A 25 de julho de 2020, o actor Bruno Candé foi assassinado a tiro no meio da rua, em Moscavide. O crime, cometido por Evaristo Marinho, um vizinho de 76 anos e ex-combatente da guerra colonial em Angola, chocou o país e trouxe à superfície velhos fantasmas: o racismo estrutural, a herança traumática da guerra colonial e a incapacidade colectiva de encarar o passado. Foi a partir deste episódio brutal — e de tudo o que ele simboliza — que o realizador conimbricense António Ferreira encontrou o impulso para criar A Memória do Cheiro das Coisas, filme que chegou às salas no início de novembro e que rapidamente se afirmou como uma das obras cinematográficas portuguesas do ano.
António Ferreira não procurou fazer uma reconstituição do caso, mas antes mergulhar no universo emocional que ele expôs: os preconceitos que atravessam gerações e o peso da memória colonial num país que ainda não se reconciliou com o passado. Foram 13 anos de guerra. O resultado é um filme duro, mas guiado por uma sensibilidade rara e uma elegância narrativa invulgar.
Arménio, pelo extraordinário José Martins
O protagonista é Arménio, interpretado pelo extraordinário José Martins. Antigo combatente da guerra colonial, agora velho, frágil e dependente, Arménio é empurrado para um lar de idosos, onde terá de se confrontar não apenas com a sua deterioração física, mas também com memórias que a idade já não consegue esconder. José Martins expõe-se de forma comovente: há momentos em que o actor nos repugna com a sua personagem, e outros em que o seu humor nos desarma. É a síntese do país que o filme retrata — duro, por vezes hostil, mas ainda capaz de recuperar a humanidade quando alguém insiste em vê-la.
Hermínia e a redenção colectiva
Hermínia, interpretada por Mina Andala, auxiliar de origem africana torna-se o espelho moral do filme. A relação entre Arménio e a empregada do lar começa fria, quase agressiva, marcada por desconfiança, orgulho e, sobretudo, pelo peso das narrativas históricas que cada um carrega no corpo. Mas o filme vai construindo, com grande inteligência narrativa, um caminho de aproximação que nunca é fácil, nem linear. Não há gestos mágicos de redenção, mas sim pequenas quebras de resistência, olhares que se demoram um segundo a mais, silêncios que substituem o choque inicial. É neste processo que o filme alcança uma das suas maiores virtudes: mostrar como a empatia pode nascer, mesmo em terreno hostil, quando duas pessoas se reconhecem como seres humanos completos.
O envelhecimento na sociedade contemporânea
Ao mesmo tempo, António Ferreira expõe outro tema sensível, raramente tratado com tanta delicadeza e profundidade no cinema português: o envelhecimento na sociedade contemporânea. O corpo que falha, a mente ainda lúcida aprisionada em rotinas infantilizantes, a invisibilidade social que recai sobre quem já não produz. O filme desmonta o modo como tratamos os mais velhos, como se o facto de deixarem de ser úteis os tornasse invisíveis. Não há paternalismo nesta abordagem; há, sim, uma indignação que sensibiliza.
Um filme feito em Coimbra
Feito com poucos recursos, com um elenco e uma equipa técnica maioritariamente de Coimbra, A Memória do Cheiro das Coisas consegue destacar-se em relação a muitas produções de maior escala. A fotografia é marcada por momentos de grande beleza e a banda sonora composta por Luís Pedro Madeira embala as cenas mais densas.
António Ferreira mostra que não é o orçamento que faz um bom filme — é a clareza do olhar quando se sabe o que dizer.
A recepção internacional rapidamente confirmou o alcance da obra. No Shanghai International Film Festival de 2025, José Martins foi distinguido com o Prémio de Melhor Actor. Já no Tangier Film Festival, o filme recebeu uma Menção Honrosa para Melhor Argumento.
O cinema como espaço de sublimação
No fundo, A Memória do Cheiro das Coisas é um filme que dialoga com um país que ainda não resolveu o trauma da guerra colonial, que continua a tropeçar no racismo quotidiano e que insiste em colocar os velhos à margem. Mas é também um filme que acredita na possibilidade de cura — uma cura que começa por reconhecer o outro e enfrentar os cheiros que persistem na memória.
António Ferreira não quis apenas contar uma história; quis abrir uma ferida para que ela pudesse finalmente cicatrizar. E fê-lo com a maturidade artística de quem compreende que o cinema é um espaço de sublimação, que não serve apenas para entreter, mas para criar pensamento reflexão e transformação.
Ana Rajado