Coimbra  27 de Abril de 2026 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Sofia (11 anos) com Hernâni Caniço

25 de Abril sempre, fascismo nunca mais!

24 de Abril 2026

O 25 de Abril de 1974 é uma data histórica, representando o início da 3.ª República e o fim do Estado Novo em que a sua forma de regime era uma ditadura. Com a 3.ª República foram instaurados o direito à liberdade de expressão e à greve, e à saúde, habitação e segurança social, entre outros direitos humanos previstos na Constituição de 1976. O 25 de Abril consistiu num golpe militar que, sem derramamento de sangue, deitou abaixo o regime fascista de Oliveira Salazar e Marcelo Caetano. Vou entrevistar o meu avô.

Sofia – Onde estavas no 25 de Abril?

Avô – No 25 de Abril estava a viver num quarto de estudantes, na Praça de República, em Coimbra. E quando fui informado de uma revolução, embora ao princípio receasse que não era democrática, fui sentar-me nos jardins da sede da Associação Académica de Coimbra, de manhã, ato que era proibido até à data, para usufruir da liberdade. À tarde participei numa manifestação de contentamento pela queda do regime, na Baixa de Coimbra, e depois participei numa manifestação frente à sede da PIDE em Coimbra onde os militares tinham isolado os Pides, que ainda tinham lá presos políticos. À noite, estive na primeira reunião política não clandestina do grupo de estudantes em que estava integrado.

Sofia – Contribuíste, de alguma forma, para que o 25 de Abril acontecesse?

Avô – Contribui, e muito, passe a imodéstia. Em Coimbra, eu era estudante de medicina e estava organizado nos Núcleos Sindicais de Base do Movimento Estudantil de Coimbra, tendo mobilizado e participado em numerosas manifestações antifascistas, produzido e distribuído comunicados sob a forma de panfletos, e participado em reuniões e comícios proibidos pelo regime. Fui ainda membro da Comissão Pró-Reabertura da Associação Académica de Coimbra, que se encontrava fechada.

No Ribatejo, sendo oriundo de Fazendas de Almeirim participei em reuniões, na colagem de cartazes e na distribuição de panfletos da Oposição Democrática (CDE e CEUD), onde pontificavam Maria Barroso e António Reis como candidatos, por toda a província. Em Benavente, onde estudei, divulguei, distribui panfletos e colei cartazes da CEUD nas paredes da vila, tendo sido ameaçado de expulsão do colégio, quando distribuía um panfleto que dizia “A liberdade e a justiça social não se pedem, conquistam-se!”. Participei ainda no III Congresso da Oposição Democrática em Aveiro e na Nazaré criei e distribui cartazes pela igualdade de género. Durante todas estas atividades fui sujeito a várias perseguições pela PIDE e cargas policiais pela polícia de choque.

Sofia – Alguma vez foste preso pela PIDE?

Avô – Sim, no dia 22 de outubro de 1973. Em Almeirim quando participei num comício da CDE e protestei contra a guerra colonial. Fui preso à saída do Cine-Teatro onde se realizou a sessão, após denúncia de um “bufo” (informador da PIDE) tendo sido conduzido ao posto policial local, onde fui insultado (“comunista”, “revolucionário”, “agitador”, “subversivo”, “estudante de Coimbra”), revistado (encontrados panfletos CDE de Coimbra), agredido várias vezes com um cassetete (bastão). Foi solicitada pela PIDE a minha prisão para Caxias ao Governador Civil de Santarém, o que foi recusado, por ser filho de “boas famílias”. Fui julgado em tribunal sumário, e condenado a prisão, com pena suspensa durante 2 anos. Esta pena suspensa terminou antecipadamente com o 25 de Abril!

Sofia – Depois do 25 de Abril, passados quase 52 anos, esperavas mais desenvolvimento do país ou estás satisfeito?

Avô – Não estou satisfeito. Embora os partidos políticos sejam fundamentais na democracia (eram proibidos durante a ditadura), os sucessivos governos, contraditórios ou não, não têm promovido o desenvolvimento integral do país, principalmente na regionalização (igualdade entre o interior e o litoral, a capital e as províncias) e na concretização dos direitos humanos (saúde, educação, habitação e segurança social). Mas há conquistas de Abril, expressas na Constituição, como a consistência da liberdade, da democracia e do progresso, a melhoria do acesso aos direitos humanos, algum desenvolvimento industrial e rural, a integração europeia e o respeito pelo ser humano inclusivo.

Sofia- O que achas que representa o 25 de Abril para as novas gerações?

Avô – Infelizmente, é com muita pena, que vejo que depois de uma vida de luta antifascista e a de luta pela liberdade, uma parte significativa da juventude simpatizar com um partido neofascista, conservador e retrógrado. Como dizia o cantor Luís Cília, resistente antifascista, “É preciso avisar toda a gente, dar notícia, informar, prevenir”. A esperança nunca nos abandona.

Sofia – Obrigada por lutares pela nossa liberdade e por me ajudares a fazer este trabalho!

Com esta entrevista percebi que o 25 de Abril foi muito importante e que está nas nossas mãos defender e guardar aquilo que foi conquistado com tanta luta. A liberdade!

(*) Médico