Coimbra  1 de Maio de 2026 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Hernâni Caniço

O fascismo e a tortura

1 de Maio 2026

Após debate entre o historiador José Pacheco Pereira e o charlatão André Ventura, moderado por uma figura de corpo presente, mantém-se a ideia que não é possível argumentar civilizadamente contra um embusteiro que explora a credulidade pública através de sound bites, gesticula desbragada e teatralmente, grita como um possesso, interrompe sistematicamente o raciocínio do opositor não lhe permitindo expor uma ideia consistente, justificada e continuada, manipula fotos e frases descontextualizadas, mente descarada e despudoradamente com fácies pantomineiro.

O fascismo é uma ideologia totalitária e autoritária (onde não há liberdade, democracia e justiça social), ultranacionalista (promovendo a xenofobia, o racismo, a superioridade nacional), praticante da violência e militarista (a repressão das ideias, o culto da personalidade e da obediência cega aos seus interesses), antiliberal, antissocialista e anticomunista (proibindo partidos políticos, movimentos da sociedade civil e organizações independentes).

Em Portugal, em 28 de Maio de 1926, foi iniciada a ditadura militar de direita por Gomes da Costa, continuada por Óscar Carmona e pelo Estado Novo com Salazar e Caetano, originando a resistência antifascista protagonizada por democratas, republicanos, socialistas, comunistas e anarcossindicalistas, que se prolongou até 25 de Abril de 1974, e tendo como consequência a perseguição, a prisão, a tortura e o assassinato de antifascistas, nomeadamente pela PIDE (Humberto Delgado, José Dias Coelho, Ribeiro Santos e muitos outros) e pela GNR (Catarina Eufémia, José Adelino dos Santos, Alfredo Dias Lima e muitos outros).

A tortura

A PIDE (polícia política do regime), usava métodos de tortura física de forma sistemática e brutalidade para extrair pretensas confissões, obter informações e denúncias, ameaçar as famílias e quebrar psicologicamente os presos políticos. Entre essas práticas, havia a tortura do sono (impedindo os presos de dormir dias e semanas, com baldes de água), a tortura da estátua (obrigando os presos a permanecer de pé, imóveis, voltados para a parede ou em posições forçada, como a “posição de Cristo”, durante horas, com dores terebrantes e inflamação das articulações), os espancamentos com cassetetes (com partes metálicas, nas regiões mais dolorosas), dando socos, pontapés, bofetadas e pancadas nos testículos, o arranque de unhas e a injeção de substâncias estimulantes.

Havia ainda as torturas psicológicas, como o isolamento em celas solitárias (no Tarrafal, havia a célebre “frigideira”, que era numa pequena construção de cimento, sem janelas e com teto de betão, onde a temperatura atingia 60°C), a produção de ruídos como gritos de horror e gravações de vozes de familiares e camaradas, a proximidade de cozinha e o cheiro de comida vindo da janela quando se estava impedido de comer e preso num cubículo dentro da própria cela (também no Tarrafal), as agressões verbais e o aviltamento sexual, o testemunho de tortura a outros presos ensanguentados, as más condições de higiene, a falta de alimentação adequada e a negação de cuidados médicos.

Tudo isto para destruir a dignidade e a saúde física e mental dos antifascistas, desmobilizá-los de continuar a luta e submetê-los aos verdugos, cruelmente e sem respeito pelo ser humano.

Sérgio Godinho, alegoricamente, diria “O fascismo é uma minhoca, que se infiltra na maçã, ou vem com botas cardadas, ou com pezinhos de lã”. Lapidar.

O fascismo e a tortura foram vencidos pela razão, a democracia e a Humanidade.

(*) Médico