Coimbra  23 de Janeiro de 2026 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Adelino Gonçalves

COIMBRA: CIDADE REGIÃO (I): A cidade que já não cabe dentro do concelho

9 de Janeiro 2026

A ideia de “cidade” como entidade urbana delimitada está profundamente enraizada na nossa cultura. Mesmo depois de as muralhas terem deixado de conter o crescimento das cidades, continuámos a pensá-las como realidades com limites nítidos: um núcleo central, bairros contíguos e aldeias em redor dentro de uma fronteira administrativa clara. Esta imagem, herdada de um tempo em que as cidades eram realidades finitas, continua a estruturar o discurso político. Porém, há muito que não corresponde ao território onde a vida realmente acontece.

Coimbra é um destes casos.

Hoje, Coimbra é uma cidade-região: uma realidade urbana feita de deslocações constantes entre vários municípios. Todos os dias, milhares de pessoas entram e saem de Coimbra para trabalhar, estudar, tratar da saúde, fazer compras, resolver burocracias ou participar noutras atividades económicas e sociais. Vêm de Cantanhede, Montemor-o-Velho, Lousã, Soure, Mealhada, Penacova, Condeixa e de muitos outros lugares. Para esses mesmos concelhos e outros saem também diariamente de Coimbra milhares de pessoas. Portanto, o quotidiano dissolve fronteiras que existem apenas nos mapas administrativos.

É justo reconhecer o trabalho da Comunidade Intermunicipal da Região de Coimbra para reforçar a cooperação intermunicipal, em particular na organização do sistema de transportes públicos, com a criação do SIT-RC, que já introduz maior coerência territorial e melhora a mobilidade de milhares de pessoas. Registam-se igualmente avanços com a Metro Mondego e com a intenção de aprofundar a integração tarifária e operacional. Ainda assim, estes progressos não anulam o problema de fundo: a vida urbana funciona hoje numa escala maior do que a escala institucional e administrativa.

Basta olhar para situações simples. Há quem viva em Penela e seja seguido no CHUC. Quem trabalhe em Coimbra e deixe os filhos numa escola na Lousã. Quem estude na Universidade, mas só consiga pagar renda em Condeixa, Soure ou mais longe. Para quem não tem automóvel, combinar autocarros e comboios continua a significar perda de tempo e de oportunidades. Por isso, horários, bilhetes e interfaces não são “detalhes técnicos”: são a diferença entre ter ou não acesso a emprego, saúde e ensino.

Pois bem, é aqui que surge o paradoxo que atravessa esta sequência de textos: Coimbra é uma cidade-região, mas continua a ser governada como se fosse apenas um concelho entre outros. Quando a escala da governação não coincide com a escala do território vivido, surgem custos, desigualdades e ineficiências, e a qualidade de vida fica aquém do que poderia ser.

Reconhecer Coimbra como cidade-região não é apagar concelhos nem diluir identidades. É aceitar uma evidência e criar condições para enfrentar problemas que só se resolvem em conjunto: mobilidade, ordenamento, habitação, eficiência dos serviços públicos e resposta às alterações climáticas.

Nos próximos textos discutirei duas questões decisivas: os custos de ignorar esta realidade (II) e o que fazer para governar à escala certa (III). Mas o primeiro passo é mesmo ver o território como ele é, pois há muito que Coimbra não cabe dentro do concelho.

(*) Arquitecto