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Refood Coimbra completa 10 anos a unir voluntários e combater a fome  

5 de Dezembro 2025 Jornal Campeão: Refood Coimbra completa 10 anos a unir voluntários e combater a fome   

Mais de 59 milhões de toneladas de alimentos são desperdiçadas anualmente. O movimento Refood 4 Good combate esse desperdício e dia 6 de Dezembro comemora com uma gala 10 anos da sua actividade em Coimbra.

 

Num mundo profundamente marcado por desigualdades, as assimetrias entre continentes, países e até regiões tornam-se cada vez mais evidentes. A globalização, acompanhada por tecnologias avançadas e redes de comunicação cada vez mais eficazes, permite o acesso fácil a bens produzidos nos quatro cantos do planeta. Nunca se produziu tanto, nem nunca os produtos circularam com tanta rapidez. É possível consumir um kiwi vindo da Nova Zelândia, uma laranja da África do Sul ou uns ténis montados no Vietname sem que o consumidor sequer pense no percurso ou no impacto dessa cadeia.

A abundância aparente trouxe consigo uma cultura de descarte. A regra é consumir — consumir sempre, mesmo quando a necessidade real não o justifica e quando a qualidade dos produtos deixa muito a desejar. Quem tem maior poder de compra tende a investir em produtos mais duradouros, enquanto as famílias com menos recursos acabam empurradas para bens mais baratos, mais frágeis e que, por isso, exigem reposição constante. A desigualdade reflete-se até na forma como cada um utiliza os recursos disponíveis.

Os contrastes são visíveis: um habitante de uma aldeia remota do Serengeti não consome o mesmo que um cidadão de Nova Iorque; da mesma forma, dentro de uma mesma cidade, um sem-abrigo não tem o mesmo padrão de consumo que um CEO de uma multinacional. É por isso necessário cautela nos discursos que, de forma indiscriminada, atribuem aos cidadãos a culpa pelo desperdício e pelos problemas ambientais. A responsabilidade não é igual para todos, nem todos contribuem da mesma forma para a pressão sobre os recursos naturais.

O problema não se limita ao que é consumido mas também — e sobretudo — ao que é produzido em excesso. Numa economia orientada para o lucro e para a acumulação, os excedentes são inevitáveis. A quantidade de roupa que diariamente chega aos aterros, o plástico que invade os oceanos, os carros substituídos por modelos mais recentes ou os telemóveis abandonados porque a câmara deixou de ser “a mais actual” são exemplos de um sistema que normaliza o desperdício. Mas há uma área onde este fenómeno assume contornos particularmente perturbadores: o desperdício alimentar.

Num planeta onde a produção agrícola é suficiente para alimentar toda a população, continua a haver milhões de pessoas que passam fome ou vivem com carências nutricionais graves. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), cerca de um terço de todos os alimentos produzidos é perdido ou desperdiçado ao longo da cadeia de abastecimento. Na União Europeia, o cenário não é menos alarmante: mais de 59 milhões de toneladas de alimentos são desperdiçadas anualmente — o equivalente a 132 quilos por pessoa. Mais de metade desse desperdício ocorre nos agregados familiares. E, segundo o Conselho Europeu, o desperdício alimentar é responsável por 16% das emissões de gases com efeito de estufa associadas ao sistema alimentar europeu.

Ao mesmo tempo, cerca de 33 milhões de pessoas na UE não têm meios para garantir uma refeição nutritiva de dois em dois dias. A contradição é evidente e revela um problema estrutural cuja solução está longe de ser simples. Ainda assim, cresce o número de cidadãos e organizações que, dentro das suas possibilidades, tentam contrariar esta tendência.

Em Portugal, uma das respostas mais visíveis e mobilizadoras é o movimento Refood 4 Good, associação sem fins lucrativos e com estatuto de IPSS. Presente em mais de 60 núcleos distribuídos por 30 cidades portuguesas — e também em Madrid e Milão —, a Refood combate o desperdício alimentar ao mesmo tempo que apoia pessoas em situação de vulnerabilidade. A iniciativa assenta num modelo simples e eficaz: recolher alimentos em perfeitas condições de consumo, que de outra forma seriam descartados, e redistribuí-los por quem mais precisa.

Todas as tardes, dezenas de voluntários partem para padarias, restaurantes, cafés, pastelarias e outras entidades parceiras para recolher pão, bolos, refeições prontas, salgados e outros produtos alimentares. São alimentos que não podem ser vendidos no dia seguinte por questões de segurança alimentar, mas que continuam perfeitamente aptos para consumo. A seguir, essa mesma rede de voluntários organiza, embala e distribui o que recolheu por instituições e famílias sinalizadas. Para muitos, participar neste processo significa muito mais do que doar tempo: é sentir que se está a combater, simultaneamente, o desperdício e a fome — duas faces de um problema global.

Este ano, a Refood Coimbra assinala uma década de actividade. Para celebrar o trabalho realizado, o núcleo organiza a Gala 10 Anos Refood, a realizar-se no dia 6 de Dezembro, às 19h00, na Sala D. Afonso Henriques do Convento São Francisco. A iniciativa pretende envolver toda a comunidade e dar visibilidade ao impacto que o projecto tem tido na cidade.

A noite incluirá um jantar e vários momentos culturais, com música, dança e poesia, num ambiente pensado para homenagear voluntários, parceiros e todos os que têm contribuído para sustentar esta rede solidária. Estará presente o fundador do movimento, Hunter Halder, acompanhado pela actual direcção da Refood 4 Good. A apresentação ficará a cargo dos humoristas Afonso Paiva e Leonor Feio.

O programa artístico contará com a participação do Combo Jazz (CpJazz EACMC), do Coimbra Gospel Choir, dos bailarinos da CODANÇA – Associação Cultural, do grupo declAMAR POESIA, e ainda de Cláudio Dias, Sara Travassos, Tiago Cordeiro, Rafael Silva, Cristina Branco, Luís Figueiredo e Pedro Gonçalves — um conjunto diversificado de artistas que se juntam à causa.

A Gala conta com o apoio da Câmara Municipal de Coimbra, do Convento São Francisco, da Sabor & Arte, da Escola de Turismo e Hotelaria de Coimbra, da Alves Bandeira, do Grupo Vila Galé, da Critical Software e da Blue House, entidades que têm reforçado a importância de unir esforços para transformar excedentes em soluções e desperdício em esperança.

Num país e num mundo onde a desigualdade persiste, iniciativas como a Refood lembram que a mudança é possível quando as comunidades se mobilizam. E que o combate ao desperdício alimentar não é apenas uma questão ambiental ou económica — é, acima de tudo, uma questão humana.

Ana Rajado