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Recordes de mobilidade académica fortalecem a ciência em Coimbra

20 de Setembro 2025 Jornal Campeão: Recordes de mobilidade académica fortalecem a ciência em Coimbra

Que têm em comum pequenas partículas que transportam substâncias bioactivas, novos plásticos à base de celulose e mudanças no código de softwares que reduzem o gasto de energia dos computadores? Todas são descobertas nascidas das iniciativas de mobilidade internacional promovidas pela Universidade de Coimbra (UC). A promessa – e realidade – por trás do Erasmus e de outros programas do género é simples: quando pessoas, ideias e métodos circulam, a ciência acelera.

Nos dois últimos anos lectivos, a UC registou sucessivos recordes de estudantes em intercâmbio. Em 2024, 2.014 alunos chegaram a Coimbra vindos de outros países, o valor mais elevado desde o início da série. Já neste arranque, os indicadores do primeiro semestre ultrapassaram os do período homólogo anterior – sinal de que um novo máximo pode estar em formação. Mais do que a simples contagem de entradas e saídas, a internacionalização apoia-se numa infra-estrutura sólida: acordos bilaterais, regulamentos, plataformas de candidatura, sistemas de reconhecimento de créditos e equipas dedicadas à gestão de cada Acordo de Aprendizagem.

Esse trabalho ganha rosto logo nas primeiras semanas de Setembro, quando a UC recebe oficialmente os novos estudantes de mobilidade em encontros de boas-vindas que quebraram recordes nos últimos dias. O Auditório da Unidade Central da Faculdade de Ciências e Tecnologia, no Pólo II, encheu-se de jovens em três sessões, com possibilidade de mais uma ser necessária.

Na Alta, o ambiente também foi intenso. Subi-la é sempre um exercício mais de história do que de esforço físico, pode dizer-se. Os cento e vinte e cinco degraus das Escadas Monumentais conduzem à Rua Larga, que fervilhou para o concerto d’Os Quatro e Meia e o Student Hub apinhou-se para encontros como “Sou estudante do Ensino Superior. E agora?”, que misturaram diferentes ansiedades e idiomas para marcar o início do ano lectivo.

Mobilidade e progresso científico

Quem associa Coimbra apenas ao traje, às serenatas boémias ou à Queima das Fitas pode não imaginar que sistemas lipídicos para veicular medicamentos, hidrogéis sustentáveis ou a optimização da linguagem Java nasçam também das ideias de jovens recém-chegados de várias partes do mundo.

Há hoje literatura robusta que relaciona mobilidade académica com produtividade científica e colaboração internacional. Estudos recentes indicam que quem circula publica mais e coopera melhor, com efeitos visíveis em diversas áreas.

Em termos simples: circular entre instituições expõe estudantes e investigadores a novos métodos, equipamentos e orientadores. Essa mudança de contexto gera comparações, ajusta hipóteses e abre co-autorias – três motores concretos do avanço científico.

“A mobilidade internacional é um instrumento de paz, de tolerância e de combate à xenofobia e ao racismo. Só por isso já valeria a pena investir mais nesses programas”, afirma o vice-reitor João Nuno Calvão da Silva, responsável pela internacionalização da UC.

Esse impacto não é recente: nasce de políticas criadas há quase quatro décadas, como o Erasmus, nascido em 1987, numa Europa ainda marcada pela Guerra Fria. A ideia era simples e ambiciosa: permitir que estudantes passassem uma temporada numa universidade estrangeira, com bolsas de apoio. Hoje, o Erasmus+ é o maior programa de intercâmbio académico do mundo, com milhões de participantes e impacto comprovado em empregabilidade, cidadania europeia e ciência.

Universidade da lusofonia

A procura, em grande parte, ocorre por alunos que têm como língua materna o português. Este factor é importante, mas não explica tudo: a excelência científica e as amplas parcerias da UC pelo mundo pesam de forma decisiva.

“A língua portuguesa é a nossa identidade. Devemos mantê-la no centro, sem deixar de abrir espaço ao inglês em áreas estratégicas. Mas nunca perder de vista que a UC é também a universidade da lusofonia”, defende João Nuno Calvão da Silva.

Exemplos ajudam a concretizar. Igor de Oliveira Reis, de 26 anos, veio de Ribeirão Preto, no Estado de São Paulo, para um doutoramento sanduíche em Enfermagem Psiquiátrica. Estuda estigma em saúde mental e testa, em Portugal, um curso para reduzir atitudes negativas entre profissionais. “A ideia é comparar os resultados no Brasil e em Portugal, com a orientação local da professora Tereza Barroso”, conta. O seu projecto é multicêntrico, com dados agregados numa base na Irlanda, e a língua portuguesa facilita a recolha em hospitais e unidades de saúde.

De outra área científica, mas com a mesma lógica de colaboração internacional, está Samuel Oliveira Teixeira, 32 anos, doutorando em Ciências Animais, que veio do Estado do Pará para estudar a nutrição de peixes e o desenvolvimento de rações mais eficientes para a aquicultura. Escolheu Coimbra para colaborar com o professor Ivan Viegas, referência na área. A estadia será de sete meses. “Vamos buscar, na pesquisa, rações que sejam mais eficientes, tanto economicamente como nutricionalmente”, explica.

Impacto dentro da Universidade

A mobilidade também muda a própria instituição. No currículo, a UC adaptou regras para garantir equivalência automática de disciplinas previstas no Acordo de Aprendizagem, reduzindo a ansiedade de “perder tempo” académico.

Na oferta lectiva, embora a língua portuguesa seja eixo identitário em Coimbra, várias unidades oferecem cadeiras em inglês e cursos de Português Língua Estrangeira, estratégia que aumenta a base de mobilidade sem descaracterizar a missão lusófona.

No ecossistema europeu, a EC2U reforça o “como”: com mestrados conjuntos, semanas empreendedoras e eventos estudantis, cria rotas previsíveis de circulação entre universidades e cidades, do laboratório à vida no campus.

Por que razão a mobilidade gera ciência?

Porque altera as condições concretas de trabalho académico: novos pares, novas infra-estruturas, novas perguntas. Em Coimbra, os números recentes mostram procura crescente. A regulação e as alianças fornecem a mecânica para transformar rotas em créditos e projectos, e a literatura confirma os efeitos de longo prazo em colaboração, produção e empregabilidade.

No fim, aquilo que se vê no laboratório não é um acaso: é o resultado de políticas de circulação bem desenhadas. A questão agora é de escala: quão rápido universidades e financiadores expandirão este modelo para que mais cientistas transformem mobilidade em conhecimento útil – em Coimbra, no país e além.

Marcelo Domingues Tomaz (texto)

Publicado na edição em papel do Campeão das Províncias de quinta-feira, 18 de Setembro de 2025