No artigo anterior, defendi que o Modelo Territorial não é um simples mapa: é um projecto político para um território. Mas isso levanta uma questão decisiva: o que significa, na prática, passar de uma visão para decisões concretas?
Em Coimbra, essa passagem não é uma abstração: é uma necessidade imediata.
A chegada da alta velocidade à cidade é um bom exemplo. Não se trata apenas de uma infra-estrutura. É uma oportunidade de redefinir o posicionamento de Coimbra no contexto nacional e internacional. Mas essa oportunidade exige uma escolha clara: vamos usá-la para reforçar a centralidade de Coimbra e qualificar o território? Ou será apenas mais um factor de pressão sobre um modelo já fragmentado?
O mesmo se aplica ao reconhecimento da Universidade de Coimbra como Património Mundial. Esta distinção tem um enorme potencial de afirmação, atracção de talento e valorização económica. Mas não se realiza por si só. Será integrada numa estratégia urbana e territorial mais ampla? Ou continuará a ser vista como um elemento isolado, associado ao turismo de passagem?
Estas escolhas não são futuras. Já estão em cima da mesa.
A forma como se vier a intervir em espaços como a Rua da Sofia será, a esse respeito, reveladora. Não está em causa apenas a qualificação da rua, mas o seu papel numa estratégia mais ampla. Sem essa articulação, a intervenção melhora o espaço, mas dificilmente transforma o território.
Organização interna do concelho
Há ainda uma questão menos visível, mas igualmente decisiva: a organização interna do concelho.
Coimbra é um território policêntrico, com múltiplos núcleos urbanos, periurbanos e rurais com funções complementares. Lugares como São Martinho da Árvore, Cernache ou Eiras têm identidade e potencial. A questão é saber como se reforçam essas centralidades. Basta reduzir perímetros urbanos? Ou é necessário investir na conectividade, estruturar o território – por exemplo, através de eixos como a Via Estruturante Santa Clara/São Martinho – e concretizar esse reforço através de desenho urbano e de instrumentos como as Unidades de Execução?
É aqui que o Modelo Territorial deixa de ser uma abstração. Implementar um modelo não é aplicar um desenho: é decidir entre caminhos concretos.
Sem um quadro claro, as decisões acabam por ser tomadas caso a caso, respondendo a pressões imediatas. Nesse cenário, Coimbra continuará a transformar-se, mas não necessariamente no sentido desejado.
A questão, portanto, não é apenas ter um modelo: é saber usá-lo para orientar escolhas. E isso exige mais do que boas intenções: exige método, transparência e capacidade de decisão.
(*) Arquitecto e membro dos Cidadãos por Coimbra