Cerca de um terço das pessoas que vivem com depressão em Portugal demora mais de um ano entre o aparecimento dos primeiros sintomas e a procura de ajuda profissional. A conclusão resulta do estudo TRD Patient Voice, que procurou compreender, a partir da perspectiva dos próprios doentes, o percurso vivido por pessoas com depressão no país.
A iniciativa foi promovida pela associação Familiarmente, em parceria com a Johnson & Johnson Innovative Medicine e a MOAI Consulting, e recolheu testemunhos de 298 pessoas com diagnóstico de depressão.
Os resultados indicam que o caminho até ao diagnóstico e tratamento é frequentemente lento, pouco linear e marcado por dificuldades de acesso, factores que podem influenciar negativamente a evolução da doença e a qualidade de vida dos doentes.
De acordo com os dados do estudo, 36% dos participantes demorou mais de um ano a procurar apoio profissional após o início dos sintomas depressivos. Apenas 34% dos inquiridos afirmou ter sido fácil identificar a quem recorrer quando procurou ajuda pela primeira vez.
Segundo os responsáveis pelo projecto, este atraso poderá estar associado a barreiras no acesso aos cuidados de saúde, estigma social e dificuldades em reconhecer os sintomas como um problema de saúde mental, factores que podem contribuir para o agravamento do quadro clínico e para respostas terapêuticas menos eficazes.
Entre os participantes, 56% recebeu o diagnóstico de depressão há mais de 10 anos, enquanto 27% foi diagnosticado há menos de cinco anos. Além disso, 60% refere ter alterado a medicação antidepressiva duas ou mais vezes ao longo do percurso terapêutico. Os dados evidenciam o carácter frequentemente prolongado e recorrente da depressão, que em muitos casos apresenta períodos alternados de remissão e recaída.
O estudo aponta igualmente para níveis reduzidos de literacia em saúde mental. No momento do diagnóstico, 42% dos participantes afirmou ter baixo ou muito baixo conhecimento sobre a depressão, enquanto apenas 22% considerava possuir um nível elevado ou muito elevado de conhecimento sobre a doença. Os profissionais de saúde surgem como a principal fonte de informação para 83% dos participantes. Paralelamente, verifica-se um aumento do recurso a meios digitais: 40% referem utilizar motores de pesquisa e websites de saúde, enquanto 10% recorrem a ferramentas de inteligência artificial e 6% às redes sociais para obter informação.
A grande maioria dos inquiridos refere que a depressão tem um impacto relevante no quotidiano. Cerca de 72% afirma que a doença prejudicou a sua vida profissional ou académica, e aproximadamente 60% indica que afectou a sua situação económica.
A dimensão relacional surge igualmente como uma das mais afectadas. Cerca de 40% refere que a doença interfere nas relações com familiares e amigos, reflectindo simultaneamente o peso do isolamento social e do estigma associado à saúde mental. No contexto laboral, 29% dos participantes afirma ter ocultado o diagnóstico por receio de consequências profissionais.
Os dados recolhidos revelam ainda sinais de sofrimento psicológico significativo. 36% dos participantes reportou pensamentos de morte ou automutilação nos 14 dias anteriores ao questionário, enquanto 29% indicou já ter tentado magoar-se em algum momento da vida.
Segundo a literatura científica citada no estudo, a presença de depressão grave pode aumentar até 20 vezes o risco de suicídio, sublinhando a importância do acompanhamento clínico continuado, da monitorização do risco e da implementação de planos de segurança adequados.