É Novembro e chove miudinho. O céu cinzento, arrasta-se sobre a cidade. O tipo de chuva que pede casa, manta e um banho quente. Decidi parar num sítio que há muito me inquieta. Subi um pequeno morro junto a uma ponte movimentada de Coimbra e encontrei um cenário inesperado.
Debaixo da estrutura de betão, alguém tentou recriar uma casa. Não havia paredes, mas a vontade que existissem estava lá: uma cómoda espelhada com fotografias de família — uma mulher e duas crianças —, um sofá, uma mesa com pacotes de leite, livros escolares e até um fogão. À volta, garrafões de água, um estendal improvisado, tendas fechadas, sapatos molhados. Era como se alguém tivesse decidido reconstruir um lar com o que lhe restou do mundo.
Fiquei a observar, desconfortável. A chuva caía com mais força, o frio começava a entranhar-se. Pensei no meu regresso a casa, no banho quente que me esperava, e senti angústia. Aquele chão de terra ia em breve transformar-se em lama. Perguntei-me se ali viveriam crianças. E adultos. Voltei mais tarde, ao entardecer, e encontrei um homem magro e olhar cansado. Apresentei-me. Disse-lhe que via, há semanas, crescer aquele pequeno “lar” sob a ponte e que queria apenas trocar duas palavras.
Chamemos-lhe João. Tinha o cabelo e a barba aparados, falava com calma, vestia um impermeável fluorescente que denunciava que não era o estereótipo de um sem abrigo. Trabalhava nos serviços de limpeza urbana da cidade. Trabalha — e mesmo assim, vive na rua. Disse-me que tinha filhas, que a vida dera voltas, e que agora era ali que dormia. Não fiz mais perguntas. A imagem bastava: um homem que trabalha, mas que não consegue pagar uma casa.
João é um entre muitos. Faz parte de uma realidade cada vez mais presente e que desafia o senso comum: pessoas com emprego, mas sem teto. Homens e mulheres que limpam as ruas, servem cafés, trabalham em armazéns ou supermercados — e dormem em carros, tendas, ou debaixo de pontes.
Portugal, 2025: mais gente sem casa, mesmo a trabalhar
Os números recentes confirmam o que o olhar suspeita. No final de 2023, estavam identificadas mais de 13 mil pessoas em situação de sem-abrigo em Portugal continental, de acordo com dados oficiais da Estratégia Nacional para a Integração das Pessoas em Situação de Sem-Abrigo (ENIPSSA).
Segundo a mesma fonte, dessas 13 mil, cerca de sete mil vivem na rua, em abrigos de emergência ou em locais sem condições, enquanto as restantes se encontram em alojamentos temporários, pensões ou casas de apoio social. O fenómeno espalha-se por mais de metade dos concelhos portugueses — e já não se limita às grandes cidades.
Lisboa continua a ser o concelho com mais casos, seguida de Beja e Porto. Mas há situações graves também em cidades médias, como Coimbra, Faro ou Setúbal. O perfil dominante é o de homem português, entre os 45 e os 64 anos, muitas vezes com historial de emprego precário, baixos rendimentos e ausência de rede familiar.
No entanto, há um dado novo: cresce o número de pessoas com trabalho. São trabalhadores de baixos salários, muitas vezes em empregos essenciais — limpeza, restauração, segurança, agricultura — que não conseguem suportar as rendas inflacionadas das cidades. O aumento do custo da habitação, somado à escassez de arrendamento acessível, está a empurrar para a rua quem até há poucos anos vivia com estabilidade.
O país das rendas impossíveis
Em dez anos, o preço médio das rendas em Portugal duplicou em muitas cidades. Lisboa e Porto lideram, mas o fenómeno alastra. Mesmo nas cidades do interior, os valores subiram, sem que os salários acompanhassem.
O caso de João não é exceção: é o retrato de um país onde o trabalho deixou de garantir dignidade. Segundo as organizações que atuam no terreno, o número de pessoas em risco de perder a casa está a crescer rapidamente, sobretudo entre quem vive sozinho ou em famílias monoparentais. A precariedade dos contratos de trabalho, a inflação e a especulação imobiliária formam uma tempestade perfeita.
Há também o reverso invisível — as pessoas que, embora não durmam na rua, vivem em quartos sobrelotados, carros ou abrigos temporários. Estão “a um mês da rua”.
Mais do que números
Os relatórios nacionais servem para medir o problema, mas não chegam para o compreender. Cada número esconde uma vida — e muitas vezes uma história de trabalho. João é um desses rostos. Montou a sua “casa” com o que pôde: uma cómoda espelhada, fotografias das filhas, um sofá. Quis manter um vestígio de normalidade.
O espelho daquela cómoda, sob a ponte, é uma metáfora triste: reflete um país que limpa as ruas mas não repara em quem as varre. A linha entre “ter casa” e “não ter” é hoje mais fina do que nunca.
E é nesse limite que cresce uma nova forma de exclusão: a dos trabalhadores pobres, uma realidade que se torna estrutural. Não são marginais. São parte do tecido urbano, parte da cidade que passa despercebida.
O problema é que não se trata apenas de habitação: é também de rendimento, saúde mental, acompanhamento social e reinserção. A rua não é apenas um espaço físico — é uma condição. E sair dela exige mais do que uma chave: exige tempo, confiança e políticas coerentes.
O rosto que se esconde debaixo da ponte
Em Coimbra, naquela tarde cinzenta, João esperava a chuva passar. O cheiro do café misturava-se com o do asfalto molhado. Falou-me da chuva, do frio, do trabalho. “Não é fácil”, disse, com um meio sorriso. Depois calou-se, talvez com vergonha, talvez com resignação.
Deixei-o ali, sob a ponte, com as fotografias que lhe restavam.
Os números dizem-nos que há milhares como ele. E que, se nada mudar, haverá mais. Não é apenas um problema social — é um espelho da forma como o país trata os seus cidadãos. Ninguém devia trabalhar e viver na rua.
A história de João mostra que a pobreza em Portugal já não se mede apenas pela ausência de emprego. Mede-se pela distância entre o salário e a renda. Pelo abismo entre o custo da vida e o preço da dignidade.
A questão não é apenas económica — é moral. Quando um trabalhador, que limpa as ruas que todos usamos, dorme debaixo de uma ponte, algo está profundamente errado.
Não deveria haver quem dormisse sob a sombra das pontes que ajudam a manter limpas.
Enquanto a chuva continuar a cair, miudinha e persistente, haverá sempre alguém como o João — alguém que tenta manter um lar num país que, por vezes, parece ter esquecido que “ter casa” é o primeiro passo para se ter uma vida.
Ana Rajado
Publicado na edição em papel do Campeão das Províncias de quinta-feira, 20 de Novembro de 2025