O coordenador nacional do Bloco de Esquerda (BE), José Manuel Pureza, afirmou que a acção norte-americana contra a Venezuela abre um precedente, acusando o Governo português de ser complacente “com uma violação grave do Direito Internacional”, pelo não posicionamento.
A acção dos Estados Unidos deixa o Direito Internacional “completamente espezinhado e isso é mau em si mesmo, porque, não havendo regras, hoje é a Venezuela, amanhã será outro qualquer país”, afirmou hoje o coordenador bloquista, em Coimbra.
“Não está em causa aquilo que cada um pense sobre o desempenho do respectivo governo. Está em causa um ataque, um ataque militar, contra um país soberano e, portanto, isso é gravíssimo à luz de tudo quanto são regras básicas de convivência entre os países”, asseverou.
Em declarações aos jornalistas, o líder bloquista lançou ainda críticas ao Governo português por não ter condenado, até o momento em que discursava, a ofensiva militar, afirmando que o não posicionamento de Portugal “é uma complacência com uma violação grave do Direito Internacional que não se compreende”.
“Portugal, ou o Governo português neste caso, tem uma atitude que é, do meu ponto de vista, inqualificável. É uma completa falta de coerência com tudo aquilo que sucessivos governos foram fazendo, completa falta de coerência com aquilo que este próprio Governo já fez, porque, bem nos lembramos, acusou a Federação Russa de violar grosseiramente o Direito Internacional na invasão da Ucrânia”, disse. “E fez bem, é verdade, mas desta vez mantém-se mudo e quedo perante esta situação”, criticou.
Na óptica do líder bloquista, “tudo isto pertence ao domínio da obscenidade política e por isso este dia é um marco extraordinariamente negativo no arranque deste ano”.
O Governo português declarou hoje como prioritária a segurança dos portugueses na Venezuela e apelou à redução das tensões e ao respeito pelo Direito Internacional, após ataques dos Estados Unidos e a captura do Presidente Nicolás Maduro.
“A prioridade do Governo é, e continuará a ser, a segurança da comunidade portuguesa na Venezuela”, afirmou, em comunicado, o Ministério dos Negócios Estrangeiros. Portugal, acrescentou, “apela à redução das tensões, ao respeito pelo Direito Internacional e pela Carta das Nações Unidas, bem como à promoção da segurança e da tranquilidade públicas”.
José Manuel Pureza apontou que outro motivo de “enorme gravidade” foi a afirmação do Presidente norte-americano numa conferência na tarde de hoje de que serão os Estados Unidos a administrar a Venezuela.
“Com a desfaçatez própria dos imperadores, Donald Trump veio dizer ao mundo com toda a tranquilidade, com toda a arrogância, que os Estados Unidos vão ficar a administrar a Venezuela […] e que vão apropriar-se dos recursos naturais, designadamente do petróleo”, disse.
Para Pureza, “Donald Trump nunca escondeu aquilo a que vinha: justamente à apropriação dos recursos naturais, em petróleo, em gás natural, em recursos de interesse estratégico”, vincou.
Os Estados Unidos lançaram hoje “um ataque em grande escala contra a Venezuela”, para capturar e julgar o líder venezuelano, Nicolás Maduro, e a mulher, e anunciaram que vão governar o país até se concluir uma transição de poder.
O anúncio foi feito pelo presidente norte-americano, Donald Trump, horas depois do ataque contra Caracas, não sendo ainda claro quem vai dirigir o país após a queda de Maduro, e admitiu uma segunda ofensiva contra o país se for necessário.
O Governo venezuelano denunciou a “gravíssima agressão militar” dos Estados Unidos e decretou o estado de excepção.