Em 1913, Victor Rousseau esculpiu «La maturité», onde seis brancas figuras em mármore de Carrara, todas elas nuas ou semi-nuas, fazem um todo harmonioso, ao estilo clássico. A figura de um homem de barba, já não um jovem mas ainda não um idoso, ocupa o centro do tríptico e encarna o ideal de maturidade do autor: a serenidade no olhar e um ar repousado com o corpo vagamente reclinado no assento que ocupa, transmitindo a sabedoria trazida por muitos anos vividos. Do lado esquerdo do conjunto está uma jovem desnuda ajoelhada e sorridente, com uma grinalda de flores, contemplada por uma sorridente mulher que, de pé, a cobre parcialmente com um manto. Do lado direito, surge um par amoroso e jovem, também sem roupa, ele e ela com dois braços estendidos a tocarem-se e os corpos harmonicamente encostados, num misto de passeio e dança. Junto a eles, uma sexta figura feminina, que nos mostra as costas destapadas. O conjunto é perpassado por uma ideia alegórica: o despertar para a sensualidade, acompanhado pelo olhar atento de uma mulher-mãe com sorriso e sabedoria eternas; a união, representada pelo par; e por fim a rejeição, presente na figura que nos mostra as costas. No centro, a figura do homem, despido mas com um manto, corporizaria a maturidade que dá nome à obra.
A obra, feita pelo melhor escultor belga do seu tempo, é majestosa. Adquirida pelo Estado belga em 1913, só em 1922, ultrapassadas as perturbações da Primeira Guerra Mundial, se instalou em definitivo no centro de Bruxelas, emprestando a sua grandeza e beleza à zona central escolhida para a acolher.
Volvidos 100 anos, «La maturité» está no centro da polémica. O seu valor cultural levou a que a ‘Commission royale des monuments et sites’ solicitasse em 2024 ao governo a classificação da mesma, juntamente com a praça onde se encontra. O governo de Bruxelas rejeitou o pedido. Desde logo por razões pragmáticas: o esforço de renovação do centro de Bruxelas implica obras de reconfiguração também da praça, as quais seriam inviabilizadas (ou muito dificultadas) se o espaço fosse classificado. Mas também por razões ideológicas: o conjunto escultórico, no entender do governo de Bruxelas, é «expressão de valores que já não estão em linha com os da sociedade actual» (quais?), tributário de uma «visão patriarcal das relações familiares e sociais» (onde?), com «estereótipos antiquados sobre a família e o poder mas culino» (perdão?…). A ‘Commission royale’ indigna-se: a posição do governo não reflecte uma visão científica sobre a obra, antes exprime uma apreciação do governo. Mas sossegue a Commission royale: «La maturité» não vai ser destruída à força de picaretas, vai antes ser reenviada para uma praça onde seja menos visível. Portanto, visão patriarcal do mundo, não queremos, mas aceita-se se for vista apenas por quem deambula no Square Gutenberg e já não pelos milhões que desaguam na Gare Centrale.
A decisão indigna a ‘Commission royale’ e dá algum bruáá na imprensa. A chamada “cultura de cancelamento” já atravessou o Atlântico e quer censurar esculturas nas praças europeias?
Umas polémicas depois, eis que em Setembro deste ano o governo de Bruxelas decide que, afinal, a escultura pode ficar onde está, integrada no projecto de renovação da praça. Diz agora David Weytsman, do governo de Bruxelas: “As nossas estátuas e monumentos não são objectos incómodos, que devam ser apagados. Mudá-los ou escondê-los não adianta nada. O que é preciso é assumir plenamente o nosso património, explicá-lo e transmiti-lo. É assim que respeitamos a nossa memória colectiva e que damos às gerações futuras chaves para compreender o passado e avançar”. Parece que finalmente a maturidade não está só no nome da escultura e já chegou aos governantes.