No contexto do distrito de Coimbra, o conjunto das grandes empresas representa um vector central de sustentabilidade económica, competitividade e coesão social. Em 2022, segundo dados da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro (CCDR Centro), o número de empresas no distrito ascendia a cerca de 54.000 unidades, com um volume de negócios que ultrapassou os treze mil milhões de euros e geravam cerca de 152.000 postos de trabalho. Embora a listagem completa e pública das “700 maiores empresas” seja discutível, sabe-se no entanto, por exemplo, que as “700 maiores empresas”, em 2019, já tinham um volume de negócios superior a 8 mil milhões de euros e geravam aproximadamente 46.800 postos de trabalho.
Para que o distrito de Coimbra possa prosperar de forma sustentável, importa que essas grandes empresas assumam um papel activo de integração entre os vários concelhos, sectores e cadeias de valor. A estrutura económica do distrito revela uma forte predominância do sector terciário – cerca de 80 % das empresas são de serviços. Porém, em termos de facturação, observa-se que o sector industrial, embora represente apenas cerca de 7 % das empresas, contribui com 36 % do volume de vendas da região.
Por isso, as 700 maiores empresas podem e devem assumir responsabilidades acrescidas: desenvolver cadeias de valor locais, fomentar a produção regional, investir em inovação, colaborar com as instituições de ensino e investigação – nomeadamente as Universidades e Politécnicos e potenciar a articulação entre os municípios do distrito. Dessa forma, geram-se efeitos multiplicadores: investimento, emprego, tributação, consumo e mais qualidade de vida nas comunidades envolventes.
Quando essas empresas se comprometem com o desenvolvimento integrado do território, como por exemplo instalando pólos industriais ou centros de serviços fora dos grandes centros urbanos, apoiando fornecedores regionais, promovendo exportações e internacionalização – tornam-se verdadeiros motores de coesão territorial. A existência de elevado número de empresas “Gazela” – empresas de crescimento acelerado, é um registo da região da CIM Região de Coimbra, com excelentes números anuais. Este tipo de dinamismo empresarial sustenta um desenvolvimento que não se limita apenas ao Município de Coimbra, mas alcança o interior, litoral, concelhos periféricos e zonas periféricas.
Retenção de talento na região e em Coimbra
Um dos desafios que a região, em particular nas suas zonas mais jovens e dinâmicas, é a fuga de cérebros e a emigração temporária ou permanente dos jovens em busca de oportunidades fora do território. Para contrabalançar esse fenómeno, as grandes empresas locais, como por exemplo “as 700 maiores” podem e devem desempenhar um papel decisivo.
Oferecer emprego qualificado, bem remunerado, com perspectivas de carreira, está entre as principais formas de convencer os jovens formados a permanecerem ou regressarem à região. O vínculo com as instituições de ensino, como universidades, politécnicos, centros tecnológicos, deve traduzir-se em estágios, programas de estágio, parcerias de ID, incubadoras de start-ups e em ambientes de trabalho modernos e atractivos. Quando as empresas investem em capital humano local, em formação contínua, em planos de carreira, em mobilidade interna e em ambientes de trabalho saudáveis, criam-se condições para que os jovens não sintam que “são obrigados a sair” para conseguir crescimento pessoal e profissional.
Além disso, as empresas de grande dimensão podem oferecer soluções de trabalho flexível, regimes híbridos, mobilidade geográfica interna mas também trabalho nas zonas mais periféricas, mitigando o desafio demográfico de fuga de jovens para Lisboa, Porto ou mesmo para o estrangeiro. Em conjunto com os municípios que promovem a habitação acessível, mobilidade e qualidade de vida, deverão formarem-se ecossistemas que retêm talento. Neste mesmo sentido, a presença de pólos empresariais periféricos às cidades, mas com boas acessibilidades, aumenta a atractividade para quem pretende conciliar a vida profissional e qualidade de vida.
Oportunidades de emprego bem remuneradas
Não basta que existam empresas, é crucial que estas possam gerar empregos de qualidade, salários justos, segurança, perspectiva de progressão das carreiras profissionais, condições de trabalho modernas, formação e inovação. As maiores empresas do distrito estão em posição privilegiada para criar estas oportunidades. Tal significa não apenas emprego para quadros superiores, mas também para técnicos intermédios, para perfis mais jovens que concluem a formação profissional e desejam entrar em empresas com boas condições de trabalho.
No caso dos jovens em particular, o acesso a empregos bem remunerados permite-lhes permanecer na região, onde podem comprar ou arrendar habitação, participar na vida social, formar família, contribuir para a economia local. Além disso, empregos estáveis e bem estruturados ajudam a fixar famílias nas zonas periféricas, o que contribui para um envelhecimento mais equilibrado da população e para a vitalidade demográfica dos concelhos. Sendo que o distrito de Coimbra tem mostrado alguma diminuição populacional em alguns concelhos, estes factores revestem-se de importância estratégica.
Qualidade de vida para todos, em especial dos jovens
Emprego qualificado e bem remunerado é uma condição fundamental, mas não é a única. Para que a qualidade de vida seja efectiva, os jovens e toda a população, precisam de serviços públicos de qualidade (saúde, educação, cultura, desporto), mobilidade integrada e eficiente, habitação a preços acessíveis, lazer, ambiente saudável, áreas/zonas verdes, inovação urbana e tecnológica, segurança e coesão territorial. As grandes empresas têm, igualmente, aqui um papel relevante: sendo que ao inserirem-se no território, podem colaborar com os municípios e entidades públicas, apoiar iniciativas locais, patrocinar projectos socioculturais, investir em infra-estruturas sociais ou em práticas de responsabilidade social corporativa que melhorem o ambiente urbano e rural.
Num distrito como o de Coimbra, onde as cidades, vilas e zonas rurais estão interligadas, a convergência entre emprego, habitação, lazer e natureza é um diferenciador. Para os jovens, viver num local onde é possível trabalhar bem e ao mesmo tempo praticar desporto, ter acesso a oferta cultural, estar próximo da natureza ou da costa, como a zona da Figueira da Foz, é um relevante factor de atracção. Além disso, a promoção de ambientes de coworking, de inovação, de start-ups e da economia digital significa que os jovens não estão condicionados a grandes centros urbanos para terem uma carreira dinâmica e consolidada.
Síntese e compromisso
Em resumo, as cerca de 700 maiores empresas do distrito de Coimbra têm uma missão que vai para além da mera geração de lucros ou volume de negócios. Elas são, ou podem ser, agentes centrais de desenvolvimento económico integrado, de valorização local, de criação de emprego de qualidade, de retenção de talento e de promoção de uma vida plena para as novas gerações. A concreta concretização deste papel exige que essas empresas trabalhem em articulação com as autarquias locais, com entidades regionais de desenvolvimento, com o sistema de ensino, com os operadores de mobilidade e habitação e com os próprios jovens que buscam futuro.
Com esse compromisso, as empresas ajudam não apenas a construir uma economia mais forte e mais resiliente, mas também a edificar uma comunidade mais próspera, mais equilibrada, mais regenerada e mais feliz, na área territorial do distrito de Coimbra e para todos os que nele habitam ou escolhem viver.
(*) Doutorando e investigador