Há 60 anos, como peão, fui atropelado por uma viatura automóvel ligeira, tendo ficado politraumatizado. Na ocasião, não havia passadeiras para peões e eu não tomei as devidas precauções no atravessamento da via, pelo que fui responsável e tive as consequências em saúde inerentes, com o pagamento das despesas pelo meu pai no Hospital da Misericórdia (não havia SNS, tudo era pago).
Hoje, há um número considerável de atropelamentos, muitos com graves e fatais consequências, pondo em causa vidas que são desperdiçadas, a maior parte em passadeiras devidamente identificadas, mas não só, seguidos de fuga dos condutores, que por vezes se encontram acompanhados na viatura, por familiares ou amigos, talvez conselheiros.
Nestes casos, além do desrespeito pelo código da estrada, acresce ainda o crime de abandono e omissão de auxílio agravante e demonstrativo da tipificação do condutor, em inépcia, falta de responsabilidade pessoal, uso de excesso de velocidade ou mesmo etilizado, elucidativo da desumanidade que assola condutores de automóvel, felizmente não generalizada, mas preocupante.
Psiquicamente, muitos condutores (demasiados), ao dominar o volante, sentem-se donos do mundo, com poder de decisão que ultrapassa as normas estabelecidas, livres para agir e para descarregar frustrações, enquanto na sua vida pessoal, familiar e profissional têm limites que não sendo “digeridos”, os decepcionam, irritam, encolerizam, transportando essa frustração para a estrada.
Também é verdade que, sem pôr em causa a legitimidade e o direito de livre circulação dos peões quando estão nas passadeiras a eles destinadas, muito peões “atiram-se” para as passadeiras, sem sequer olhar para a via rodoviária e eventual trânsito próximo, não tomando precauções para a própria defesa da sua integridade física, ou mesmo atravessam a via falando ao telemóvel, tecnologia sagrada que se sobrepõe a qualquer cautela e prudência.
Falta de civismo
Há dias, vindo de um jantar de confraternização em Ceira, pela 1 hora da manhã, vi passar em corrida a alta velocidade, cerca de 20 automóveis, roncando na via pública e pondo em perigo quem circulava e mesmo peões se houvesse despiste para os passeios, e não vi quaisquer autoridades a pôr cobro a esta ilegalidade, como vejo a multar por estacionamento proibido os doentes, familiares e visitas dos hospitais em Coimbra.
No quotidiano, automobilistas em trânsito ou em manobras de circulação colidem com automóveis estacionados, provocam danos na chapa, de raspão ou amolgamento, e vão-se embora “alegremente”, fugindo à responsabilidade, sem deixar identificação para suportar custos ou seguros, como vulgares criminosos que o são.
No essencial, nestas situações descritas, está em causa a falta ou a perda de civismo como conjunto de valores, comportamentos e atitudes conscientes que promovem o respeito pelas leis e instituições, mas fundamentalmente pelo bem comum e das pessoas, e que implica o exercício de cidadania e a boa relação e harmonia na vida colectiva.
Para esses vândalos, a convivência, a urbanidade e a ética são palavras vãs, que não têm correspondência na sua prática de vida e não podem transmitir aos seus descendentes.
Com estas atitudes, demonstram não entender a cidadania como um conjunto de direitos e deveres, e o civismo como prática activa e consciente desses deveres, e não contribuem para uma sociedade justa e democrática, cultivando a responsabilidade e o respeito mútuo, por mais discursos falaciosos ou gestos beneméritos que façam. Tenham vergonha!
(*) Médico