Quarta-feira passada, foi um dia trágico para Lisboa e para o país. Trágico para a imagem de Portugal além fronteiras. Trágico pelo impacto no turismo e da desconfiança que possa resultar de um acidente impactante e impressionante nos seus contornos. Trágico, em primeira instância, para tantas famílias em aflição e em luto.
O infortúnio de um elevador centenário, que se desfez contra uma parede de desespero. E ele, o povo de Lisboa, que estava nas cercanias do sinistro, acorreram mesmo antes dos socorristas, que levaram apenas três minutos a chegar ao local. Nós, os portugueses, temos que ter orgulho nas nossas gentes. Nos fardados e nos civis, que são o espelho do nosso humanismo, da solidariedade e do profissionalismos, quando em tempo de angústia, nos mobilizamos em torno de uma tragédia.
A glória na inglória. A glória que todos temos que ter no nosso Serviço Nacional de Saúde. Porque nos hospitais de Lisboa e Cascais, a mobilização foi geral. Os médicos, enfermeiros, pessoal auxiliar num propósito comum de socorrer quem podia ser socorrido, porque para dezasseis cidadãos de várias nacionalidades, a meta era já ali, naquele declive aparatoso sob carris.
Eles, os médicos da especialidade de ortopedia no conforto dos seus lares, tendo consciência da falta de clínicos da área, rápido se dirigiram aos hospitais, no ajudar dos colegas naquela emergência. E alguns, não residentes em Lisboa, partiram rumo à capital, numa atitude de transcendente humanismo e profissionalismo.
Temos que ter orgulho nestes nossos compatriotas da área da saúde. Médicos e não só. Temos que ter orgulho no povo que somos, na sua globalidade, nas suas diferenças entre iguais, nas suas tradições seculares e endógenas. Tantas e tantas vezes nos desmerecemos em relação a outros povos, sem um qualquer argumento sustentável.
Naquela quarta-feira fatídica, escreveu-se uma página negra da nossa história coletiva. Mas, no meio daquela desgraça, emergiu um Serviço Nacional de Saúde, capaz de responder ao desafio. Por esta razão, por todas as razões, é preciso acarinhar este nosso bem precioso. De o defender. De não navegarmos em águas mornas, e de só clamarmos por ele, quando nos vemos numa qualquer aflição individual ou coletiva. É um dever. É uma obrigação.
Nós, os portugueses como um todo, da população aos bombeiros, de médicos a enfermeiros, da Polícia á Proteção Civil e à Guarda Republicana, todos temos o direito a saber o que aconteceu. Que quem tem a responsabilidade política desta fatalidade, não se esconda atrás de burocracias e de discursos redondos e de circunstância. Os sinistrados sobreviventes do elevador do nosso tormento, merecem respeito e respostas honestas e conclusivas desta tragédia. E a memória dos falecidos e seus familiares também.
Coimbra, 5 de Setembro, de 2025
Kito Pereira