Num dia de frio e chuva fui recebida por Tiago Mariz, actual provedor da Santa Casa da Misericórdia, no antigo seminário dos Dehonianos, em Montes Claros/Celas. Num ambiente informal e acompanhado do vice-provedor, ofereceu-me chá e bolachas para início de conversa. Imaginava um ambiente mais austero e conservador; no entanto, Tiago Mariz revelou-se alguém com sentido de humor, profundamente conhecedor da história e da obra da Santa Casa e cheio de projectos para os próximos anos. Foi sobre essas ideias que conversámos durante duas agradáveis horas.
Tiago Mariz e a Misericórdia de Coimbra
A relação de Tiago Mariz com a Santa Casa da Misericórdia estreitou-se há mais de duas décadas, quando era director adjunto do Centro Distrital de Solidariedade e Segurança Social de Coimbra. As visitas de cortesia, frequentes na altura, criaram pontes entre dirigentes. Foi nesse contexto que o então provedor da Misericórdia convidou Tiago Mariz — com quem mantinha uma relação de estima e confiança — a integrar a Irmandade. Este gesto marcou o início de um percurso que se prolonga até hoje.
A integração na Irmandade reflectiu o entendimento de que ser irmão da Misericórdia significa muito mais do que pertencer a uma associação. Significa integrar um corpo de pessoas dedicadas a ajudar os outros através das quinze obras da Misericórdia: sete espirituais, sete corporais e uma décima quinta — instituída pelo Papa Francisco — centrada no cuidado da casa comum, introduzindo formalmente a dimensão ambiental na missão da instituição.
A origem civil da Misericórdias
Apesar da forte ligação à tradição cristã, as Misericórdias têm origem civil. A sua criação remonta ao final do século XV, por iniciativa da Rainha D. Leonor e com o impulso do Rei D. Manuel. Em Coimbra, a instituição foi fundada em 1498, numa época marcada pela pobreza extrema, doenças e inexistência de estruturas públicas capazes de responder às necessidades mais básicas. O objectivo das Misericórdias era, precisamente, preencher esse vazio: acolher peregrinos, assistir doentes, enterrar vítimas das pestes e apoiar quem vivia desamparado. Tratava-se de um esforço coordenado de burgueses, mercadores, artífices e outros “homens bons” do burgo, que procuravam unir recursos para dar resposta a urgências sociais.
O Estado Social, tal como o conhecemos hoje, só emergiu no pós-guerra europeu, nos anos 50, com o reconhecimento de que o Estado devia garantir não apenas segurança e ordem pública, mas também condições de bem-estar, saúde e protecção social. Ainda assim, subsistem lacunas significativas. Por isso, instituições como as IPSS, as Mutualidades e as Misericórdias mantêm um papel na cobertura social. Curiosamente, só após o 25 de Abril as Misericórdias passaram a constar formalmente na Concordata com a Santa Sé. Até então, apesar da carga simbólica religiosa, eram entidades marcadamente civis. A integração no regime concordatário introduziu a tutela eclesiástica — através do Bispo da Diocese — mas não alterou a essência histórica da sua acção: uma prática social inspirada por valores católicos, mas de raiz comunitária e associativa.
Rede de respostas sociais tradicionais e qualificadas
Actualmente, a Misericórdia de Coimbra desenvolve um conjunto alargado de respostas sociais: uma Estrutura Residencial para Pessoas Idosas (ERPI), um centro de dia, um serviço de apoio domiciliário, a creche Margarida Brandão, um centro de acolhimento residencial para crianças e jovens retirados às famílias por decisão judicial e quatro apartamentos para autonomização de adolescentes em transição para a vida adulta. Estes jovens, a partir dos 16 ou 17 anos, permanecem sob acompanhamento até alcançarem estabilidade pessoal e profissional que lhes permita uma vida independente.
O volume e a complexidade destas respostas justificam a profissionalização da Mesa Administrativa, solução prevista na legislação de 2014 para instituições do sector social. Parte da estrutura dirigente exerce, assim, funções em dedicação exclusiva, permitindo uma gestão mais rigorosa, técnica e contínua — uma mudança significativa face ao modelo tradicional e implementada pelo actual provedor.
Consciente do seu peso histórico e da responsabilidade ética que assume no concelho, a Misericórdia de Coimbra – através do seu provedor, procura agora reforçar a sua presença e utilidade pública. Esse é o grande desafio de Tiago Mariz. O lar gerido pela Misericórdia há mais de 40 anos, com capacidade para 90 residentes, funciona na Quinta do Cedro (em São Martinho do Bispo), propriedade da Segurança Social. A gestão decorre ao abrigo de um acordo antigo, insuficiente para permitir obras de grande dimensão ou candidaturas a financiamentos públicos. Por isso, está em negociação um contrato de comodato que permitirá à Misericórdia intervir no edifício durante 80 anos e, sobretudo, candidatar-se a fundos estruturais como o PRR (programa de Recuperação e Resiliência) ou o programa PARES (Programa de Alargamento da Rede de Equipamentos Sociais).
Este processo é fundamental: o edifício necessita de remodelações profundas e, paralelamente, existe um segundo imóvel devoluto na mesma quinta — anteriormente utilizado como centro de neurologia do Hospital dos Covões — que poderá ser transformado num novo lar, criando espaço para mais 25 residentes. As plantas e os cadernos de encargos estão concluídos, aguardando apenas a abertura das linhas de financiamento.
O projecto inclui ainda a construção, de raiz, de uma nova creche na Quinta do Cedro, dotada de condições modernas, bem como a renovação do centro de dia e do serviço de apoio domiciliário, reforçando as respostas sociais clássicas que definem a actuação das Misericórdias desde a sua origem. Todos estes projectos são descritos por Tiago Mariz com enorme entusiasmo.
O antigo seminário: um novo pólo de inovação social
Em paralelo, a Misericórdia de Coimbra está a desenvolver um segundo pólo de intervenção no antigo seminário dos Dehonianos, Montes Claros/ Celas. O edifício, com cerca de 70 anos, destaca-se pela excelente qualidade construtiva e pelas vastas áreas disponíveis. Já foram remodelados dois pisos superiores, onde funciona uma residência universitária com 25 quartos, salas de reunião e gabinetes de trabalho.
Neste espaço, a instituição aposta num modelo distinto do tradicional. Não se prevêem obras pesadas, mas a criação de serviços flexíveis e ajustados a necessidades emergentes: consultórios de psicologia, nutrição, um centro de fisioterapia e apoio social. Serviços extremamente necessários e que podem servir uma população cada vez mais envelhecida. O actual provedor sublinha que uma das ideias centrais é a criação de uma incubadora social — conceito ainda raro no universo das Misericórdias — que permita acolher associações e projectos sociais que necessitem de espaço para desenvolver o seu trabalho. O edifício oferece condições únicas: salas amplas, áreas multifuncionais, espaços exteriores, pavilhão, campo de futebol e uma frente ribeirinha.
O modelo prevê a partilha de infra-estruturas — salas comuns, bar, secretariado, áreas sociais — e o desenvolvimento de projectos em parceria, fomentando sinergias entre equipas, cruzamento de experiências e inovação no terreno social. As vantagens são mútuas: associações jovens e dinâmicas beneficiam da estabilidade e dos recursos logísticos da Misericórdia, enquanto esta amplia a sua intervenção a áreas onde não estava presente, como a saúde mental, a deficiência, a intervenção comunitária ou o apoio escolar.
A dimensão ambiental, reforçada como nova obra de misericórdia, encontra aqui condições privilegiadas para se materializar. Os amplos espaços verdes do antigo seminário permitem criar hortas sociais, actividades educativas com escolas, projectos de sustentabilidade e iniciativas ao ar livre, promovendo uma ligação mais estreita entre comunidade e natureza.
Além da incubadora, o edifício acolherá um centro terapêutico e de intervenção psicossocial, sustentado na equipa já existente — duas nutricionistas, duas assistentes sociais e uma psicóloga — e preparado para crescer conforme as necessidades da comunidade. A antiga cantina do seminário permite também servir refeições, das quais uma população envelhecida poderá beneficiar. A intenção é reforçar os serviços de apoio domiciliário, a partir de uma lógica de proximidade. E, para quem preferir, os espaços do antigo seminário estão abertos e constituem um local de encontro e convivência.
Tiago Mariz realça a importância das actividades ocupacionais, sobretudo para as pessoas mais velhas, essenciais para evitar o isolamento e promover bem-estar.
No essencial, percebe-se o desejo do actual provedor de construir uma relação diferente com a comunidade — uma relação de portas abertas.
Estratégia assente na proximidade
Da visão apresentada por Tiago Mariz emerge uma Misericórdia que honra a sua história, mas que não se limita a ela. Entre a modernização das respostas sociais tradicionais e a criação de projectos inovadores ligados à saúde, ao ambiente e à intervenção comunitária, a instituição procura reinventar-se para responder a desafios contemporâneos. A articulação entre a Quinta do Cedro e o antigo seminário dos Dehonianos revela uma estratégia assente na proximidade, na colaboração e na abertura à comunidade. No fundo, trata-se de renovar uma missão secular: cuidar, integrar e servir — com humanidade, responsabilidade e visão de futuro.
Ana Rajado