No atual contexto político, e com as devidas distâncias, recordo uma frase de Salgueiro Maia:
“…Às vezes é preciso desobedecer.”
O estado atual do Partido Socialista em Coimbra deveria suscitar entre os seus militantes um evidente sentimento de insatisfação. É urgente romper com a acomodação. A Federação Distrital de Coimbra precisa, mais do que nunca, de militantes inconformados — de “desobedientes” no melhor sentido da palavra.
Contrariamente ao que alguns pretendem fazer crer, os resultados eleitorais do PS no distrito estão longe de ser satisfatórios. São maus. E, como se costuma dizer, o algodão — neste caso os números — não engana.
A Câmara Municipal de Coimbra não pode, nem deve servir de boia de salvação para uma gestão política da Federação Distrital. Não pode ser o capuz que oculta a perda de influência e os resultados dececionantes alcançados no restante território do distrito.
Os números são claros: apesar de um aumento de mais de 10.500 votantes, o PS perde cerca de 4.000 votos no conjunto do distrito. Excluindo o concelho de Coimbra, a situação agrava-se — o partido perde mais de 11 mil votos, mesmo com um acréscimo de 7.300 votantes.
No concelho de Coimbra, é verdade que a coligação “Avançar Coimbra”, liderada pela Professora Ana Abrunhosa, registou um aumento de cerca de 7.500 votos face a 2021. Contudo, essa vitória não pode ser atribuída exclusivamente ao PS. Resulta de um esforço coletivo da coligação e da capacidade mobilizadora da sua líder — recorde-se, decisão/escolha direta de Pedro Nuno Santos.
Convém também lembrar que, nas autárquicas de 2021, os parceiros da coligação — CPC e PAN — somaram cerca de 5.200 votos, e que o Livre, nas últimas legislativas, obteve 4.531 votos em Coimbra. Quantos votos valeriam cada um fora da coligação? Quantos votos arrecadaria o PS sem coligação? Fica para sempre a dúvida. Como se costuma dizer, a César o que é de César: a vitória é da coligação e da sua líder, Ana Abrunhosa.
O presidente da Concelhia de Coimbra merece, ainda assim, reconhecimento pela sua persistência e firme defesa da coligação, mesmo perante resistências internas. Eu próprio me confesso avesso à dita coligação.
Em concelhos como Tábua, Oliveira do Hospital e Penela, o mérito das vitórias pertence claramente aos Líderes e equipas locais. Em Montemor-o-Velho, a boa escolha do candidato e o trabalho da equipa garantiram nova vitória socialista.
Mas fora estes casos, o cenário é preocupante.
Sem coligações, o PS fica reduzido a quatro (4) câmaras municipais no distrito, perde peso político na região e deixa escapar a liderança da Comunidade Intermunicipal (CIM).
Câmaras socialistas, como Miranda do Corvo e Lousã, tradicionalmente socialista, caíram para o PSD. Em Condeixa-a-Nova, historicamente PS, Soure e Vila Nova de Poiares, movimentos independentes — nascidos de dissidências internas do PS — conquistaram o poder. Julgo, nestes casos, que a Federação deveria ter tido outro papel e assumido uma gestão política mais refletida e estratégica.
O futuro do PS em Coimbra
O silêncio e a complacência das lideranças distritais e de algumas concelhias refletem o estado de estagnação e desgaste que paira sobre a Federação de Coimbra.
É tempo de reconhecer a realidade e agir.
Parafraseando novamente Salgueiro Maia:
“…nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos.”
Após a noite de 12 de outubro, é urgente mudar o rumo e a atitude do PS no distrito de Coimbra, para que se possa acabar com o estado a que o PS chegou.
Aos verdadeiros líderes exige-se o essencial: humildade nas vitórias e coragem nas derrotas, o que inclui a assunção das consequências e responsabilidades políticas dos resultados obtidos.
Membro da Comissão Nacional do PS