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Semanário no Papel - Diário Online

 

Hélder Ribau

Um serviço público eficaz

9 de Janeiro 2026

Uma parte significativa dos atrasos no serviço público não resulta da falta de conhecimento, de meios ou sequer de enquadramento legal. Resulta de algo mais difícil de admitir: a dificuldade estrutural em assumir responsabilidade. Num sistema onde muitos intervêm, opinam e validam, mas poucos decidem, o tempo deixa de ser um recurso de gestão e passa a ser um mecanismo de protecção.

Ao longo de décadas, o serviço público foi-se organizando de forma a repartir poder por múltiplos níveis. Essa distribuição teve razões compreensíveis: reforçar o controlo, evitar arbitrariedades, garantir conformidade e segurança jurídica. O efeito colateral foi a construção de um modelo onde o poder se fragmenta e a responsabilidade se dilui.

Neste modelo, intervir é seguro. Assinar, decidir ou assumir consequências é arriscado. E quando o risco é elevado, o sistema adapta-se: acrescenta mais pareceres, mais validações, mais instâncias intermédias. Não para resolver melhor, mas para adiar a decisão. O tempo alonga-se não por incapacidade, mas por cautela excessiva transformada em rotina.

O medo da responsabilidade raramente é declarado. Manifesta-se de forma indirecta: processos que “ainda estão em análise”, decisões que “carecem de mais elementos”, respostas que “aguardam enquadramento superior”. Cada passo adicional protege quem intervém, mas afasta a resolução do momento em que ainda é útil.

O problema é que o cidadão não vive nesse labirinto interno. Para quem espera, não há cadeia decisória nem distribuição de competências. Há apenas uma expectativa simples: resposta. Quando ela não chega, ou chega tarde, o serviço público perde eficácia, mesmo que todos os procedimentos tenham sido cumpridos.

A discussão sobre tempo útil no serviço público cruza-se, inevitavelmente, com a cultura de responsabilidade. Sistemas maduros distinguem claramente quem participa de quem decide. Sabem que a participação alargada não substitui a decisão final e que a ausência de responsabilidade clara é um factor de atraso tão relevante quanto qualquer limitação técnica.

A modernização administrativa tende a focar-se em ferramentas, plataformas e fluxos digitais. Tudo isso é importante. Mas nenhuma tecnologia resolve um problema que é, antes de mais, organizacional e cultural. Se o receio de decidir se mantiver, a digitalização apenas tornará mais rápido o circuito da indecisão.

Este artigo não defende decisões precipitadas nem a eliminação de controlos necessários. Defende algo mais exigente: clareza. Clareza sobre quem decide, em que momento e com que responsabilidade. Porque só assim o tempo deixa de ser um refúgio e passa a ser um compromisso.

Um serviço público eficaz não é aquele onde todos intervêm. É aquele onde alguém responde. E enquanto responder continuar a ser percecionado como mais arriscado do que adiar, o tempo útil continuará a escapar – não por falta de capacidade, mas por falta de coragem institucional.

(*) Economista