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Uma vista sobre Coimbra (e os preconceitos que a habitam)

19 de Outubro 2025 Jornal Campeão: Uma vista sobre Coimbra (e os preconceitos que a habitam)

Há um lugar em Coimbra com uma vista incrível para os campos do Mondego. Com sorte, num dia de céu limpo, é possível ver a Serra da Boa Viagem. Ali, os sons da cidade ouvem-se ao longe — os carros ao fundo, no IC2, parecem pequeninos, assim como as torres mais feias da cidade. A única presença barulhenta é o riso de meia dúzia de crianças a brincar num campo de futebol. É um espaço de acessos privilegiados, junto ao centro da cidade, numa das suas colinas. Excepto os moradores, não há quem mais frequente aquele lugar de vasto horizonte. Não raras vezes vou até lá para ler e sempre encontrei um ambiente tranquilo. Em tempos, terá sido um espaço afastado do centro, mas a cidade cresceu e o que era periferia tornou-se central. Apesar das suas vantagens geográficas, a paisagem humana não agrada a todos. E não agrada porque muitos dos habitantes daquele lugar são ciganos, com todo o estigma associado a esta comunidade. Trata-se do Bairro do Ingote ou — mais recentemente, e intencionalmente — do agora, apelidado Planalto do Ingote (depois da proposta de requalificação). Para quem conhece Coimbra este bairro está associado a uma imagem de marginalidade, pobreza e violência, de onde todos querem fugir. Há quem precise cruzar o bairro de carro e o faça rapidamente, com medo de uma bala perdida. No entanto, esta é uma visão limitada e pouco ou nada expressiva da evolução daquele território e comunidade.

Uma história de identidade e estigma

A comunidade cigana — ou roma, como prefere ser chamada — está entre as mais discriminadas da Europa. Em Portugal, o preconceito é antigo e profundo, apesar da história dos ciganos no território português remontar ao século XVI. A sua chegada, inicialmente tolerada, cedo deu lugar a políticas repressivas. Foram expulsos, perseguidos, forçados à assimilação. Vestir as suas roupas tradicionais ou falar romani chegou a ser crime.

No entanto, resistiram. Continuam a ser vítimas de exclusão social, mas também há sinais de mudança. As novas gerações têm maior acesso à educação, mais oportunidades de trabalho e uma crescente visibilidade em diferentes áreas da sociedade.

 Porrajmos: A devoração esquecida

Importa lembrar que, durante a II Guerra Mundial, os ciganos foram também vítimas do Holocausto. Entre 220 mil e 500 mil roma foram assassinados pelo regime nazi, num genocídio conhecido como Porrajmos — que significa “devoração” em romani. Este episódio trágico da história europeia é ainda pouco conhecido e raramente ensinado, o que contribui para a desvalorização do sofrimento desta comunidade e perpetua o desconhecimento sobre a sua identidade.

Vidas no Planalto

Foi num dos meus regressos ao miradouro do Ingote que conheci Irene, de 68 anos, e a sua sobrinha Maria da Graça Grilo, de 38. As duas mulheres, com longos cabelos pretos e saias compridas, acolheram-me com simpatia. Graça é avó de dois netos e mãe de duas filhas jovens. Concluiu o 12.º ano e trabalha como cozinheira. É um rosto de uma nova geração de mulheres ciganas, que estudam, trabalham e desafiam os papéis tradicionais, ainda que sem os rejeitar.

“Muita coisa mudou. As mulheres já estudam, trabalham. Também têm filhos mais tarde”, explica. Mas a mudança tem sido feita com obstáculos. Graça contou que teve de esconder a sua origem para conseguir um estágio profissional. “É muito triste, porque tenho muito orgulho na minha comunidade. Mas precisava de trabalhar.” Felizmente, encontrou uma patroa que a valoriza pelo que é — e não pela sua origem.

Apesar do progresso, o preconceito persiste. “Dizem que somos preguiçosos, mas montar uma banca numa feira às cinco da manhã não é para qualquer um. É trabalho duro.” E sublinha com orgulho que já há ciganos médicos, advogados, professores. “Isso dá-nos força e esperança.”

 Cultura e laços comunitários

Graça fala com carinho da sua cultura. As festas, os casamentos, os momentos em que a comunidade se reúne para cantar e dançar. “Os mais velhos são muito importantes para nós. São respeitados e ouvidos.” Há uma clara valorização da família e das tradições, ainda que estas evoluam com os tempos. “Continuamos a cuidar dos nossos, mas também olhamos para fora. Queremos educação para os nossos filhos e netos.”

Quanto à associação do bairro à criminalidade, Graça é clara: “Não são os ciganos que trazem a droga para cá. É um problema que também nos preocupa. Ninguém quer ver as crianças a crescer nesse ambiente. Felizmente, agora o bairro está mais calmo.”

Viver a cidade

A realidade mostra que, em muitos casos, o modelo de bairros sociais aplicado acabou por reforçar a segregação. Não necessariamente por má vontade, mas talvez por um foco excessivo na resolução do problema imediato (o acesso à habitação) e menos na criação de comunidades verdadeiramente mistas e integradas. No entanto, o desafio, hoje, passa por reequacionar o urbanismo como ferramenta de justiça social — não apenas como construção de edifícios, mas como criação de vizinhanças, laços e pertença.

A riqueza urbana está justamente na diversidade — nas trocas, nos encontros, nos contrastes que fazem de cada rua um espelho do mundo. Apostar em zonas homogéneas, onde se concentram os mais abastados ou, inversamente, os mais frágeis, é criar muros invisíveis que nos afastam uns dos outros. Uma cidade verdadeiramente plural deve ser um espaço de confluência de culturas, de diferentes estratos sociais e vivências.

Também por isso, o miradouro do Ingote — silencioso, livre de turistas e esplanadas gourmet — é um lugar privilegiado para ler e observar a cidade de um ponto alto, onde o horizonte se abre não só para os campos do Mondego, mas para um futuro possível: o de uma Coimbra mais justa, mais humana e, acima de tudo, mais plural.

Ana Rajado

Publicado na edição em papel do Campeão das Províncias de quinta-feira, 16 de Outubro de 2025