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Semanário no Papel - Diário Online

 

João Ferreira

Novas e velhas fronteiras da consciência

25 de Setembro 2025

O aborrecimento diante da condição humana, esse vazio que emerge quando a consciência pressente os seus próprios limites, parece ser o motor que leva Elon Musk a desejar pensar para além do suportável, a interrogar o real até ao ponto da aniquilação da própria mente.

A recente reflexão de Elon Musk, sobre a impossibilidade de compreender a verdadeira natureza do Universo sem questionar profundamente, levanta-me uma questão central: existe um limite cognitivo intransponível para a mente humana? A resposta pode estar, paradoxalmente, na própria psicologia da percepção…

Estudos clássicos de rastreamento múltiplo de objectos (Multiple Object Tracking – MOT) demonstram que conseguimos acompanhar, em média, apenas 4 a 5 elementos em movimento numa cena visual… Este limite não é arbitrário: cada objecto consome recursos atencionais mediados por regiões como o córtex parietal e frontal, até que o sistema se satura… Quando a carga ultrapassa este patamar, a precisão cai abruptamente e o rastreamento torna-se impossível… Ora, se a cognição humana colapsa face a um excesso de estímulos visuais, porque não assumir que o mesmo mecanismo se replica em escala mais ampla!?

Teorizo que à semelhança da percepção, também a consciência em default mode pode ter um tecto operativo: após 4-5 eventos inconscientes significativos processados em paralelo, a mente entra em queda livre cognitiva… Isto implicaria que, por mais que desejemos compreender a totalidade da realidade, como Musk defende, o próprio desenho biológico da mente impõe uma barreira de complexidade!

A psicologia da Gestalt já sugeria que a percepção organiza o caos em formas limitadas, buscando simplicidade. E aqui está a ponte essencial: tal como o aborrecimento emerge do excesso de vazio e de possibilidades não organizadas, a Gestalt mostra que a mente só suporta o mundo se o reduzir a padrões reconhecíveis…

 

Ultrapassar limitações

 

Aborrecimento e percepção são, assim, duas faces da mesma estratégia cognitiva: proteger-nos daquilo que, em excesso, nos poderia aniquilar! Daqui emergem duas perspectivas complementares. A primeira é adaptativa: o limite cognitivo protege-nos, filtrando o excesso e permitindo agir sem paralisia! A segunda é trágica: quanto mais profundamente questionamos, mais nos aproximamos do abismo das nossas próprias limitações!

Neste sentido, o desejo de Musk de obliterar a própria consciência para alcançar a verdade confronta-se com um paradoxo: talvez a consciência não tenha de ser destruída para revelar a realidade, porque a realidade já nos escapa, estruturalmente, em cada segundo de vida! Mas o futuro pode não estar condenado a este limite…

Se a arquitectura da mente humana está biologicamente restrita, tecnologias emergentes (como interfaces cérebro-máquina, sistemas de inteligência artificial e protocolos de neuroestimulação) podem expandir ou mesmo contornar tais barreiras, desagrilhoando o que até então estava condicionado…

Talvez a próxima fronteira da ciência não seja apenas decifrar o Universo, mas redesenhar a própria mente para poder compreendê-lo! Isto, no entanto, abre novas tensões: ao ampliar os limites cognitivos, estaremos a aceder a uma realidade mais “verdadeira” ou apenas a fabricar novas camadas de ilusão!?

Assim, o limite humano, seja no rastreamento visual ou no questionamento existencial, não é um acidente, é a condição que nos torna conscientes e, simultaneamente, ignorantes do que realmente é… Somos funis da realidade, prisioneiros de uma janela cognitiva que nunca se abre por completo; e talvez a nossa grandeza e tragédia esteja, precisamente, em viver dentro dessa estreita fresta de luz… O grande dilema do século XXI será decidir se queremos aceitar esta condição ou se ousaremos transcendê-la, arriscando perder a própria definição do que significa ser humano.

(*) Doutorando na FMUC