Todos os anos a Grand-Place de Bruxelas se engalana para o Natal. A tradicional árvore ocupa o centro da praça, há um grandioso espectáculo de luzes projectadas nas fachadas dos edifícios diversas vezes ao dia ao longo desta quadra, e o incontornável presépio lembra a origem destas festividades, que hoje em dia vão muito além da religião.
Ao longo dos últimos anos, o presépio tem seguido os cânones tradicionais: uma estrutura em madeira que lembra um estábulo, uma Nossa Senhora e um São José com os rostos cândidos olhando sobre a manjedoura que, a 25 de Dezembro, receberá a figurinha do Menino Jesus. A vaca e o jumento completam o quadro, à escala natural, numa evocação clássica do presépio, que pouca ou nada dista das representações que todos nós nos habituámos a ver também em Portugal.
Mas há muitas declinações possíveis para os presépios. Não faltam versões comerciais, ou caseiras, em palha, em pedra, em cristal, com vultos recortados, ou miniaturas dos mais diversos materiais, em amorosos bonequinhos, ou em composições feitas de figuras geométricas – a imaginação e o gosto ditarão os detalhes. Não importa muito o material ou a cor: a simbologia das três figuras, representando a Mãe, o Pai e o Menino, é mais poderosa do que quaisquer pretensões de realismo. Quem sabe como eram realmente os rostos daquela Família, ou o que envergavam naquela noite? É irrelevante, pois o presépio é um símbolo e, respeitados que sejam os seus elementos essenciais, as figuras podem ser de madeira, porcelana, cambraia fina, estopa, granito ou aço – a mensagem passa através de qualquer suporte.
A artista bruxelense Victoria-Maria Geyer, designer de interiores, foi a responsável pela concepção do presépio que por estes dias está na Grand-Place. Uma reinterpretação moderna que em vez de um estábulo oferece uma estrutura coberta por plásticos translúcidos, inspirada nas estufas de Laeken, conhecidas pela sua relevância cultural e botânica na cidade belga. As figuras não são já de madeira, mas sim de restos de tecido – uma ideia animada por uma recuperação ecológica. O projecto custou aos bruxelenses 60 000 euros e está no centro da polémica. Corre a tinta, multiplicam-se reportagens, partidos políticos indignam-se, exigem-se explicações e já está prometida uma reflexão para o ano que vem. Não tanto pelo seu custo, mas porque as figuras do presépio não têm rosto. Ou pior: têm cabeças feitas de múltiplos pedaços de tecido que, insiste a autora, evocam as diversas cores de pele da humanidade. A intenção, segundo a própria, aliás católica, é a de permitir a todos identificarem-se com aquelas imagens.
O resultado é, à falta de melhor palavra, grotesco. Em tamanho natural, as figuras do presépio ostentam um ar não simples mas andrajoso, e a ausência de rosto dá-lhes uma aparência tétrica. Parecem saídos de um pesadelo. Ao supor que todos se identificariam com figuras sem rosto, de corpos encimados por uma bola que é uma amálgama de tons de pele, a autora, por certo bem intencionada, esqueceu-se que a identificação que se sente com o presépio é apenas a que resulta da identificação com o lado mais belo e humano que ele representa. O nascimento da luz no meio da escuridão, a promessa da salvação para lá da adversidade, a fé num amor que desponta no meio do improvável. Os adjectivos usados por quem passa pelo presépio para o qualificar vão do “feio” ao “horrível” passando pelo mais certeiro “assustador”. Ao mutilar as figuras a pretexto de as tornar mais acessíveis, perdeu-se de vista que a mensagem vale mais que o símbolo e que o presépio dispensa ser torturado para se encaixar na pequenez de quem só se identifica em função da frivolidade da aparência. Ironicamente, acabamos convocados a identificar-nos com figuras medonhas.