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Maria Paixão: o novo ciclo do Bloco de Esquerda em Coimbra

7 de Dezembro 2025 Jornal Campeão: Maria Paixão: o novo ciclo do Bloco de Esquerda em Coimbra

Com a serenidade de quem pensa antes de falar e a convicção de quem acredita no que faz, Maria Paixão sentou-se nos estúdios da Rádio Regional do Centro para discutir o novo ciclo do Bloco de Esquerda. Entre a herança de José Manuel Pureza e os desafios de representar Coimbra, emergiu a defesa de uma política com pensamento, coragem e esperança. Eleita para a Assembleia Municipal de Coimbra nas autárquicas de Outubro, Maria Paixão concilia a intervenção cívica com uma sólida carreira académica: é licenciada e mestre em Direito, pós-graduada em Direito do Ordenamento, Urbanismo e Ambiente, e exerce funções como Assistente Convidada na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, onde frequenta também o doutoramento em Direito Público, investigando as obrigações climáticas do Estado e o Estado de Direito Ecológico.

 

Campeão das Províncias [CP]: É uma responsabilidade pesada ser, neste momento, a voz mais audível do Bloco de Esquerda em Coimbra, num órgão da administração local. Como é que sente esse papel?

Maria Paixão [MP]: Seria sempre uma responsabilidade, claro. Mas, neste momento, assume um peso particular. Ainda assim, parece-me que estes tempos nos obrigam a assumir as responsabilidades que temos de assumir. Não senti que estivesse numa posição de recuar.

 

[CP]: Estamos perante um novo ciclo no Bloco de Esquerda ou apenas a continuidade do anterior?
[MP]:
Parece-me evidente que é um novo ciclo e o Bloco precisava disso. Não apenas pela transição interna, mas porque todos nós, da base à direcção, precisamos de pensar como construir um partido que se adapte aos tempos e que esteja preparado para os combates que são necessários.

[CP]: O Bloco começou como um partido jovem e muito mobilizador. O que é que fizeram — ou não fizeram — para permitir que caísse tanto?

[MP]: Uma parte explica-se também pelo espírito do nosso tempo. E a Mariana Mortágua foi alvo de uma campanha muito intensa, que a desgastou profundamente e que acabou por desgastar o partido. Uma Mariana menos combativa não seria a Mariana. E não me parece que o papel do Bloco ou dela fosse diminuir a combatividade para agradar a quem quer que fosse. Os tempos não foram favoráveis, mas ela fez o que tinha de ser feito e fê-lo bem.
Mesmo a questão da flotilha, que levantou tanta controvérsia, não deixa de ser curiosa. O Bloco sempre esteve ao lado do povo palestiniano. Quando se perguntava “porque não vão para lá?”, quando a Mariana foi, a crítica surgiu outra vez: “agora vai”. Não havia como ganhar. E eu, pessoalmente, senti-me representada naquele momento em que tentou entregar ajuda humanitária.

 

[CP]: Mas um partido político não pode viver apenas de ideias — ou, pelo menos, não é isso que define um partido que se propõe a governar. O Bloco já esteve no poder e depois foi descendo, quase como se se contentasse em ser um grupo de pensadores unidos por uma visão do mundo, abdicando do poder. Isso não é redutor?

[MP]: Claro que seria sempre redutor. A luta política não pode existir apenas no plano das ideias.

 

[CP]: Já percebemos que vem fazendo o seu próprio caminho no plano do pensamento político. Mas o José Manuel Pureza teve aqui um papel importante. O que é que representa para si?

[MP]: Foi e é alguém que me ensinou muito. Tem uma enorme capacidade de ver e acreditar no potencial das pessoas, e isso fez a diferença no meu caso. Acreditou que eu era capaz de estar num órgão representativo e de assumir a voz do Bloco. Já era militante, mas foi também graças a essa confiança que me envolvi mais.

[CP]: O que leva um jovem de 17, 18, 20 anos a escolher um caminho político, sobretudo num partido que não tem, realisticamente, perspectivas de ser maioritário?

[MP]: Acho que é mesmo a paixão pelas ideias. O Bloco distingue-se por ter um projecto de sociedade claro, coerente, e isso é muito apelativo para quem sente que falta, noutros partidos, uma visão de futuro mais profunda.

 

[CP]: Mas que projecto é esse, se não há perspectivas de o pôr em prática em larga escala? Defender apenas em teoria não é curto?

[MP]: O progresso constrói-se precisamente através do confronto de ideias. Se tivermos apenas os partidos do centro, que têm visões muito semelhantes sobre a organização social, não há verdadeira disputa. Partidos com uma visão radicalmente diferente são essenciais para abrir caminhos e fazer avançar debates que de outro modo não existiriam.

 

[CP]: Portanto, acredita que os partidos de esquerda mais pequenos ajudam a desenhar o futuro, mesmo não sendo maioritários?

[MP]: Acredito que criam espaços de discussão que, sem eles, não se abririam. E é a partir desses espaços que se constroem mudanças maiores.

 

[CP]: Acredita mesmo que o Bloco entra num novo ciclo com José Manuel Pureza?

[MP]: Sim, acredito. Não apenas porque o José Manuel é agora coordenador, mas porque toda a estrutura do Bloco está a procurar reinventar-se e perceber como mobilizar mais pessoas.

 

[CP]: O Bloco teve figuras intelectualmente brilhantes. Teve bons resultados no início, mas depois desceu sucessivamente. Se, nas próximas eleições, o resultado for quase zero, onde fica o vosso palco?

[MP]: Temos de continuar a pensar o combate político para além disso. Claro que os lugares de poder são importantes — dão palco. Mas também precisamos de estar junto das pessoas, sobretudo das que têm vidas muito difíceis e que podiam ser muito melhores. Os próximos tempos serão de combate de base: nas ruas, nos sindicatos, nas lutas laborais, como agora, com o pacote laboral e a greve geral. A reconstrução do Bloco também passa por aí.

 

[CP]: Mas esse espaço de protesto está bastante ocupado pelo Partido Comunista. É o terreno tradicional deles e não o vão largar. E não olham com grande simpatia para vocês…

[MP]: Sim, sabemos disso. Mas não deixa de haver espaço para todos os que lutam por uma sociedade mais justa.

 

[CP]: Vai ter intervenção activa na Assembleia Municipal?

[MP]: Sim, claro. Os órgãos locais são um espaço fundamental para fazer política, justamente por estarmos mais próximos das pessoas. A Assembleia Municipal é um lugar para debater, propor e construir.

 

[CP]: Coimbra pode contar consigo?

[MP]: Sem dúvida. E, além disso, faço parte da Concelhia. Queremos usar o espaço na Assembleia Municipal para criar enraizamento local e para debater e trabalhar as propostas que levámos ao programa.

 

[CP]: O Congresso: como é que correu?

[MP]: Correu bem. É o espaço certo para debater internamente e pensar o futuro do partido.

 

[CP]: Vocês questionam mesmo isso? Continuamos? Voltamos a crescer? Ou vamos apenas “estando”?

[MP]: Esse é, neste momento, o grande debate interno. O Bloco precisa de construir o seu próprio caminho. E isso faz-se democratizando o partido, repensando-o a partir das bases e definindo o lugar que queremos ocupar na sociedade portuguesa.

 

[CP]: Coimbra perdeu protagonismo político, concorda?

[MP]: Concordo. E quanto a Coimbra, há algo que defendo muito: a cidade perdeu uma característica que lhe era essencial: ser um espaço de debate e de abertura intelectual. E precisamos mesmo de voltar a abrir a cidade. Foi também por isso que o Bloco quis ter uma candidatura autónoma nas autárquicas: para voltar a trazer debate. Porque estávamos num marasmo, numa política de mera gestão do quotidiano. Ao termos uma candidatura autónoma, quisemos abrir o espaço para falar de novas questões, de transportes, de habitação, de saúde, de modo diferente.

 

[CP]: A política compatibiliza-se mal com a vida familiar?

[MP]: Tem de haver ajustes, claro, mas faz-se. E, se não for compatível, nunca vamos conseguir trazer mais gente para a política, especialmente mulheres. É preciso que haja condições mínimas.

 

[CP]: Mas Coimbra tem potencial para muito mais, não tem?

[MP]: Muito mais. Todos os anos chegam estudantes de todo o país e do estrangeiro, gente jovem, cheia de ideias. E a cidade não os aproveita. Não podemos falar de mobilidade e deixar os pólos universitários de fora. O Metrobus ignorou completamente isso. Se tivesse havido participação activa dos estudantes, provavelmente teríamos um traçado diferente.

 

Lino Vinhal/Joana Alvim