demencial), e à vulnerável União Europeia que tarda em se afirmar como força de bloqueio à tirania e como força de implantação democrática.

É preciso acreditar na voz da consciência contra as alucinações, na supremacia da inteligência sobre a perversidade, nas convicções democráticas submergindo as ditaduras, na benevolência versus a crueldade, na essência do ser humano sem barbaridade.

(*) Médico