Coimbra  23 de Janeiro de 2026 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

João Ferreira

Onde o tempo nos observa

9 de Janeiro 2026

O fim de um ano não é apenas uma transição cronológica, mas sim um espaço suspenso, quase silencioso, onde o tempo abranda o passo e nos devolve o olhar… Um raro instante em que somos chamados a perguntar não apenas o que aconteceu, mas o que fizemos de nós próprios enquanto as coisas aconteciam… Não se trata de um inventário de acontecimentos, mas sim de um exame de presença: quanta atenção estivemos realmente dispostos a oferecer ao que vivemos…

O ano que se fechou revelou um mundo mais cansado, mais exposto, menos protegido pelas ilusões do progresso contínuo. A fragilidade deixou de ser excepção para se tornar uma condição visível. A perda, a violência e a incerteza atravessaram o quotidiano como um ruído persistente, repetido até quase deixar de interromper. Talvez o mais inquietante não seja a gravidade do que aconteceu, mas a rapidez com que nos habituámos a viver com isso, como se a normalização fosse uma forma discreta de sobrevivência… Muito complexo…a guerra é mordaz.

Vivemos uma aceleração sem precedentes do conhecimento e da técnica. Criámos instrumentos capazes de ampliar o pensamento, mas também de o fragmentar… Nunca foi tão fácil produzir, comunicar, responder… Nunca foi tão difícil sustentar atenção, silêncio e profundidade… Avançámos muito na capacidade de fazer, mas menos na capacidade de compreender o sentido do que fazemos! A pergunta “para quê?” tornou-se mais rara do que a pergunta “como?” e, este desequilíbrio, tem consequências invisíveis, mas duradouras.

O próprio tempo parece ter mudado de textura! Tudo se acumula depressa, tudo se consome antes de amadurecer. As experiências sucedem-se sem sedimentar, as palavras multiplicam-se sem criar significado duradouro. Falta intervalo… Falta lentidão… Falta o espaço interior onde o vivido se transforma em compreensão… E isto não por falha individual, mas por uma saturação contínua, por excesso de estímulo, por ausência de pausa… Ainda assim, no meio deste excesso, persistiram sinais discretos de lucidez! Pequenos gestos de cuidado, silenciosas escolhas de atenção, tentativas de preservar vínculos num mundo cada vez mais fragmentado.

Houve quem escolhesse escutar em vez de reagir, permanecer em vez de acelerar, cuidar em vez de optimizar ao detalhe. Não como uma virtude que se exibe, mas como uma fidelidade ao que ainda resiste ao desgaste…

Este foi, acima de tudo, um ano de aprendizagem silenciosa… Aprendemos que reagir não é o mesmo que compreender! Que acumular informação não equivale a produzir sabedoria! Que sem tempo interior, nenhuma resposta é verdadeiramente humana! Aprendemos também que ignorar limites, do corpo, da mente, da própria realidade, cobra sempre um preço, mesmo quando não surge de imediato…

Este novo ano não pede promessas grandiosas nem expectativas inflacionadas. Pede atenção! Pede discernimento! Pede a rara coragem de escolher menos para viver melhor… Talvez o verdadeiro desafio seja reaprender a pensar antes de repetir, a sentir antes de classificar, a escolher antes de ceder ao automatismo confortável!

Fechar um ano é um exercício de consciência… Abrir outro é um gesto de responsabilidade íntima… O amanhã não surge como um acontecimento externo: o futuro forma-se lentamente, na qualidade da atenção que damos ao presente! E talvez seja isto que o tempo, ao fim de cada ciclo, nos tenta dizer… que não nos falta direção, mas profundidade; que não nos falta movimento, mas sentido; que não nos falta tempo, mas a coragem de o habitar plenamente. Que 2026 traga saúde e paz, ao mundo, à humanidade!

(*) Doutorando na FMUC