Coimbra  10 de Fevereiro de 2026 | Director: Lino Vinhal

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Afastamento político abrupto marca despedida de Carlos Lopes da Câmara de Coimbra

16 de Novembro 2025 Jornal Campeão: Afastamento político abrupto marca despedida de Carlos Lopes da Câmara de Coimbra

Carlos Lopes despede-se do cargo de vereador da Câmara Municipal de Coimbra, função que exerceu desde 2021 em regime de permanência, eleito pela coligação “Juntos Somos Coimbra”. Durante o mandato, esteve à frente de áreas centrais para a cidade: Desporto, Ambiente, Clima, Energia e Sustentabilidade, Juventude, Protecção Civil, Bombeiros, Orçamento Participativo e Associativismo Desportivo e Juvenil.

Licenciado em Geografia e pós-graduado em Ordenamento do Território e Desenvolvimento pela Universidade de Coimbra, Carlos Lopes construiu um percurso profissional sólido, entre o serviço público e o envolvimento cívico. Foi técnico superior na autarquia, chefe do sector de Aprovisionamento das Águas de Coimbra, para onde agora regressa, e desempenhou funções autárquicas de proximidade, nomeadamente como presidente da Junta de Freguesia de Almedina.

 

Campeão das Províncias [CP]: Porque é que decidiu não se recandidatar nas últimas eleições autárquicas?

Carlos Lopes [CL]: Eu disponibilizei-me para continuar, para ir a eleições. Desde o início que falávamos num ciclo de oito anos, era esse o horizonte que tínhamos traçado enquanto equipa. O meu desejo sempre foi cumprir esse ciclo, dar continuidade ao trabalho iniciado.

Mas houve vontades políticas diferentes às minhas, que naturalmente tenho de respeitar. Foram decisões tomadas pelo então recandidato a presidente da Câmara e também pelas estruturas locais do PSD, a concelhia e distrital, respetivamente.

A minha saída da lista candidata do Juntos Somos Coimbra à Câmara Municipal, não teve nada a ver com motivos pessoais e objectivamente, tratou-se de uma decisão exclusivamente política.

 

[CP]: Como é que recebeu essa decisão?

[CL]: A decisão salomónica foi-me comunicada a 25 de Julho. Já com alguma experiência nestas andanças políticas, percebo que, por vezes, as decisões são tomadas em círculos internos mais ou menos fechados, por dinâmicas que nem sempre são claras para todos.

O João Francisco Campos acabou por me substituir na lista como candidato a vereador. Creio que era o número quatro da lista. E confesso que isso me surpreendeu, sobretudo porque ele tinha, pouco tempo antes, anunciado publicamente a recandidatura à presidência da União das Freguesias de Coimbra. De repente, aparece na lista para a Câmara e, com isso, eu deixo de integrar a mesma.

Durante os últimos quatro anos, as minhas relações com a Comissão Política Concelhia foram sempre normais. Com o Ex-presidente da Câmara, a relação foi institucional, correcta, profissional. Sempre existiu respeito mútuo, mesmo quando tínhamos opiniões diferentes. E divergências próprias da vida política.

Agora, há questões que prefiro deixar no passado. A relação que tive com o presidente é um assunto que fica entre mim e ele. Como referi, com momentos de discordância, mas sempre dentro dos limites do respeito e da lealdade institucional.

Naturalmente, havia também diferenças que se sentiam: políticas, mas também geracionais. Não pertencemos ao mesmo partido, nem partilhamos o mesmo percurso político ou a mesma vivência geracional. Talvez por isso existissem afinidades diferentes dentro do executivo. São factores que, inevitavelmente, influenciam a forma como se trabalha em equipa.

 

[CP]: Olhando para trás, considera que fez um bom mandato como vereador?

[CL]: Honestamente, acho que sim. E digo-o não apenas por convicção pessoal, mas sobretudo pelo retorno que tenho sentido das pessoas. Como referi há pouco, a maioria manifesta satisfação com o trabalho que desenvolvi nas várias áreas.

Nestes últimos meses, tenho recebido muitas mensagens e palavras de apoio, perguntas sobre por que razão não continuei, e até algum espanto com a minha saída. Essa surpresa, para mim, é reveladora, significa que as pessoas reconheceram o trabalho feito e, de alguma forma, se identificaram com ele.

Isso é o mais importante. No fundo, ao fim de mais de 25 anos de serviço público, é esse reconhecimento humano e espontâneo que mais valorizo.

 

[CP]: A sua ligação a Coimbra vem de longe. Recorda com particular carinho o tempo em que foi presidente da Junta de Freguesia de Almedina?

[CL]: Sem dúvida. Na altura, fui eleito com 26 anos, creio que era o mais novo entre os presidentes de junta, e foi uma experiência marcante. A Freguesia de Almedina, o verdadeiro coração de Coimbra, recebeu-me muito bem. Foram anos intensos, de grande proximidade com as pessoas e de um sentimento genuíno de missão.

Entre 2009 e 2013, vivemos um período muito especial. Criámos sinergias e projectos que ainda hoje moldam aquele território tão simbólico do centro histórico. Lembro-me, por exemplo, do Fado ao Centro, quando os convenci a instalar-se no Quebra-Costas — algo que ajudou a revitalizar aquela zona. Ou da estátua de Almedina, que foi retirada e mais tarde regressou, e que acabou por se tornar um ícone.

Gostem mais ou menos, é isso que a arte faz: provoca, faz pensar, e sobretudo cria identidade. O importante é que as pessoas se detêm, observam, tiram fotografias. Isso significa que o espaço público passou a ser vivido, sentido, apropriado e é isso que dá alma a uma cidade.

 

[CP]: Gostou mais de ser presidente de Junta ou vereador?

[CL]: São experiências muito diferentes. Apesar de muitas pessoas não perceberem bem as distinções, tratam-se de realidades e funções com naturezas próprias. O trabalho de um presidente de Junta é, naturalmente, mais próximo das pessoas, lida-se directamente com a comunidade. O cargo de vereador tem uma escala diferente, mais estratégica e institucional, mas, se houver vontade e sensibilidade, também permite manter essa ligação ao cidadão. Eu procurei sempre fazê-lo.

Ambas as experiências foram profundamente enriquecedoras. Não me arrependo de nenhuma delas, pelo contrário, sinto-me honrado por ter podido servir a cidade em contextos tão distintos.

E não excluo um eventual regresso à vida política. Se as circunstâncias um dia se proporcionarem, estarei disponível. A política local é o meu espaço natural: é onde me sinto bem, junto das pessoas e a trabalhar para elas.

 

[CP]: Coimbra tem dado ao desporto o que realmente precisa?

[CL]: Essa é uma pergunta com duas dimensões. Por um lado, há a vertente dos grandes eventos desportivos, nacionais e internacionais, e nesse campo Coimbra tem dado cartas. Não apenas neste mandato, mas também fruto de um trabalho que vem de trás. É justo reconhecer o mérito de quem me antecedeu, como o Nuno Freitas no mandato do Carlos Encarnação ou posteriormente o Carlos Cidade nos mandatos de Manuel Machado, que conseguiram trazer importantes eventos para a cidade.

Sempre considerei essencial valorizar o que foi bem feito. Não devemos destruir por destruir — devemos aproveitar e dar continuidade aos bons projectos. A história constrói-se assim e o desporto em Coimbra é um excelente exemplo disso.

A centralidade da cidade é também um factor natural que atrai federações e competições. Veja-se o caso do rugby: em quatro anos recebemos três jogos internacionais com selecções de topo, o que é notável. Outro exemplo é o atletismo. A pista do Estádio Cidade de Coimbra é hoje uma das melhores do país, com condições que cumprem padrões internacionais. E há provas emblemáticas, como a São Silvestre de Coimbra, que cresceu muito. Nos últimos quatro anos triplicamos o número de atletas inscritos e hoje é uma das corridas mais participadas do país.

No conjunto, Coimbra tem uma actividade desportiva muito intensa — talvez mais do que a maioria das pessoas imagina. Em média, realizamos mais de três mil eventos desportivos por ano, desde competições de formação até provas nacionais e internacionais, nas mais variadas modalidades.

 

[CP]: Já é público que nas próximas eleições internas do PSD Coimbra vai apoiar Lídia Pereira. Porquê essa escolha?

[CL]: Sim, é verdade. Há dois candidatos já assumidos, e é público que vou apoiar a Lídia Pereira. Foi candidata à Assembleia Municipal nas duas últimas eleições e tem demonstrado uma grande capacidade política e uma visão moderna para o partido. A Lídia é uma pessoa muito respeitada em Coimbra, uma mulher com mundo, com coragem, com percurso europeu. Saiu cedo da cidade, estudou, arriscou, aproveitou as oportunidades que a vida lhe deu. É jovem, é preparada e representa uma geração que o PSD precisa de escutar. E, sinceramente, acho que o partido precisa mesmo deste novo fôlego.

 

[CP]: Como vê este momento do PSD em Coimbra, com várias candidaturas a surgir?

[CL]: Vejo como um sinal de vitalidade. Quando há mais do que uma lista a disputar uma concelhia, isso mostra que o partido está vivo. Se não houvesse vontade, nem debate interno, seria sinal de apatia e isso sim, seria preocupante.

Tenho um longo percurso dentro do PSD e da JSD: fui secretário-geral, vice-presidente de comissões políticas, presidente da concelhia de Coimbra, e também membro de distritais presididas por pessoas como o Jaime Soares. Essa experiência ensinou-me que a renovação faz parte da vida partidária.

 

[CP]: E pessoalmente, tenciona voltar a desempenhar cargos políticos dentro do partido?

[CL]: Neste momento, não procuro cargos directivos. Já cumpri esse ciclo e acho importante dar espaço a outras pessoas. Mas estou disponível para ajudar, para contribuir com a minha experiência e com o meu conhecimento da realidade local.

A Lídia tem essa combinação rara de competência técnica e sensibilidade política, e acredito que poderá liderar bem a concelhia. Tenho também consideração pelo outro candidato já anunciado, o jovem deputado Martim Syder. Será certamente uma eleição disputada e espero acima de tudo que decorra com respeito e espírito democrático. O essencial é que o PSD de Coimbra volte a ser uma estrutura forte, dinâmica e capaz de se afirmar como alternativa ao actual ciclo político, liderado pelo Partido Socialista.

 

[CP]: Falou há pouco em ética e dignidade na política. Sente que esses valores se foram perdendo ao longo do tempo?

[CL]: Acho que a política mudou, e nem sempre para melhor. Eu ainda apanhei o final de uma geração que valorizava a ética política, a palavra dada, o respeito pelas instituições. Chamam-lhes agora os “velhinhos do Restelo”, mas eram pessoas de enorme carácter e com uma vivência política muito sólida.

 

[CP]: Depois de toda a experiência na Câmara, há alguém com quem se sinta incompatibilizado, seja pessoal ou politicamente?

[CL]: Em termos pessoais, não. Nada me move contra alguém por razões pessoais. Sempre procurei manter uma postura de equidade e educação na vida, e a política nunca me retirou isso.

Em termos políticos, obviamente, ficam marcas, E essas marcas, acredito, devem ser discutidas e reflectidas no local próprio, com os militantes e de forma aberta e transparente. É fundamental que o próximo plenário do partido aconteça o mais depressa possível, para que os militantes possam expressar a sua opinião. É assim que se constrói consciência colectiva e se garante que a política não se faz apenas de decisões salomónicas e isoladas.