Quando cada ano se inicia, por todo o mundo se entoam loas, formulando-se com fervor expressões de alegria e superação, provas de afecto e amor correspondido, votos da palavra mais usada e mais vilipendiada no planeta (a paz), rituais de saúde e bem-estar, desejos de riqueza e abundância, sofreguidão pela vida e mais qualidade de vida.
As pessoas querem o bem (dos seus, para os seus e talvez mais), as instituições e associações promovem os seus fins eméritos (por vezes divagando pela tergiversação ou ilicitude), os governos anunciam vida celestial (embora comecem com aumentos de custo de vida do ano em curso), os senhores da guerra parecem um pãozinho sem sal e farinha qb (perorando, enganando, matando).
O que há de novo no Ano Novo? A esperança renovada que não deixa afundar, a virtude prometida que faz tranquilizar, as ilusões em que queremos acreditar, a solidariedade que será mais forte que as algemas, a perfídia que se deixará esmagar, os interesses que não serão conflituantes, adeus tristeza até depois.
E enquanto meio mundo percorre os caminhos da confiança e do optimismo quiçá irreal, outro meio mundo sofre as agruras da angústia e da doença, desespera por melhores dias que nunca virão, resigna-se ao calvário e à provação, sente a agonia do seu mundo a desabar, observa que entre mortos e feridos, poucos hão-de escapar.
Modere-se a visão catastrofista do mundo em convulsão e dos instintos primários de poder, domínio e autoridade, pois a ciência (mesmo atacada no País da ciência…) evolui, graças a pessoas que dedicam a sua vida e os seus neurónios a estudar inovação, a aplicar fórmulas, a criar vida, a salvar mesmo aqueles que se dedicam a denegrir, a prejudicar, a destruir, a matar.
O Ano Novo será um Ano Bom, como euforicamente proclamamos à meia-noite sem uma guitarra, ou será mais um Ano Novo que nada trará de novo, que será novo na aparência dos seus primeiros momentos, e manterá pecados, pecadilhos, páreo, ganância, rancor e outros sentimentos sem pudor?
Far-West à Venezuela
O que muda, quem muda, quem quer mudar, como se muda? Em Portugal, em eleições presidenciais, a esquerda radical suicida-se depois de isolar a esquerda democrática, a extrema-direita acossa a direita democrática, o 25 de Abril está na rua um dia por ano, a memória da luta e conquistas esvai-se, a geração da liberdade desaparece, o povo vota à direita, desiludido com a esquerda e iludido pelos novos Salazar, Hitler, Mussolini, Trump…
A Rússia invade a Ucrânia e é premiada por um desbocado dono do mundo com poucos neurónios e que leva o Far-West à Venezuela, a população de Gaza é sujeita a morticínio e sobrevive miseravelmente em condições desumanas, a Europa aposta em armas e desinveste na área social, as guerras esquecidas em África deixam esquecer as vítimas, acirram-se novos conflitos na Ásia, valorizam-se as terras raras e o petróleo e desvaloriza-se a desigualdade de direitos humanos, cada vez há mais prisioneiros da consciência, principalmente mulheres.
Para que o Ano Novo seja Ano Bom, é preciso haver harmonia e reconciliação, propugnar por humanismo, generosidade e abnegação, contrapor ao discurso de ódio a empatia, centralizar a dignidade humana e a razão como pensamento crítico e capacidade humana, para o bem, a prosperidade e a felicidade.
“É preciso acreditar, que o sorriso de quem passa, é um bem para se guardar”, segundo Luiz Goes. Mas ainda é preciso acreditar, diz o mesmo autor, “que há sempre terra que colha, um ribeiro a despertar, para um pão por despertar”.
(*) Médico