Professor e investigador, Ricardo Pocinho tem dedicado a vida a estudar o envelhecimento e a forma como a sociedade portuguesa o encara. Natural de Soure, é hoje uma das principais referências nacionais na área da Gerontologia Social e da Educação ao Longo da Vida. Doutorado em Psicogerontologia e em Processos de Formação, é professor na Escola Superior de Educação e Ciências Sociais do Politécnico de Leiria, investigador no Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais (CICS.NOVA) e presidente da Associação Nacional de Gerontologia Social (ANGES).
Foi recentemente distinguido com o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal do Tocantins, no Brasil, pelo contributo nas áreas da educação e do envelhecimento activo, bem como pelo trabalho desenvolvido junto de comunidades indígenas da Amazónia.
No mês em que se assinala o Dia Mundial da Terceira Idade, a 28 de Outubro, fala sobre o envelhecimento de um país que “continua a apagar fogos em vez de construir um plano”, a urgência de combater o idadismo e a necessidade de olhar para os mais velhos não como um custo, mas como um investimento humano e social — e defende que “envelhecer não é perder juventude, é ganhar história”.
Campeão das Províncias (CP) — Costuma dizer que Portugal está a envelhecer “sem estratégia”. O que quer dizer com isso?
Ricardo Pocinho (RP) — Quando falo de “envelhecimento sem estratégia”, refiro-me ao facto de estarmos a assistir a uma transformação demográfica profunda: Portugal tem já 182 idosos por cada 100 jovens, mas continuamos a reagir aos problemas em vez de os antecipar. É como se estivéssemos sempre a “apagar fogos” em vez de construir um plano sólido. Temos medidas dispersas, políticas que não se articulam entre si, e uma visão ainda muito centrada no défice, ou seja, no que os mais velhos custam, em vez de vermos as oportunidades que representam. Uma estratégia seria olharmos para o envelhecimento como uma conquista civilizacional.
CP — Somos um dos países mais envelhecidos do mundo. Como é que esta realidade devia estar a ser encarada, como um problema ou como uma oportunidade?
RP — Deveria ser vista como uma conquista e uma oportunidade. Envelhecer significa que conseguimos vencer doenças, melhorar condições de vida, aumentar a esperança de vida. O problema não é termos muitos velhos, o problema é não sabermos aproveitar toda esta riqueza humana. Imagine-se: temos milhões de pessoas com décadas de experiência, conhecimento, tempo disponível. Se os virmos apenas como um fardo para a Segurança Social, estamos a desperdiçar um recurso imenso. Outros países já perceberam isto e estão a criar modelos onde os mais velhos contribuem activamente para a economia e para a sociedade.
CP — Portugal trata os idosos como um custo ou como um investimento?
RP — Infelizmente, ainda os tratamos maioritariamente como um custo. Basta ver como se fala do envelhecimento, sempre em termos de “sustentabilidade da Segurança Social”, “pressão sobre o SNS”, “encargos crescentes”. Raramente ouvimos falar do “dividendo da longevidade” ou do valor económico que os mais velhos representam. Um país que trata os idosos como investimento cria programas de reaproveitamento das suas competências, incentiva o empreendedorismo sénior, desenvolve a economia prateada.
CP — O que mais o preocupa no modo como a sociedade portuguesa olha para os idosos hoje?
RP — O que mais me preocupa é a naturalização do idadismo, essa discriminação silenciosa baseada na idade. Vemos isto em pequenos gestos: quando se fala devagar e alto para um idoso que ouve perfeitamente, quando se assume que não percebe de tecnologia, quando se descarta uma candidatura de emprego aos 55 anos. Esta discriminação é tão subtil que nem nos apercebemos, mas está enraizada. E depois há a infantilização, estamos a tratar adultos experientes como se fossem crianças que precisam de protecção constante, em vez de cidadãos que querem manter a sua autonomia e dignidade.
CP — E como se pode combater esse idadismo?
RP — O primeiro passo é reconhecer que existe. Muitas vezes discriminamos por idade sem nos apercebermos. Depois, é preciso educação — mostrar que a idade cronológica não determina capacidades. É importante ter referências positivas: seniores activos, criativos, empreendedores. Os media têm um papel crucial — em vez de só mostrarem idosos como vítimas ou como “coisinhas fofas”, mostrar a diversidade do envelhecimento. E é preciso legislação: leis anti discriminação etária no trabalho, por exemplo. O idadismo combate-se como se combate qualquer preconceito: com informação, contacto e mudança de mentalidades.
CP — Há políticas públicas suficientes ou estamos apenas a gerir o envelhecimento em “modo sobrevivência”?
RP — Estamos claramente em “modo sobrevivência”. Temos a Estratégia Nacional para o Envelhecimento Activo e Saudável (ENEAS), temos o Programa Nacional para a Saúde das Pessoas Idosas, mas falta-lhes continuidade, financiamento adequado e, sobretudo, uma visão integrada. Criamos medidas para responder ao imediato: mais camas hospitalares, mais lares, mais subsídios, mas não investimos na prevenção da dependência, na manutenção da autonomia, na promoção do envelhecimento activo. É como tentar tapar um furo numa barragem com um penso rápido.
CP — Fala-se muito em “envelhecimento activo”, mas o que é isso na prática?
RP — Envelhecimento activo, na prática, significa dar oportunidades reais para que as pessoas continuem a ser protagonistas da sua vida após os 65 anos. Não é fazer ginástica para idosos uma vez por semana, embora isso também seja importante. É criar condições para que possam trabalhar se quiserem, estudar se desejarem, empreender se tiverem ideias, participar nas decisões que os afectam. É ter transportes acessíveis, tecnologia amiga, espaços públicos inclusivos. É, fundamentalmente, não pôr as pessoas “na prateleira” só porque fizeram anos.
CP — A reforma ainda faz sentido como a entendemos hoje? Ou devia ser uma transição mais flexível?
RP — A reforma “portão que se fecha” aos 65 anos é um conceito do século XX que não faz sentido no século XXI. Com pessoas cada vez mais saudáveis e longevas, faz mais sentido ter transições flexíveis, com reforma gradual, trabalho a tempo parcial, carreiras em “escada”, onde se pode subir e descer conforme as circunstâncias da vida. Alguns países nórdicos já experimentam modelos onde se pode “poupar” tempo de reforma, trabalhando mais nuns anos para ter mais liberdade noutros. A rigidez atual desperdiça talento e cria ansiedades desnecessárias.
CP — É um defensor da formação ao longo da vida. Portugal continua a associar aprendizagem à juventude?
RP — Infelizmente, sim. Temos ainda aquela mentalidade do “para que é que vou aprender isto na minha idade?”. Mas estamos a mudar, lentamente. Os projectos educativos para seniores que desenvolvemos têm sido fundamentais para quebrar este preconceito. Vejo pessoas de 80 anos a aprender informática, línguas, história. A aprendizagem na idade avançada não é só sobre adquirir conhecimentos, é sobre manter o cérebro activo, criar laços sociais, ter prazer intelectual. Num mundo que muda tão rapidamente, a formação ao longo da vida não é um luxo, é uma necessidade para todos, independentemente da idade.
CP — O que ganhávamos se misturássemos mais gerações, por exemplo, jovens e seniores nas escolas, nas universidades, ou até nas empresas?
RP — Ganhávamos muito. Os jovens trazem energia, criatividade, domínio tecnológico. Os seniores trazem experiência, paciência, perspectiva histórica. Juntos, criam equipas mais equilibradas e eficazes. Em países como a Alemanha, há programas onde reformados ajudam jovens empreendedores: é a experiência ao serviço da inovação. Nas escolas, avós e seniores podem ser contadores de histórias, mentores, transmissores de tradições. Esta troca de saberes beneficia todos e cria uma sociedade mais coesa e menos dividida por idades.
CP — Se pudesse reformular completamente as políticas de envelhecimento em Portugal, por onde começaria?
RP — Começaria por mudar a narrativa. Em vez de falarmos de “problema do envelhecimento”, falaríamos de “oportunidade da longevidade”. Depois, criaria uma estratégia nacional integrada, com metas claras e financiamento adequado, que envolvesse todos os ministérios: não é só problema da Segurança Social ou da Saúde. Investiria massivamente na prevenção da dependência e na promoção da autonomia. Criaria incentivos fiscais para empresas que contratem trabalhadores seniores. E, muito importante, daria voz aos próprios idosos nas decisões que os afectam: nada sobre nós, sem nós.
CP — Pessoalmente, o que é que o envelhecimento lhe ensinou até agora?
RP — O envelhecimento, o meu e o de quem estudo, ensinou-me que cada pessoa envelhece de forma única. Não há receitas universais. Ensinou-me a valorizar mais o tempo e as relações. A perceber que experiência não é o que nos acontece, mas o que fazemos com o que nos acontece. Ensinou-me também que envelhecer não é perder juventude, é ganhar história. E que a idade pode trazer uma liberdade especial, a liberdade de ser mais autêntico, de dizer o que se pensa, de focar no que realmente importa. O envelhecimento, quando bem vivido, pode ser a melhor fase da vida.
Ana Laura Duarte