A ministra da saúde Ana Paula Martins tem acumulado sucessivas gaffes que não são gaffes, é o que pensa (mal) e sai-lhe da boca para fora, enquanto o primeiro-ministro a mantém para prosseguir as “reformas”.
Basicamente, no Orçamento de Estado para 2026, o Governo corta 10% no orçamento da Saúde, em compras para o SNS (medicamentos, dispositivos médicos, tarefeiros, transporte de doentes, etc.), o que corresponde a 887 milhões de euros de despesa, enquanto apresenta um aumento de 40% nos encargos com as PPP (Parcerias Público-Privadas) de Saúde para um total de 325 milhões de euros.
Marcelo Rebelo de Sousa, que votou contra o SNS em 1979 enquanto deputado da Nação (PSD), agora quer um pacto na Saúde, como se fosse possível conciliar o inconciliável, como se comprova no exemplo do Orçamento.
Ana Paula Martins está desorientada, incapaz de conter a desorganização da Saúde (morte de grávida e criança, aumento de partos fora das maternidades – em ambulâncias, automóveis particulares ou mesmo na rua, INEM sem serviços mínimos que provocou mais mortes comprovadas, substituição de dirigentes da saúde por clientelas partidárias, e muito mais), sem promover a articulação de serviços (já o escrevi em 2012 como imperioso), atabafada de promessas incumpridas de resolver os problemas (tipo o desenho animado Speedy Gonzalez, tão rápido como o Lucky Luke), e fazendo dos tarefeiros médicos o bode expiatório, sendo os únicos trabalhadores deste país a quem quer baixar o vencimento.
Tão desorientada está, que acusa as utentes (quem morre e as suas famílias que sofrem), de serem grávidas imigrantes, de fazerem turismo de saúde, de não quererem assistência médica durante a gravidez, de não saberem falar português, de não saberem pedir socorro, de não terem telemóvel, em discurso xenófobo e racista digno de André Ventura, mas não de uma ministra de bem.
P´ra pior já basta assim?
E o primeiro-ministro e seu séquito de “ajudantes” elogiam a capacidade da Ministra (que não é demonstrada), continuando a degradação do SNS, com titulares avulso e sem competência evidenciada, com um sistema informático anacrónico, sem o devido cruzamento de informação (desconhecido pela responsável que o tutela), com segregação de pessoas em função da sua origem e raiz social esquecendo a universalidade e a dignidade humana.
Uma ministra desacreditada, sem autoridade política, segue penosamente o seu caminho até à demissão, qualquer dia. Os ministros passam, os problemas mantêm-se. E agora, a troika voltou? Começou com os médicos tarefeiros ao baixar-lhes o salário, eles que asseguram todos os serviços de urgência. Falamos de vida e morte, e não de discursos fátuos ministeriais. Nivelar por baixo, quando deviam integrá-los nas carreiras do SNS e dignificá-las (progressão e vencimento).
É difícil encontrar um ministro/a com tantos casos em tão pouco tempo de exercício, acerrimamente defendida pelo primeiro-ministro (p´ra pior, já basta assim?).
O primeiro-ministro que, quando for concluída a averiguação preventiva ao caso Spinumviva, e se for constituído arguido (quiçá depois acusado), vai ignorar alegremente, com sorriso sardónico, as eventuais imputações. Vai longe o tempo em que os ministros socialistas se demitiam, perante a comunicação social e a opinião pública adversa, em que o Presidente da República demitia uma ministra socialista por via dos incêndios (que continuam a provocar mortes), em que o PSD na oposição pedia a demissão de ministro, cão e gato que mexessem, houvessem casos, casinhos ou casões.
(*) Médico