Coimbra  24 de Janeiro de 2026 | Director: Lino Vinhal

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Luís Mendes Cabral:“pressão crescente sobre sistema de saúde exige um INEM mais eficiente”

24 de Janeiro 2026 Jornal Campeão: Luís Mendes Cabral:“pressão crescente sobre sistema de saúde exige um INEM mais eficiente”

O Presidente do INEM, fala da reestruturação profunda que está em curso no Instituto e refere que a mesma assenta numa “refundação”, recentrando-o na sua missão essencial: “garantir que as chamadas são atendidas e que os meios certos chegam no tempo adequado”. Em pleno Inverno, e semanas depois de vários casos e incidentes (alguns em averiguação), onde se registaram alegadas falhas no socorro, Luís Mendes Cabral garante que nos Centros de Orientação de Doentes Urgentes (CODU), a gestão operacional dos recursos “será fortalecida, garantindo melhor visão global e maior capacidade de decisão em tempo real”.

Campeão das Províncias [CP]: Quais são as grandes mudanças que decorrem da reestruturação do INEM e que nova orgânica terá?

Luís Mendes Cabral [LMC]: A reestruturação do INEM assenta numa refundação do Instituto, recentrando-o na sua missão essencial: garantir que as chamadas são atendidas e que os meios certos chegam no tempo adequado. A nova orgânica permitirá maior flexibilidade, reforço da capacidade operacional, melhor governação clínica e modernização tecnológica, alinhando o INEM com os modelos mais avançados de emergência médica pré-hospitalar existentes na Europa.

[CP]: É urgente uma mudança profunda no INEM? Em que aspectos e porquê?

[LMC]: Sim, era urgente. Os vários relatórios independentes identificaram que o INEM se tinha afastado do seu foco operacional. Era necessário corrigir falhas no atendimento das chamadas, na triagem e nos tempos de resposta. A pressão crescente sobre o sistema de saúde exige um INEM mais eficiente, mais integrado e capaz de responder de forma diferenciada às várias tipologias de emergência.

[CP]: Ao nível das equipas de socorro, que alterações são essenciais tendo em conta as assimetrias do País?

[LMC]: É essencial garantir uma rede nacional equilibrada, com qualidade homogénea, independentemente da geografia. Cerca de 80% da actividade do INEM é suporte básico de vida, pelo que é fundamental assegurar ambulâncias bem distribuídas, com tempos de resposta rápidos, complementadas por níveis superiores de resposta – suporte imediato e meios médicos – sempre que a gravidade clínica o justifique.

[CP]: Os meios passam para as Unidades Locais de Saúde (ULS). Qual a mais-valia desta mudança?

[LMC]: A proposta vai no sentido de uma maior integração no Serviço Nacional de Saúde (SNS). A gestão dos meios pelas ULS permite melhor articulação local e optimização de recursos, mantendo o INEM a coordenação clínica, a triagem, o despacho e a definição das normas do sistema, reforçando a eficiência global da resposta.

Estruturas de comando “mais claras e profissionais”

[CP]: Haverá mudanças nas estruturas de comando?

[LMC]: Sim. O modelo evolui para estruturas de comando mais claras e profissionais, com reforço da regulação e gestão estratégica dos meios. Nos Centros de Orientação de Doentes Urgentes (CODU), a gestão operacional dos recursos será fortalecida, garantindo melhor visão global e maior capacidade de decisão em tempo real.

[CP]: Em que consiste o reforço tecnológico anunciado?

[LMC]: Um dos eixos prioritários é a modernização dos sistemas informáticos para permitir melhor monitorização dos meios, geolocalização, apoio à decisão clínica e maior fiabilidade operacional, sendo um investimento crítico para a segurança e eficiência do sistema.

[CP]: Há aposta em recursos humanos? Quantos profissionais tem o INEM?

[LMC): Os recursos humanos são centrais nesta refundação. O INEM conta actualmente com cerca de 1400 profissionais. Mais do que números absolutos, a prioridade passa por melhor organização das funções, valorização das competências e criação de carreiras sustentáveis e integradas no SNS.

[CP]: Como será feita a valorização e formação dos profissionais?

[LMC]: A formação contínua e a valorização profissional são pilares fundamentais. A aposta passa por formação alinhada com modelos internacionais, reforço das competências clínicas e operacionais e criação de percursos profissionais mais claros e atractivos, com impacto directo na qualidade do atendimento aos cidadãos.

[CP]: Qual o calendário de implementação?

[LMC]: A implementação será faseada. Algumas medidas operacionais têm efeitos imediatos, enquanto a consolidação da nova orgânica e dos sistemas tecnológicos decorrerá ao longo de 2025 e 2026, garantindo segurança, estabilidade e avaliação contínua.

[CP]: A Liga dos Bombeiros veio dizer que estes profissionais não abdicam de participar no processo de transporte de doentes e que há uma alegada dívida de 30 milhões de euros do INEM às corporações relacionada com o transporte de doentes urgentes para os hospitais em setembro, outubro e novembro de 2025. Como comenta estas afirmações? Confirma esta dívida e qual a razão de ainda não ter sido saldada?

[LMC]: Os bombeiros são parceiros fundamentais do sistema de emergência médica. Existe um acréscimo significativo de despesa, decorrente da revisão dos protocolos, que gerou uma insuficiência orçamental na ordem dos 30 milhões de euros. Trata-se de serviços prestados que têm de ser pagos, sendo necessário reforço do financiamento – o que tem vindo a ser feito – para garantir a sustentabilidade do sistema.

[CP]: Como vê hoje a confiança dos portugueses no INEM?

[LMC]: O INEM continua a ser uma referência de confiança para os portugueses. O que o País espera é um sistema que funcione, que atenda rapidamente, que responda com critérios clínicos claros e com meios adequados. É esse INEM moderno, eficiente e centrado nas pessoas que estamos a construir.

[CP]: Quais os objectivos fundamentais do seu mandato?

[LMC]: Concluir o processo de refundação do INEM, garantir tempos de resposta adequados em função da gravidade das situações, modernizar os sistemas, valorizar os profissionais e assegurar um sistema de emergência médica sustentável, integrado e preparado para os desafios futuros.

INEM atendeu em 2025 máximo histórico de chamadas de emergência

1.656.891 milhões. Este foi o número total de chamadas atendidas pelo INEM no ano passado. A maioria das chamadas recebidas referia-se a “situações de trauma (246.267), outros problemas clínicos (220.261), alterações do estado de consciência (195.318) e dispneia (158.600)”, revela o INEM em comunicado, sublinhando a “diversidade e complexidade” das ocorrências com que diariamente as equipas do CODU se defrontam.

“Em 109.521 das chamadas – o que corresponde a uma média de cerca de 300 chamadas por dia – foi verificado, após triagem, tratar-se de situações que não configuravam uma emergência médica, tendo o INEM procedido ao seu encaminhamento para a Linha SNS24”, lê-se no comunicado.

O INEM relembra, por isso, que o número de emergência – 112 – “deve ser utilizado apenas em emergências, isto é, quando exista perigo de vida iminente”.

Entrevista: Ana Clara (Jornalista do “Campeão” em Lisboa)

Publicada na edição em papel do Campeão das Províncias de quinta.feira dia 22 de Janeiro de 2026